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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Jonas: conversão e missão - encontros com o povo – 4

CNBB*

Aprofundamento 4: Tu és um Deus de misericórdia e ternura (Jn 4,2c)

O livro de Jonas trata, antes de tudo, da universalidade da misericórdia divina. Deus foi clemente com os marinheiros, impedindo que o barco afundasse; perdoou os ninivitas; teve compaixão de Jonas afligido pela irritação; enfim, a benevolência divina se estendeu até aos animais.

Arrepender-se e contar com a misericórdia de Deus não é um tema estranho, mas bastante desenvolvido pelo pensamento bíblico. Contudo, Jonas se recusa a pedir aos ninivitas que se arrependam. Jonas está limitado por sua “verdade”, segundo a qual Deus é amor e ternura para Israel e fúria e castigo para as nações. Jonas se irrita porque deseja ver Nínive destruída. Mas o clímax desse livro é exatamente mostrar que o Deus de Israel é compassivo até mesmo para com os piores inimigos do povo da aliança, os ninivitas. O Senhor é graça e misericórdia para com as nações e agirá com severidade também para com Israel. Por isso que na liturgia judaica, o livro de Jonas é lido no Dia do Perdão (Dia da Expiação, cf. Lv 16,1-34) quando todos os judeus fazem penitência e jejuam durante vinte e quatro horas pedindo perdão pelos pecados.

O último capítulo do livro de Jonas deixa claro, com fina ironia, que por duas vezes Deus salvou os pagãos através do nosso protagonista. No início do livro, uma terrível ameaça de morte pesava sobre os pagãos no barco. Agora o mesmo acontece aos ninivitas: os pagãos clamam a Deus, convertem-se e são salvos.
Isso irrita Jonas profundamente. Ele não quer ser missionário porque não deseja a salvação dos “maus”, mas a destruição deles. A verdadeira razão da fuga de Jonas não era o medo dos desafios ou de que os ninivitas lhe fossem hostis. O motivo da fuga foi o medo de se tornar um instrumento da misericórdia de Deus em favor dos ninivitas (Jn 4,2). Jonas sabia que, se o Senhor o enviava para Nínive, era porque tinha a intenção de salvá-la, pois se quisesse destruí-la o teria feito sem avisar.

Para Jonas, seria melhor morrer que lidar com o amor de Deus para com Nínive e fica profundamente irritado porque os ninivitas foram salvos. A misericórdia do Senhor sobre os ímpios vai contra tudo que Jonas acreditava e no qual baseava a própria vida. Jonas não vê sentido em continuar vivendo, seu mundo caiu, pois Deus faz tudo ao contrário do que ele pensa. Para Jonas, a atitude do Senhor em relação à Nínive e à mamoneira é motivo de grande decepção. À primeira Deus deveria ter destruído, à segunda deveria ter salvo. Deus, porém, recusou-se a seguir os esquemas de Jonas.

O final do livro é surpreendente. Jonas, afinal, é quem está agindo fora da lógica de Deus: sente misericórdia por um vegetal efêmero e deseja a morte de uma multidão de seres humanos.

Este é o sinal de Jonas mencionado por Jesus: a proclamação do Reino de Deus às nações e a ressurreição de Jesus [1] significam que Deus não segue os planos da humanidade, mas os seres humanos é que devem aderir ao seu projeto de redenção, o que implica a necessidade de conversão não somente dos ouvintes, mas também do missionário. Alguns judeus ao se dirigirem a Jesus estavam na mesma atitude de Jonas e por isso lhes foi dado o sinal de Jonas. Hoje, o mesmo sinal é dado aos cristãos.

Chegamos ao final do livro, cuja trama converge para uma pergunta da parte de Deus: “E não teria eu misericórdia de Nínive, a grande cidade?” (Jn 4,11). Esta pergunta do Senhor deixa o livro com o final aberto. Trata-se de um convite à meditação sobre que concepções os leitores de todos os tempos tem de Deus.

Notas:
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[1] Cf. CHOW, Simon. The Sign of Jonah Reconsidered, Stockholm: Almqvist & Wiksell, 1995.

*CNBB - Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética. Mês da Bíblia 2010 - Texto para o povo. Elaborado por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj.

domingo, 19 de setembro de 2010

Jonas: conversão e missão - encontros com o povo – 3

CNBB*

Aprofundamento 3: Anuncia-lhes a mensagem que eu te disser (Jn 3,2)

No terceiro capítulo do livro de Jonas, nosso protagonista recebe novamente a ordem de ir a Nínive. Dessa vez não há fuga, a missão é realizada com sucesso. Contudo, propositalmente, o autor sagrado não nos informa sobre as palavras que Deus mandou Jonas comunicar aos ninivitas.

Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e anuncia-lhe a mensagem que eu te disser (Jn 3,2).

