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segunda-feira, 14 de março de 2022

Neemias e Semeías: discernir a vontade de Deus



Realizando a leitura do livro Neemias posso dizer que uma passagem me chamou a atenção em especial. Em Ne 6,10, ele diz que Semeías, filho de Dalaías, o chamou para a casa de Deus dizendo que iam matá-lo. Sim, ele estava sendo perseguido e intimidado para que parasse a reconstrução dos muros de Jerusalém, que a essa altura já estava quase finalizada. Porém, não acreditou e afirmou que Semeías havia sido subornado para dizer isso e desviá-lo do caminho a ser seguido. 

Neemias estava obstinado a reconstruir as muralhas e ele sabia que essa ideia vinha de Deus. Pensei que outras pessoas podem fazer o mesmo com a gente, mencionar Deus ou a casa de Deus, nos chamar para rezar, orar, e nem sempre isso será uma coisa boa. Você pode estar pensando: quando rezar ou ir pra casa de Deus pode não ser uma coisa boa? Quando estiver nos desviando de algo superior que é a vontade de Deus. Na nossa vida adulta, acredito que seja possível a cada um de nós recordar alguém que em algum momento teve medo ou nos colocou numa situação de medo pelo que estávamos a realizar e nos fez pensar que o melhor seria adiar nosso projeto e continuar pedindo a Deus uma resposta em oração, sendo que muitas vezes Ele nos fala até mesmo no silêncio e também às vezes sua vontade está tão enraizada no nosso coração que outras pessoas não entenderiam. Muitas vezes a resposta já chegou, mas por medo nos desviamos do nosso propósito para fazer algo mais cômodo e até mesmo mais aceito pelas pessoas à nossa volta e pela sociedade em si. 

No caso de Neemais, é possível pensar que sim, Semeías queria intimidá-lo, talvez estivesse armando uma emboscada. No nosso caso, já que o contexto mudou bastante, não podemos dizer que todas as pessoas que fazem isso estão querendo nos intimidar ou armar emboscadas para nós. Às vezes sim, a pessoa não deseja nos ver melhor do que ela e por isso tenta colocar medo para que adiemos nossos planos. Outras vezes é alguém que gosta de nós e quer nos ver bem e por esses motivos o medo acaba se implantando antes no coração dessa pessoa. Quem nunca teve uma mãe ou um pai super protetores que atire a primeira pedra! 

O fato é que o medo está presente no mundo e sempre vai existir, mas é preciso que a nossa raiz esteja bem fincada em Deus, de forma que possamos distinguir o que é certo a se fazer em cada momento de nossa vida. Não podemos achar que porque rezamos ou vamos pra igreja ou fazemos orações e devocionais, alguns os fazem todos os dias, já estaremos livres desse tipo de coisa, pois até mesmo Jesus foi tentado com palavras da escritura (Lc 4,1-13). Eu sei que mencionar a tentação de Jesus parece clichê, pois todo mundo faz, porém quero falar mediante outra perspectiva, a perspectiva daqueles que escutam de outras pessoas que é preciso adiar ainda mais seus projetos e esperar ouvir algo de Deus, quando já ouvimos a resposta em nossos corações. Como eu expliquei acima, nem sempre isso vem de alguém que quer nos fazer mal. Mas o que eu devo fazer para saber se estou no caminho correto? Orar, pedir a Deus sabedoria e discernimento e também não ignorar as coisas à nossa volta, observar se o tempo é favorável para a partida, para o "lançar as redes". Que Deus nos abençoe e nos conduza em Seus planos.

 

Por Rosilene Souza, graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará e membro do grupo Mulheres da Palavra - formado por leigas do Instituto Religioso Nova Jerusalém.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O Sofrimento humano no livro de Jó: teologia em tempos de pandemia


Vivemos em tempos difíceis, tempo de isolamento social, devido à pandemia do novo coronavírus. Pandemia essa que faz aflorar várias doenças em nossa sociedade, nos campos físico, psicológico, econômico e social. Foi pensando nisso que preparamos esta reflexão sobre o sofrimento na Bíblia. O que o texto sagrado tem a nos dizer a respeito do sofrimento? A Bíblia inteira é permeada de acontecimentos que fazem parte da realidade humana de qualquer tempo e lugar. Acontecimentos vivenciados muitas vezes por pessoas que sofreram, que passaram por experiências traumáticas em todos os aspectos da vida. Pessoas que se parecem contigo, comigo, pessoas que não são diferentes de nós.