Mas Jonas não teve aquela disponibilidade necessária a todo missionário. Atravessou, em apenas um dia, uma cidade que deveria ser percorrida em três dias (cf. Jn 3,3-4). O que foi anunciado aos ninivitas não parece ter sido o que Deus verdadeiramente desejava comunicar. Jonas anunciou um castigo tremendo (Jn 3,4), mas em nenhuma passagem desse livro bíblico se tem Deus mencionando castigo. A mensagem que o Senhor quis comunicar está explícita em Jn 1,2 e diz apenas que Deus conhece a iniqüidade dos ninivitas. Então, Jonas deduziu que para tão grande pecado deveria haver um tremendo castigo.

A frase “e Deus arrependeu-se do mal que ameaçara fazer-lhes” (Jn 3,10b) pode ser um acréscimo redacional posterior para harmonizar o conteúdo da proclamação de Jonas com o perdão de Deus. Contudo, o autor deixa bem claro que o perdão concedido aos ninivitas é por pura gratuidade e não como conseqüência da penitência. Deus perdoa a grande cidade iníqua porque ama a criação que saiu de suas mãos, não apenas os seres humanos, pois até os animais são citados como alvos da misericórdia divina (Jn 4,11).

Por isso, o pecado de Jonas é grave. “O profeta é o porta-voz de Deus. Não tem o direito de acrescentar ou de suprimir seja o que for da Palavra”[1]. Jonas necessita de conversão mais que os ninivitas.

Que contraste! Todos parecem fazer a vontade de Deus, exceto Jonas. Quando estavam no barco, os marinheiros pagãos eram mais piedosos, enquanto Jonas, tido por justo, era o único que estava desobedecendo ao Senhor. Até mesmo o mar, o peixe, a planta, o verme, o vento oriental, todos são obedientes a Deus. Jonas, ao contrário, mesmo quando parece obedecer ainda não o está fazendo.

Jonas diz aos ninivitas que adora o Senhor, mas isso é uma contradição, visto que a adoração verdadeira consiste em colocar-se a serviço de Deus e dar-lhe a própria vida. Aliás, nesse livro bíblico, são os pagãos, e não Jonas, que desempenham o papel de verdadeiros adoradores [2].

Apesar de ser um missionário rebelde, nosso protagonista alcança incontestável sucesso na missão: a cidade inteira faz penitência (Jn 3,5). E quão maravilhoso não teria sido, se em vez de pregar o castigo, o missionário tivesse percorrido a cidade calmamente anunciando o perdão?

Após a pregação de Jonas, o rei dos ninivitas publicou um decreto de penitência e ele mesmo deu o exemplo. O jejum e os demais ritos penitenciais são, na Escritura, sinais de sincero arrependimento e expressão de uma mudança radical de conduta (Jn 3,8). As palavras do rei (Jn 3, 7b-8) , tido por pagão e iníquo, são muito mais teológicas que a pregação de Jonas [3]. Aliás, o pecado dos ninivitas não é a idolatria, ou o ateísmo como diríamos hoje, ou seja, não são inimigos de Deus. O pecado de Nínive é a iniqüidade, a injustiça ou a violência. Estas são três formas de traduzir o mesmo termo hebraico. Esse é o pecado que chegou até Deus (Jn 1,2) e que o rei denuncia (Jn 3,8). Era isso que Jonas deveria ter dito aos ninivitas: denunciar o pecado, chamar à conversão (mudança de vida) e proclamar o perdão divino. Mas nosso protagonista estava demasiadamente cheio de suas doutrinas religiosas, sobre um Deus severo e castigador, para entender o perdão gratuito. Jonas colocou-se no lugar do Senhor: se ele fosse Deus transformaria os ninivitas em cinzas. Era isso que ele esperava que Deus fizesse e foi isso que ele anunciou em Nínive.

Notas:
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[1] MORA, Vincent. Jonas, São Paulo: Paulinas, 1983, p. 22.
[2] Ibidem, p. 15.
[3] Ibidem, p. 23.

*CNBB - Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética. Mês da Bíblia 2010 - Texto para o povo. Elaborado por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj.

domingo, 12 de setembro de 2010

Jonas: conversão e missão - encontros com o povo - 2

CNBB*

Aprofundamento 2: A salvação pertence a Deus (Jn 2,9)

A maioria dos estudiosos concorda que o capítulo dois do livro de Jonas consiste de um salmo agregado posteriormente ao texto primitivo. O argumento principal dos estudiosos é que se trata de uma ação de graças pelo livramento de um perigo de morte (Jn 2,3). O salmo rompe o desenrolar da narrativa sendo que 2,11 é a continuação do que está em 2,1, mostrando que o relato seria coerente sem o salmo .

A primeira parte da oração (2,1-4) trata de angústias e esperanças. Por causa da aflição, o salmista clama a Deus, do lugar mais profundo (o abismo), que significa o mar, o sepulcro ou a angústia (cf. Sl 88,7). Ele sente que se afoga, é como um náufrago, pois está longe da presença de Deus, mas tem a esperança de que após a superação da tribulação, finalmente, louvará a Deus no Templo de Jerusalém (cf. Sl 42 e 43). Isso mostra que a oração de Jonas é composta a partir de vários salmos antigos.

A segunda parte trata da libertação de um perigo de morte (2,5-7). O salmista sente que as águas o rodeiam, ameaçando a vida dele (cf Sl 69,1), mas imediatamente afirma que foi salvo quando estava afundando no desespero. Sua oração testemunha que Deus atende o clamor dos aflitos.

A última parte do salmo (2,8-10) é sobre a adoração ao Deus verdadeiro em contraposição à idolatria. Agora o salmista exorta a todos que se mantenham perto de Deus. O autor apresenta um contraste entre os que buscam a idolatria e os verdadeiros adoradores. O salmista termina confiando que um dia irá ao Templo para oferecer os sacrifícios prometidos (sacrifícios de louvor, cf. Os 14,2b). A gratidão é um compromisso com Deus: quem ama quer comprometer-se com a pessoa amada.

O salmista conclui com um reconhecimento de que a salvação vem do Senhor (cf. Sl 3,8; Sl 68,19-20). E nós podemos concluir, a partir de Jesus Cristo, que a salvação de Deus pode se estender a todas as pessoas, sem exceção; basta que lhes chegue a boa-notícia do perdão de Deus e que elas, por sua vez, respondam positivamente a tão grandiosa graça.

*CNBB - Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética. Mês da Bíblia 2010 - Texto para o povo. Elaborado por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj.

domingo, 5 de setembro de 2010

Jonas: conversão e missão - encontros com o povo - 1

CNBB*

Aprofundamento 1: Levanta-te, vai à grande cidade e proclama... (Jn 1,2)

Com a expressão “o Senhor dirigiu a palavra a...” o texto bíblico nos remete aos antigos profetas. Mas a profecia não é previsão do futuro e sim Palavra de Deus ao ser humano por intermédio de um porta-voz, o profeta. Entretanto, a atitude de Jonas é oposta às dos antigos profetas. Estes, estavam sempre diante da face de Deus (1Rs 18,15; Jr 15,19), numa atitude típica de obediência. Jonas, contudo, vai para longe da presença do Senhor. Em Is 66,19, Társis é uma das comunidades que nunca ouviu falar do Deus de Israel; portanto, naquela época se acreditava que a presença de Deus não estaria naquele lugar. E é para lá que Jonas pretende ir fugindo de Deus e de sua missão profética.

Estar “longe da face do Senhor” significa uma atitude de rebeldia. Essa expressão só ocorre mais duas vezes na Bíblia e se refere a Caim (Gn 4,13.16). Então, o autor sagrado quer nos mostrar a semelhança entre Jonas e Caim. Ambos facilmente se irritam contra Deus (Gn 4,5; Jn 4,4) e o Senhor lhes pergunta o motivo da irritação (Gn 4,6; Jn 4,9).

A raiva de ambos contra Deus é porque o Senhor não age conforme eles gostariam que agisse. Caim tem ciúmes da relação de Deus com Abel e isso o move a desejar a morte do irmão. Depois foge da face do Senhor porque sua rebelião o tornou um assassino. Jonas foge da face divina porque tem ciúmes do Senhor com os habitantes de Nínive. Para entender essa postura de Jonas é necessário conhecer a época na qual viveu o autor do livro, que determina a trama da narrativa.

Quando o livro de Jonas estava sendo escrito, a cidade de Nínive já havia sido destruída há quase três séculos (foi arrasada pelos babilônicos em 612 aC). Mas essa grande capital da Assíria entrou para a história do povo da Bíblia como símbolo do pecado e da violência. Representava o paganismo, igualada apenas às lendárias cidades de Sodoma e Gomorra (Gn 13,13; 18,20-21). Mas Deus não queria condenar a grande cidade, apesar dos muitos pecados que existiam nela. O Senhor queria salvar Nínive e por isso enviou Jonas. O autor bíblico está tão interessado em enfatizar a importância dos ninivitas para Deus que o nome da cidade aparece no início (Jn 1,1), no meio (3,1) e no fim da narrativa (4,11).

Nínive é descrita em menos de um versículo. Suas principais características são: ser uma grande cidade e ter vivido uma iniqüidade que chegou até Deus. Três dias seriam necessários para atravessá-la (Jn 3,3), enquanto a antiga Jerusalém era percorrida em menos de uma hora; mas a expressão “três dias” ou “terceiro dia” tem um significado teológico: é um jeito de expressar o tempo da salvação ou da ação de Deus em favor do justo (cf. Os 6,2). Na realidade, Nínive, no livro de Jonas, é uma cidade simbólica. É a cidade da injustiça (1,1), é o símbolo do mundo pagão.