Portanto, a Bíblia é um livro que destaca o sofrimento entre as experiências existenciais vivenciadas pela humanidade. Os tipos de sofrimento são vários, como por exemplo, o perigo da morte (Is 38,1-3); a morte dos filhos (1Sm 19,1); a falta de descendência (Gn 15,2; 30,1, 1Sm 1,6-10); a perseguição (Jr 18,18)... Até hoje esses sofrimentos ainda são uma incógnita, ainda há uma dificuldade em compreendê-los. Porque o justo sofre e os maus prosperam? (Ecl 4,1-3).

Ainda hoje, quando alguém está sofrendo, qual a primeira pergunta que passa em sua mente? "Por que estou sofrendo?" Ou "por que sofro?" Na verdade, o que se está perguntando é sobre a causa do sofrimento. Mas a pergunta não deveria ser essa. O correto seria o “para que estou sofrendo?” Qual o sentido do sofrendo em minha vida? Só assim, a dor e o sofrimento tomam outra dimensão. O “para que” ajuda a encontrar um propósito do sofrimento e, portanto, o sofredor será capaz de sair dessa situação mais humano e mais amadurecido.

Desde o segundo milênio a.C. a temática da dor já estava presente na obra dos antigos sábios de remotas civilizações, como babilônicas e egípcias. Isso significa que o ser humano desde sempre se preocupou em encontrar uma resposta para o sofrimento e ainda hoje procura saber o porquê da dor, do sofrimento, mas não encontrou uma resposta satisfatória para essa questão.

Na Bíblia, de modo particular, há um livro que faz referência ao sofrimento de uma pessoa. Esse personagem representa o sofrimento do seu tempo, e a dor de todos nós. Esse personagem bíblico fez uma experiência profunda da dor em sua vida. Essa pessoa é Jó. Para compreendermos um pouco a dor de Jó, que pode ser também a minha, a nossa dor, precisamos ter uma conversa na tenda com Jó para ouvir suas palavras, suas dores e seus gritos. Talvez, por suas chagas, sejamos curados de toda vã sabedoria e de nossas certezas inquestionáveis.

Jó é o representante da dor do gênero humano. Seu sofrimento é uma realidade concreta que desafia até mesmo a sua experiência religiosa. Jó é um homem que renuncia pôr sua confiança nos bens terrenos. Confessa sua própria miséria. Sofre inocentemente a incompreensão e o abandono de seus amigos. Mas continua unido a Deus, apesar do sofrimento. Continua esperando sempre no Senhor!

Jó é um dos livros do Antigo Testamento que se dedica à temática do sofrimento humano. Afinal, quem é Jó? É um homem justo, que sofre sem culpa e é provado por diversos sofrimentos: perde seus bens, os filhos morrem (1–2), a esposa não o compreende, os amigos o acusa. ]

No decorrer da obra, menciona-se que Jó tinha três amigos, e esses três amigos não falam corretamente sobre Deus, não o apoiam, nem o animam, simplesmente o criticam e o acusam por estar sofrendo (3–24), querem convencer Jó de que se ele está sofrendo deve ter feito algo grave e está sendo castigado por Deus. Sabemos que, por trás dessa afirmação está a concepção do sofrimento como castigo (pena) pela culpa. Por trás dessa expressão há uma visão tradicional da justiça de Deus, representada pelos três amigos, que é a Teologia da Retribuição. Esse tipo de teologia compreendia Iahweh como um Deus justiceiro que retribui a cada pessoa segundo o cumprimento da Lei divina. Para essa teologia, se a pessoa cumpria a Lei de Deus, recebia a Bênção, isto é, riquezas, vida longa, saúde, descendência e honra. Para quem descumprisse a Lei havia o castigo, isto é, pobreza, morte prematura, doenças, esterilidade e desonra etc. Portanto, se alguém estava sofrendo era porque estava pagando por alguma infração da Lei. Por trás de tudo isso estava presente a Teologia da Retribuição.