O autor de Jonas escolheu a cidade de Nínive para simbolizar um mundo sem Deus porque a capital do antigo império assírio entrou para a história como implacavelmente cruel, com suas “guerras de conquistas, espoliações, deportação de populações, trabalhos forçados, imposição de tributos exorbitantes, inúmeros saques, terras devastadas” [1].

Apesar de tantos anos terem se passado, Nínive continuava sendo o símbolo da “injustiça, da crueldade, do sangue derramado, em suma, o símbolo do mal” (Idem).

Na mentalidade de um judeu daquela época não podia haver gente pior que os ninivitas, mas autor bíblico afirma que foi para com eles que o Senhor demonstrou muita misericórdia apesar de conhecer seus graves pecados.

Nota
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[1] MORA, Vincent. Jonas, São Paulo: Paulinas, 1983, p.29.

*CNBB - Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética. Mês da Bíblia 2010 - Texto para o povo. Elaborado por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Jonas: conversão e missão - encontros com o povo

CNBB*
No final do século V AC, ou início do século IV aC, os judeus estavam incomodados porque, apesar de todas as profecias contrárias, uma nação após outra investia contra Israel. Os judeus se perguntavam porque o Senhor ainda não tinha julgado e castigado os ímpios. Naquela época, no retorno do exílio da Babilônia (por volta de 530 aC), os descendentes de Abraão se fecharam num gueto e tomaram uma postura extremamente nacionalista e de repúdio a todos os que não pertenciam à descendência de Israel.
O livro de Jonas quis mostrar às pessoas daquela época que uma atitude extremamente nacionalista significava uma negligência, por parte dos descendentes de Abraão, de sua vocação mais sublime que é ser uma bênção para as nações, luz do mundo e sal da terra.
Se Deus quis abençoar todos os povos através de Abraão, isso é sinal de que não quer destruí-los, mas achegá-los a si. O Senhor ainda não julgou as nações porque falta alguém que anuncie a misericórdia de Deus para com os ímpios. Falta a proclamação do perdão divino.
O livro de Jonas tem como tema a misericórdia e o perdão de Deus para todos, não apenas para os bons ou religiosos. O Senhor é compassivo para com judeus e gentios e, não só para com os seres humanos, mas também em relação aos demais seres da criação. No livro de Jonas é afirmado que a misericórdia de Deus foi estendida até mesmo sobre o pior império que já existiu, representado nesse livro bíblico pela grande cidade de Nínive. O autor bíblico quer convencer os leitores de que o fato de uma pessoa não pertencer ao povo de Israel não a torna um mau sujeito. Atualizando Jonas, pode-se dizer que se uma pessoa não pertence à nossa religião/Igreja isso não significa que seja inimiga de Deus ou pecadora. Da mesma forma que afirma a misericórdia de Deus para todas as pessoas, o livro de Jonas critica a quem se acomoda ou se recusa a anunciar o perdão e o amor divinos para aquelas ovelhas que ainda não estão no aprisco do Senhor.
Desde o início, os estudiosos desconfiaram que o personagem Jonas não é histórico no sentido exato, por causa de alguns paradoxos presentes na narrativa:
- nenhuma criatura marinha é capaz de engolir um homem inteiro e mantê-lo vivo no estômago por três dias;
- não consta no livro o nome do rei assírio que decretou a penitência e não há nenhum registro disso nos antigos documentos da Assíria encontrados pela moderna arqueologia;
- em muitas lendas das civilizações antigas há menção a alguém que é tragado por um grande peixe e depois se safa de forma extraordinária;
- o livro de Jonas nem uma vez menciona os termos Israel, profecia e profeta.
- o termo hebraico kikayon quer dizer “efêmero” e, geralmente, é traduzido por mamoneira, mas nenhuma planta desse tipo cresce numa noite e seca em uma hora.
O livro de Jonas não é uma narrativa com exatidão histórica. Mas os acontecimentos históricos estão por baixo do personagem que foi criado para transmitir uma mensagem. Não existiu de fato um Jonas, mas vários Jonas, ou seja, todas as pessoas daquela época que estavam negligenciando a missão de falar da misericórdia de Deus para todas as nações. A ficção foi criada para denunciar, com maior ênfase, a realidade histórica da época do autor e de seus primeiros leitores. Jonas é uma novela humorística, do mesmo gênero literário como aquelas que passam na TV, mas é através do humor e da ficção que o autor denuncia o nosso comodismo.
É importante ler o texto dentro do seu contexto para não corremos o risco de ficarmos com a leitura do livro de Jonas ao pé-da-letra, impedindo-nos de perceber a grande verdade que é dita por trás do humor.