Até o Exílio da Babilônia, a Teologia da Retribuição entendia o castigo ou a recompensa como algo coletivo, direcionado a toda comunidade ou à família. Dizia-se que as consequências dos atos das pessoas eram hereditárias. Temos vários exemplos disso: (Ex 20,5; 34,7; Jr 32, 18; Lm 5,7; Ez 18,2). “Nossos pais pecaram: já não existem; quanto a nós, carregamos as suas faltas” (Lm 5,7). O profeta Ezequiel, percebendo que o povo não considerava justo pagar pelos pecados de seus antepassados, reelaborou a ideia da responsabilidade coletiva e defendeu a responsabilidade pessoal. Cada pessoa é responsável pelos seus atos (Ez 18).

No livro de Jó, esse modo de pensar está bem presente. Jó era rico e passou a ser pobre (1,14-17.20-21). Jó tinha saúde e passou a sofrer em meio a terríveis doenças (2,5-8). Mas Jó não concorda com a suposição que esteja sendo castigado como descumpridor da Lei. Por isso, por mais que seja reconhecido como paciente e resignado, Jó fica indignado e até se revolta contra essa manipulação, segundo a qual Deus não passava de um carrasco, justiceiro, vingador e castigador. Existe ainda hoje essa concepção? Convido-te a refletir sobre essa realidade.

Eis uma questão: se Deus é todo amor, é puro amor, como a dor e o sofrimento podem ser castigos de Deus? No livro do profeta Ezequiel se afirma: “Não quero a morte do pecador, e sim, que ele se converta e viva”(Ez 18,23). Então, se crermos que a religião e a fé se baseiam nisso, no “toma lá dá cá”, deixa de ser uma religião gratuita, deixa de ser uma fé baseada na graça de Deus, baseada na compaixão, na misericórdia e no amor gratuito de Deus.

Quem de fato, faz a experiência do Deus vivo é Jó, o pobre, o doente, tomado pelos sofrimentos e dores, aquele que é desmoralizado e acusado como pecador. Não os amigos de Jó, que o acusam, estes não fizeram experiência com Deus, estes conhecem Deus só de ouvir falar.

Portanto, esse Jó pode ser eu, pode ser tu, ou até mesmo tua família, que diante de uma pandemia tão desastrosa, como a que estamos enfrentando. Neste contexto somos convidados pela Palavra de Deus a fazer uma experiência com esse Deus, cheio de compaixão, que está ao nosso lado porque nos ama muito. O sofrimento nos faz mais vulneráveis, mais flexíveis, mais humildes, e mais humanos, e ainda nos ajuda a nos encontrarmos com o Deus da vida

Essa realidade apresentada pelo autor do livro de Jó tem a pretensão de nos levar a refletir sobre o sofrimento, como uma experiência humana universal. O sofrimento, seja ele consequência da pobreza, da falta de emprego, da falta de perspectiva de futuro, da morte prematura de entes queridos ou de uma doença, é uma experiência comum a todos os povos em todas as épocas. Faz parte do cotidiano de inúmeras pessoas em todo mundo.

O livro de Jó termina humildemente com uma experiência profunda! No encontro de Jó com Deus e na retratação dos amigos, Jó afirma: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem” (42,5).

A dor e o sofrimento fazem sua obra e deixam uma quantidade imensa de recados dependurados nas paredes da nossa memória. Restará a cada um(a) fazer desses recados um trauma ou uma experiência de Deus. Deus está ao teu lado, mas tu quem decides.