*CNBB - Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética. Mês da Bíblia 2010 - Texto para o povo. Elaborado por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mês da Bíblia - Jonas: conversão e missão (texto base) - continuação

Aíla L. Pinheiro de Andrade*, nj.

4. Evangelizar é preciso, converter-se é urgente

O livro se inicia como muitos livros proféticos afirmando que a palavra de Deus veio a... (Os 1,1; Jl 1,1; Mq 1,1; Sf 1,1; Ag 1,1; Zc 1,1). Com isso se estabelece um convite ao leitor para se identificar com o protagonista e se tornar um canal para que a palavra de Deus chegue a todos os povos. Lendo o livro atentamente se chega à conclusão que Deus é diretor do drama, ele está no controle de tudo, está determinado a fazer sua misericórdia chegar aos ninivitas. Ele prepara (em hebraico, manah) um peixe (2,1), uma mamoneira (4,6), um verme (4,7), um vento oriental (4,8). E Jonas não consegue mudar o roteiro ou projeto divino. Deus começa e termina o livro, a sua palavra é soberana e não volta a ele sem que se torne efetiva e produza o fruto almejado (Is 55, 11).

A missão de Jonas é precisa: tem que anunciar aos habitantes da grande cidade de Nínive que sua iniquidade subiu até Deus. Isso consiste numa parusia conforme se procedia em antigos reinos. O termo grego parusia significava a visita do rei a uma região distante da sede do governo para resolver certos problemas administrativos como o abuso de autoridade dos governantes e a prática da iniquidade por parte destes. O aviso de que o rei está sabendo da iniquidade, dava tempo aos culpados para mudar de conduta como também deixava os oprimidos cheios de esperança que o rei lhes fizesse justiça. Nesse sentido, o que Jonas deve anunciar é a parusia do verdadeiro rei do universo sobre um vassalo, o rei de Nínive. De nenhuma forma se trata de um veredicto definitivo do juiz, mas de um aviso para que haja oportunidade de mudança de atitude por parte dos que estão praticando o erro. Não é uma condenação, mas uma boa-notícia o que Jonas deve anunciar.

O mandato missionário consiste em três imperativos: levanta-te, vai, proclama (Jn 1,2; 3,2). O termo chave é o verbo hebraico qara' que significa proclamar ou gritar. Esse termo aparece sete vezes nesse livro: três vezes se diz qara' (proclama) a Nínive; três vezes se diz qara' (clama) a Deus e uma vez se afirma qara' (proclama) um jejum. A proclamação do jejum faz a ligação entre proclamar a Nínive e clamar a Deus. O mesmo termo aparece no salmo do capítulo dois (Jn 2,3), mas trata-se de um acréscimo bem posterior.

Apesar de não haver, em nenhuma parte do livro de Jonas, uma palavra vinda de Deus para condenar Nínive, é isto que o missionário anuncia: “Dentro de quarenta dias Nínive será destruída!” (Jn 3,4). Por que o missionário diria isso se a palavra de Deus foi outra (Jn 1,2)? Ora, segundo a ideologia da retribuição, se Deus sabia da iniquidade de Nínive deduzia-se que ele a destruiria como castigo pelos pecados. O termo hebraico haphak significa a total destruição de uma cidade e é usada na Bíblia somente para se referir a Sodoma e a Gomorra (Gn 19,29). Jonas anunciou uma consequência lógica de suas concepções teológicas. Por esse motivo o livro de Jonas chama à conversão, não apenas os ouvintes, mas primeiramente o missionário.

De fato, Jonas é, de todos os personagens desse livro, o que mais precisa de conversão. Ele pode ser definido como o desobediente. Aos três imperativos da missão (levanta-te, vai, proclama, Jn 1,2; 3,2) Jonas age em sentido contrário: desce (1,3), foge (1,3), dorme (1,5). Os estrangeiros, tanto os marinheiros quanto os ninivitas, foram mais religiosos, e até o mar, o peixe, a planta, o verme, o vento oriental, todos submetem-se à vontade de Deus. Jonas, ao contrário, mesmo quando parece ser obediente não o é de fato, pois anuncia a mensagem em apenas um dia, quando se levaria três dias para atravessar a cidade. E proclama um conteúdo diferente daquele que lhe foi indicado.

Apesar de tudo os ninivitas creram em Deus (Jn 3,5), o termo hebraico usado é 'aman, o mesmo usado para descrever a fé de Abraão (Gn 15,6), isso significa que eles depositaram toda a sua confiança em Deus, mesmo tendo recebido uma mensagem de condenação. O que não fariam, então, se tivessem recebido a boa-nova? Também os marinheiros estrangeiros adoraram o Deus de Israel (Jn 1,14-17), apesar de Jonas ter preferido ser lançado ao mar que falar-lhes sobre a misericórdia do Senhor. O grande problema do livro de Jonas, a maior dificuldade é a conversão do missionário e não a dos iníquos e dos idólatras.

A conversão dos ninivitas começou com o povo e depois chegou ao rei, o qual expediu um decreto de penitência geral, incluindo também os animais (Jt 4,9-10) para mostrar que a criação inteira é afetada pelos nossos pecados. A reação do rei de Nínive foi muito distinta do procedimento dos reis de Israel que poucas vezes consideraram a exortação dos profetas. Assim como os marinheiros, o rei confiou na misericórdia de Deus, mesmo sem que Jonas a mencionasse em nenhum momento. E Jonas sabia que Deus é misericordioso, isso faz parte da fé de Israel (Ex 34,6).

Para demonstrar seu arrependimento sincero os ninivitas se uniram, desde os da mais alta classe social até os mais humildes, na busca da misericórdia de Deus. Para mostrar isso empregaram os símbolos da época: fizeram um jejum e vestiram-se de panos de saco (Jn 3,5). Esse costume era empregado em momentos de tristeza (2Sm 3,31; Jr 6,26), de luto (Est 4, 1-3), de arrependimento (Ne 9,1; Jó 42,6) e de humilhação (Dn 9,3-5).

Esses gestos externos eram expressões de uma mudança radical de atitude. Cada um deveria deixar o seu mau caminho (Jn 3,8-10), ou seja, o estilo de vida caracterizado pelo pecado e pela violência. O verbo arrepender-se, em hebraico shuv, significa uma mudança radical, uma volta de 180 graus. Consiste em deixar um estilo de vida fundado na iniquidade por uma vida nova com perspectivas totalmente diferentes.

Mas a resposta de Deus à conversão dos ninivitas desagradou totalmente a Jonas, deixando-o profundamente irritado. Isto o fez revelar o objetivo da tentativa de fuga; não fora por medo da violência dos ninivitas nem por receio do desconhecido, como poderíamos supor. Para surpresa do leitor, Jonas diz que fugiu porque Deus é misericordioso, lento para a cólera e não faria mal a Nínive (Jn 4,2). Jonas não queria ser mensageiro de Deus porque assim evitaria que os ninivitas usufruíssem da misericórdia divina. Mas já que não conseguiu fugir dessa tarefa, agora preferia morrer a ver a salvação daqueles que considerava ímpios.

À revelia disso, o Senhor do céu e da terra ama a totalidade da criação. Essa é uma afirmação revolucionária para a maioria dos judeus contemporâneos do autor do livro de Jonas, pois se o Deus de Israel cuida de todos os seres, povos e nações, qual o lugar de Israel como povo da aliança? Hoje diríamos: qual o privilégio de ser cristão, se Deus ama os ateus, os membros de outras religiões e até mesmo aqueles que maculam sua imagem com o ódio? Isso significa que o povo de Deus deve investir na salvação dos iníquos e não na destruição deles. Os opressores, os violentos, os ímpios conhecerão a misericórdia e a redenção que vem de Deus através dos missionários de boas notícias.

O livro de Jonas termina bruscamente como é próprio desse gênero literário. Com isso permite ao leitor de cada geração fazer uma autocrítica e responder à pergunta do Senhor, confrontando-se com as atitudes de Jonas, dos marinheiros e dos ninivitas. Quem nunca desejou o desaparecimento definitivo do opressor ou do malvado? Quem se sente confortável em saber que “a misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13)? O amor e a misericórdia de Deus se estendem a cada pessoa e deseja a conversão de todos.

O final do livro mostra o contraste entre Jonas e Deus: um deseja a morte, o outro, a vida; um quer a destruição, o outro, a salvação. O livro inteiro é uma exortação à conversão e à misericórdia, ambas são indesejáveis a Jonas e ele necessita das duas. O livro desafia o cristão atual, herdeiro da vocação de Israel, a deixar-se corrigir pela Palavra inspirada, santa e perfeita, útil para exortar e para “discernir os propósitos do coração” (Hb 4,12).



** Publicado originalmente no site da CNBB.

*Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Intituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

domingo, 29 de agosto de 2010

Mês da Bíblia - Jonas: conversão e missão (texto base)

Aíla L. Pinheiro de Andrade*, nj.

LEVANTA-TE E VAI À GRANDE CIDADE (Jn 1,2)**

Quem nunca ouviu falar no profeta Jonas que foi engolido por um grande peixe? Mas seria esse episódio o que há de mais importante nesse livro bíblico? Em que esse fato seria relevante para a fé dos judeus e para fé cristã hoje? As respostas a estas perguntas dependem de um estudo atento do texto bíblico dentro de seu contexto histórico, somente assim é possível descobrir traços que indiquem o perfil de quem o escreveu, a época de seu surgimento e, seus destinatários imediatos. Com esses dados, a mensagem de Jonas se mostrará atual para o século XXI.