Jesus Cristo fez essa experiência em favor dos sofredores (as) deste mundo, dos marginalizados, dos excluídos, de te, e abdicou de todos os privilégios divinos e humanos (como vemos em Fl 2,5-11) e assumiu a condição de crucificado, e, ao final, saiu vitorioso! O sofrimento, a dor e a morte foram vencidas com sua Ressurreição. Em Jesus, somos vencedores.

Todo cristão precisa sair de si, abrir mão de ideias preconcebidas e solidarizar-se com o que sofre e, imerso nessa situação, fazer a experiência de Deus e levar quem sofre a fazê-la também.

Confesso, é difícil ter uma palavra conclusiva sobre o tema da dor e do sofrimento. No final dessa conversa, na tenda com Jó, em vez de uma resposta fechada de uma conclusão, é melhor então fazer uma profissão de fé naquele que “armou sua tenda entre nós”, Jesus Cristo (Jo 1,1ss).

“Vivemos um tempo novo, um tempo de graça, um tempo propício e oportuno para criar, um tempo para experimentar a compaixão e a solidariedade. Vivemos um grande momento para descobrir o amor de Deus e nos amarmos”. (Dom José Tolentino Mendonça). Precisamos pôr em prática o nosso escutar a Deus, a nós mesmos, o irmão (ã), e a natureza, para, assim, sermos sinais do novo do qual todos possam se beneficiar.



Bibliografia

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1985
TILESSE, Caetano Minette de. O Sofrimento na Bíblia. Revista Bíblica Brasileira, Fortaleza, v. 23, n. 1-3, 2006.
MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Bíblia: história, curiosidades e contradições. Petrópolis: Vozes, 2015.
Mendonça, José Tolentino. Espiritualidade cristã em tempo de isolamento social, In: https://youtu.be/8oQYr43YNlg. Acesso em 04.08.2020



Ir. Rita Paixão Albuquerque é membro do Instituto Nova Jerusalém. Graduada em Teologia e Pós-graduada em Psicologia da Religião pela Faculdade Católica de Fortaleza.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Dai-lhes vós mesmos de comer!

18º Domingo Comum  - Ano A



O texto de Mt 14,13-21 mostra que Jesus, mesmo quando estava extenuado pelas inúmeras tarefas, nunca deixou de sentir compaixão pelas pessoas. Seu exemplo se torna uma exigência para nós: devemos amar e nos sensibilizar com aqueles que têm fome de alimento material e fome de amor, justiça e paz.

O texto sobre a "primeira multiplicação dos pães" tem início quando Jesus deixa a multidão para ficar à sós. Ele acabara de ouvir sobre a morte de João Batista. Seu desejo de solidão implicava numa necessidade de oração e de reflexão. Mas a multidão não o deixava sozinho e a solução foi retirar-se, com os discípulos, do perímetro das cidades para lugares mais afastados. As multidões, porém, os encontraram. Cheio de compaixão, Jesus curou os enfermos. Então as horas avançaram e os discípulos ficaram preocupados. Pediram a Jesus que despedisse a multidão para que procurassem alimentos nos lugares mais próximos.

Não sejamos ingênuos, a maioria daquelas pessoas não se deslocaria para aquele lugar tão desabitado sem levar algum alimento. É muito provável que a maioria tivesse levado alguma provisão. Principalmente os alimentos básicos daquela região, peixe e pão.

Os discípulos se surpreendem quando Jesus disse: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Parecia uma ordem impossível de ser cumprida e, por isso, fizeram uma objeção. Mas, alguém colocou sua provisão à disposição de Jesus o qual ordenou a todos que se sentassem como era costume nas reuniões de família, separados em grupos de homens, de mulheres, de velhos e de crianças. Dessa forma, os que eram mais fracos tinham prioridade para receber o alimento.

Em seguida, Jesus pegou o pão e o peixe, olhou para o céu e deu graças. Obviamente, o autor do evangelho queria que os leitores fizessem conexões com a Eucaristia. Ao mencionar a postura corporal de Jesus e seus gestos, Mateus sugere que Jesus pronunciou a oração judaica da bênção para o pão: “Bendito sejas tu, Senhor Deus, rei do universo, que nos dá o pão tirado da terra”. Bênção que remete principalmente à ceia pascal. Jesus fez com que seus discípulos distribuíssem o alimento. Todos ficaram saciados e sobram ainda doze cestos. O número doze tinha muitas referências simbólicas e, principalmente, representava as doze tribos de Israel.