1. O Autor
Numa leitura superficial do texto bíblico, o leitor contemporâneo pode cometer o equívoco de pensar que o autor desse livro tenha sido um profeta nacionalista de Israel do Norte, chamado Jonas, filho de Amitai, que viveu durante o reinado de Jeroboão II, por volta de 790-750 a.C., mencionado em 2Rs 14,25 e em Jn 1,1. Não é raro encontrar leituras fundamentalistas da Bíblia que tendem a concluir que o autor do livro de Jonas tenha sido aquele profeta do séculoVIII a.C.
Alguns aspectos do livro de Jonas, contudo, nos levam a concluir que a obra não poderia ter sido escrita no tempo de Jeroboão II, como veremos a seguir. Mas, se o livro não é do século VIII a.C. e se o autor não é o profeta Jonas, por que o texto se inicia com a seguinte indicação: “Veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai...” (Jn 1,1)?

O autor usa um recurso literário chamado de pseudonímia. Ele não está interessado em destacar a autoria do livro, nem em focalizar sua identidade. Isso era muito comum naquela cultura. Os autores dos livros bíblicos geralmente não assinam suas obras porque acreditam que estão apenas representando a fé e a experiência de um povo do qual são membros, ou seja, eles não falam em nome próprio e com seus escritos querem apenas trazer os filhos de Israel de volta para a aliança firmada com Deus.

O autor do livro permanece anônimo e usa como pseudônimo o antigo profeta Jonas, filho de Amitai, porque esse recurso o ajuda a divulgar melhor sua mensagem. Não sabemos quem escreveu o livro de Jonas, mas podemos fazer um perfil de sua personalidade a partir do texto bíblico. É alguém com mente aberta, como diríamos hoje, para ele todas as pessoas são alvos do amor e da misericórdia de Deus. É uma pessoa bem humorada que usa o recurso da ironia para convencer os judeus nacionalistas de sua época da inconsistência da postura exclusivista que considerava apenas o judeu como merecedor do amor de Deus.

2. A época
Para ter uma idéia sobre a época em que esse livro foi escrito, alguns aspectos devem ser considerados. Em primeiro lugar não é possível que seja do século VIII a.C., quando viveu o profeta nacionalista Jonas filho de Amitai, pois o texto hebraico emprega expressões conhecidas só muito tempo depois reinado de Jeroboão II [1]. Afirmar que o livro de Jonas foi escrito no século VIII a.C. seria algo semelhante a dizer que um dos modernos escritores brasileiros teria vivido no tempo de Dom João VI. O hebraico sofreu modificações ao longo da história, como acontece a qualquer idioma.

Outro aspecto a ser levado em conta é que o livro de Jonas contém expressões em aramaico [2], idioma oficial dos judeus durante o domínio persa (538-333 a.C.), mas que não era falado por eles antes do exílio da Babilônia (587-538 a.C.). Portanto, o livro tem que ser posterior ao século VI a.C.

Em Jn 1,9 encontra-se a expressão “Deus dos céus que fez o mar e a terra”. Isso indica um período tardio da teologia de Israel. Em épocas mais antigas era comum falar no Deus libertador, destacando as características de guerreiro, que fez aliança com Israel considerado seu único povo dentre todas as nações.

Esses e outros aspectos levam à conclusão que o livro de Jonas foi escrito após o período de Esdras e Neemias quando a maioria dos judeus, depois de sofrer a dominação de vários impérios estrangeiros, havia desenvolvido forte espírito de exclusivismo e de particularismo e não queria uma aproximação com outros povos e muito menos exercer a vocação missionária de fazer o Deus de Israel ser conhecido e amado pelas demais nações.

Como o livro de Jonas faz parte do bloco dos doze profetas, mencionado em Eclo (Sir) 49,10-12, ele não pode ter sido escrito depois do ano 170 a.C, possível época do surgimento do Eclesiástico. Por isso a maioria dos estudiosos está de acordo que o livro de Jonas data provavelmente do final do século V a.C, ou início do século IV a.C.

3. A obra
O autor do livro de Jonas, unindo o recurso da pseudonímia ao da ironia, escreve um conto edificante que termina com uma lição dada por Deus ao protagonista. O conto edificante é um gênero literário muito conhecido entre os mestres judeus e, nesse caso específico, podemos classificá-lo como um midraxe hagadá, ou seja, uma narrativa que interpreta um texto bíblico à luz de um contexto histórico posterior.