Podemos citar aqui três interpretações diferentes desse trecho evangelho, conforme a maioria dos estudiosos da Bíblia.

A primeira é a interpretação literal. Quer dizer que devemos vê-lo como uma simples multiplicação de pães e peixes, algo mágico. E muitas pessoas consideram Jesus como um mágico que realiza milagres para entreter o público, mostrando como é poderoso.

O segundo é a interpretação figurativa. Muitas pessoas veem nesse milagre um símbolo da Eucaristia. A razão disto é a presença dos elementos que podem ser encontrados na liturgia eucarística: pegar o pão, dar graças, partir o pão e entregar aos discípulos. Neste modo de interpretar, não se trata de uma refeição em que as pessoas famintas ficam saciadas, mas de uma refeição em que se alimentam do pão espiritual, a Eucaristia.

Há uma terceira opinião que une as duas primeiras. Imaginemos a seguinte cena. Lá está a multidão. É fim de tarde e eles estão com fome. Faz parte daquela cultura levar provisões para onde quer que fossem. Além disso, a multidão sabia para onde Jesus estava indo (que era lugar desabitado), tanto que chegou lá antes dele. Mesmo assim nem todos devem ter levado alimento consigo.

Quando a noite se aproximou, as pessoas sentiram fome. E ninguém queria partilhar o próprio alimento porque em regiões desérticas a sobrevivência está em primeiro lugar, e partilhar água e alimento é muito arriscado. Aquelas pessoas ficaram com medo de partilhar porque, se o fizessem, nada restaria para si mesmas. Mas Jesus tomou a iniciativa com um convite. Então todos começaram a abrir suas provisões, compartilhar o que tinham e, antes que percebessem, havia comida mais do que suficiente para todos.

Se foi isso que aconteceu, então, não foi só um milagre da multiplicação de pães e peixes, mas foi um milagre da transformação de pessoas egoístas em pessoas generosas. Foi o milagre do nascimento do amor nos corações temerosos. Nesse caso esse acontecimento também é um sinal da Eucaristia que transforma as pessoas em um só corpo, o Corpo místico de Cristo, que é a Igreja.

Em todo caso a alimentação da multidão nunca deve ser tomada como prova do poder de Jesus. A ênfase do texto é na compaixão que Jesus teve pelas pessoas, na providência amorosa de Deus para com suas criaturas, na dimensão da partilha que foi realizada e na ordem de Jesus para que seus discípulos dessem alimento aos famintos.

Por que os discípulos não pensaram em compartilhar sua provisão com a multidão? Será que eles não se importavam com o bem-estar das pessoas? Sim, eles se importavam e desejavam o melhor para a multidão. Mas, provavelmente, eles estavam simplesmente sendo realistas e práticos. Vamos ser sinceros: cinco pães e dois peixes não é nada diante de uma multidão faminta. No entanto, eles deveriam ter dado o exemplo do desapego, eles deveriam ter tomado uma atitude mais concreta porque se eram realista deveriam saber que aquela multidão não encontraria alimento suficiente nos arredores. Os discípulos transferiram o problema para Jesus. Era melhor ficar distante dos famintos. Mas Jesus devolveu o problema para eles.

Semelhante aos discípulos, desejamos o bem às pessoas, mas nem sempre temos intenção de realizar ações positivas para ajudar a amenizar a situação. E, novamente como os discípulos, o que nos impede de agir é, frequentemente, uma avaliação realista de que o pouco que podemos fazer não fará realmente nenhuma diferença. Deus é capaz e está disposto a saciar todos os tipos de fome. Mas Deus está esperando homens e mulheres que acreditam nele o suficiente para abrir mão de seus “cinco pães e dois peixes”, com os quais Deus tornará possível o milagre da multiplicação.