O autor do livro de Jonas, ao ler 2Rs 14,25s quatro séculos depois, se pergunta como o Deus de Israel poderia conceder uma profecia de coisas boas para o Reino do Norte no tempo de Jeroboão II se o povo daquela época era desleal e tinha um rei que persistia em todos os pecados dos seus antecessores. A teologia que estava em voga, no tempo em que 2Rs foi escrito, considerava o relacionamento de Deus com o ser humano regido pela bipolaridade justiça-bênção e injustiça-castigo. Nessa visão mecanicista da vida e das relações se supunha que as ações humanas desencadeariam bemestar geral ou má sorte, conforme agradasse ou desagradasse a Deus. Era pensar comum que o futuro do ser humano dependeria da submissão a essa ordem da qual nem Deus poderia fugir. Esse tipo de pensamento foi nomeado pelos estudiosos como Teologia da Retribuição, o melhor seria designá-la por ideologia da retribuição.

Sendo assim, como é possível que a passagem de 2Rs 14,25s, marcada pelas concepções de retribuição, poderia relatar uma profecia de prosperidade para um reino infiel à aliança com Deus? Se tal era possível ao Reino de Israel não seria possível às demais nações? Então o autor do livro de Jonas pensa em usar aquele profeta nacionalista de quatro séculos atrás para profetizar a misericórdia de Deus aos inimigos que haviam destruído Samaria, capital de Israel, em 722 a.C. Não podemos deixar de perceber a ironia contida aqui: o Jonas histórico (2Rs 14,25) profetiza a prosperidade e a expansão do Reino do Norte e o Jonas personagem do conto edificante tem que profetizar a favor dos habitantes da cidade de Nínive destruidores de Samaria, capital do reino do Norte.

A ironia também está presente no significado do nome do protagonista. Jonas em hebraico é Yonah e significa “pomba”, ave conhecida como símbolo da paz e das boas relações entre Deus e o ser humano, haja vista a pomba com o ramo de oliveira como sinal do fim do dilúvio. O profeta Oséias comparou com uma pomba os deportados de Israel do Norte para a Assíria quando assegurou que Deus os traria de volta apesar da inclinação deles a desviar-se da palavra do Senhor (Os 11,7-11). A palavra Yonah, além disso, deriva da raiz do verbo Yanah que significa chorar, reclamar, lamentar. Então o nosso protagonista Jonas deveria ser sinal de paz, mas se mostra como uma pessoa intransigente que reclama de tudo ao longo da narrativa, com nítida inclinação para a desobediência à palavra de Deus.

Ao ser questionado sobre sua identidade, Jonas afirma que é hebreu e adora o Deus criador do mar e da terra. A fé no Deus criador traz como consequência o reconhecimento de seu amor por todos os povos. Dessa maneira, Jonas afirmou que a autoridade de seu Deus não está limitada a um território determinado, mas tinha domínio universal. Com isso se vê a ironia da situação de Jonas: crer que Deus domina sobre o mar e a terra e, ao mesmo tempo, está fugindo de sua presença.

Os termos Israel, profeta e profecia não aparecem nem uma vez no livro de Jonas. Isso mostra que não se trata de um de um livro profético. E qual contexto histórico estaria sendo interpretado nesse bemhumorado conto? A pista nos é dada no final do livro, na lição que Jonas é forçado a receber: a misericórdia de Deus está sobre todos os povos e sobre toda criatura. Se a maioria das pessoas não sabe disso é porque falta quem lhes anuncie essa boa-notícia. O autor do livro de Jonas viveu em uma época marcada por reformas radicais nacionalistas desde Esdras e Neeemias, basta conferir os capítulos nove e dez do livro de Esdras e a ordem para que os judeus se divorciassem das esposas estrangeiras e expulsassem os filhos nascidos desses casamentos mistos. Veja também Ne 13,23–28.

Ao lado dessa tendência nacionalista exacerbada caminhava uma tendência universalista que considerava o estrangeiro como filho de Deus. Defensores dessa tendência são os textos de Is 40–55 e o livro de Rute, entre outros. O autor do livro de Jonas empresta sua voz à teologia universalista para defender o direito de Deus amar a todos, sem fazer acepção de pessoa. Para criticar a tendência nacionalista o autor faz o personagem Jonas preferir morrer a aceitar o amor de Deus para com os estrangeiros. Na linguagem de hoje diríamos que o livro de Jonas foi escrito para animar os judeus a assumir sua responsabilidade missionária para com as outras nações, nesse sentido, esse escrito é um precursor do mandato missionário do evangelho.

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Notas:

** Publicado originalmente no site da CNBB
[1] WYATT, Roy & WYATT, Joyce. “Jonas” in Daniel CARRO et. al., Comentario Bíblico Mundo Hispano -
Tomo 13: Oseas - Malaquías, El Passo: Editorial Mundo Hispano, 2.000, p. 167.
[2] Ibidem.

*Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.