É aqui que vem em nosso auxílio o texto de Is 55,1-3. Em seu contexto original, essa passagem foi escrita para encorajar pessoas muito desanimadas. O bloco inteiro dos capítulos 40-55 de Isaías registra as profecias do final do exílio babilônico, quando os judeus tiveram permissão para regressar a uma terra devastada, o antigo reino de Judá.

O Profeta Isaías estava se dirigindo a pessoas cujos ancestrais tiveram uma forte experiência com Deus. No entanto, aquelas pessoas se afastaram de Deus, apesar dessas experiências. Mas Deus as convidou a terem intimidade com ele através do simbolismo de um banquete no qual se pode usufruir da melhor comida sem ter que pagar nada por ela, somente por pura gratuidade daquele Pai amoroso que deseja saciar nossa fome de amor, que deseja preencher nosso vazio existencial.

No tempo do autor, a elite de Jerusalém vivia no exílio na Babilônia, até que Ciro, o rei persa, conquistou o império babilônico e devolveu os judeus à sua terra natal, a Judeia. Mas alguns dos exilados já consideravam a Babilônia como sua pátria e não queriam se arriscar a abandonar tudo que haviam conquistado para voltar à terra dos antepassados. Ao mesmo tempo, outros duvidavam da possibilidade do retorno. Então um mal-estar geral se instalou sobre os judeus naquela ocasião. Para animar a ambos,  o capítulo cinquenta e cinco, promete alívio material e espiritual.

O texto fala sobre água em abundância, cereais, leite, vinho e pão. Menciona uma renovação da aliança que Deus havia feito com o rei Davi e com os ancestrais do povo. Enfim, há um convite de Deus aos exilados para participarem de um banquete onde nada é pago e os alimentos são as melhores iguarias daquela época e cultura.

Esse simbolismo do banquete tornava-se, nos ouvidos povo, um lembrete reconfortante sobre os bons e velhos tempos quando seus antepassados viviam na terra prometida. Essas palavras davam esperança e serviam para impedir que o povo perdesse a fé em Deus. O tempo do exílio havia sido considerado pelos exilados como um tempo de penitência porque acreditavam que estavam pagando pelo pecado de idolatria praticada quando estavam na terra prometida. O convite de Deus para um banquete era tranquilizador. Era uma maneira sutil de dizer que eles não precisavam pagar nada, que Deus estava agindo com misericórdia para com eles, apesar de não serem merecedores. O convite soa magnânimo, Deus como um anfitrião entusiasmado, orgulhoso de suas iguarias finas, recebendo convidados muito amados e há muito aguardados.

Como o convite de Deus foi compreendido pelos exilados? Para os judeus, o céu na terra  era a cidade de Jerusalém. A reconstrução da cidade daria ao povo um renovado sentido de identidade nacional como povo consagrado ao Senhor. Em Jerusalém estava o lugar para ouvir a palavra de Deus, proclamar e renovar a aliança, o Templo, o lugar da habitação divina. A cidade e seus monumentos tornavam tangível o convite à intimidade com Deus. As pessoas só precisavam responder ao chamado de retorno à terra natal. A reconstrução da cidade iria proporcionar a renovação nacional.

Esse convite à união com Deus permanece sempre atual e é feito para todas as pessoas. A intimidade com Deus preenche uma profunda necessidade comum a todos os seres humanos. Pois, fomos feitos para Deus. Sem ele, estamos incompletos. Com ele nos realizamos verdadeiramente.

É por isso que o texto de Rm 8,35.37-39 nos assegura que nada pode nos separar do amor de Cristo. Podemos pessoalmente rejeitar esse amor, mas Cristo continua a nos amar.  Muitas pessoas passam grande parte de suas vidas rejeitando esse amor até que reconhecem sua fome espiritual e começam a aceitá-lo, pelo menos de forma um pouco mais consciente.

Os primeiros capítulos da Carta de Paulo aos Romanos versam sobre o que é necessário para estar em aliança com Deus. Os primeiros destinatários da carta estavam divididos sobre essa questão. Alguns, embora reconhecessem a importância de Jesus, insistiam que, para serem salvos, era necessário observar a Lei de Moisés. Paulo, por outro lado, insistia que os gentios convertidos ao cristianismo não tinham obrigação nenhuma de praticar a Lei de Moisés, embora os judeus convertidos pudessem fazê-lo se quisessem. E Paulo provou isso com muitos argumentos teológicos complexos e profundos.

Então chegamos a Rm 8,35.37-39 que parece abordar uma questão implícita: “Se Deus nos ama tanto a ponto de nos salvar pela graça imerecida, por que tudo ainda é tão difícil para nós? Por que sofremos?” Essa passagem da Carta aos Romanos é um resumo da resposta de Paulo.

Há uma conexão entre os sofrimentos de Cristo e os sofrimentos dos primeiros cristãos, especificamente os sofrimentos do próprio apóstolo. Se as provações pelas quais Paulo passou não conseguiram diminuir sua fé nem seu compromisso com a evangelização do mundo, o que poderia então separá-lo de Deus? E, por extensão, o que poderia separar os cristãos de seu Salvador?

Para responder essas questões, Paulo abordou a totalidade das experiências humanas e tudo que era temido pelas pessoas naquele tempo: vida e morte, anjos, seres celestiais e demônios; o futuro incerto e os cataclismas provocados pela natureza e pelas guerras.

Paulo estava convencido de que nada no universo poderia nos separar do amor de Deus, dado a nós por meio de seu Filho. Paulo inferiu que nosso lugar na criação estava acima de todos os poderes que, de alguma forma, nos afetam dentro da criação e da história. Em outras palavras, nosso lugar com Deus é íntimo e eterno, pois nossa jornada neste mundo é temporária, um dia estaremos com Jesus para sempre.

O que divide os fracos dos fortes é o compromisso. A teimosia do verdadeiro seguidor de Cristo tem muito mais poder de perseverança do que a busca de vantagens pessoais momentâneas. Para o apóstolo, a fé era o compromisso decisivo, pois assegurava a intimidade com Deus para além da morte. Se o objetivo é a vida eterna, todo o resto fica empalidecido em comparação com ela. Os sofrimentos da vida, as necessidades e até a ameaça de morte não podem parar o verdadeiro seguidor do Cristo.

As limitações da vida e a morte, eventos presentes e futuros, poderes da terra e do mundo espiritual, e até mesmo o próprio universo, nada disso poderia impedir o amor de Deus pela humanidade. O lugar de todos que confiam em Deus é estar em sua presença eterna. A fé nos convence desse fato.

Paulo estava certo: a fé é o compromisso último, é o compromisso por excelência. É uma orientação para além desta vida. Enquanto se permanece nesse compromisso, é fácil confiar no amor de Deus pelo por si e por todos. Amor infalível é amor inabalável.

Quando amamos, oferecemos tudo o que somos. O amor verdadeiro aceita o que é imperfeito. Assumimos grandes riscos quando amamos. Exemplo disso é o amor de pai e de mãe por seus filhos, quando o ser humano realmente vive a paternidade e a maternidade. Quando as pessoas são realmente pai e mãe, não desistem nunca de seus filhos.

O amor humano é forte, mas outras forças podem esfriar o amor e ele pode se apagar. Não é assim com Cristo, seu amor permanece perfeito e dura para sempre, não importa como nosso coração esteja. Às vezes, não amamos a Deus o suficiente, mas o amor de Deus por nós nunca diminui.

Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

segunda-feira, 27 de julho de 2020

AS LUZES QUE A EXPERIÊNCIA DO POVO DE DEUS OFERECE AOS NOSSOS DIAS



A bíblia é o meio privilegiado pelo qual temos acesso às antigas tradições do povo de Israel. A arqueologia, as ciências da linguagem e a etiologia, entre outras ciências, também fornecem uma base para os estudos sobre Israel e Oriente Médio antigos. É por intermédio dos textos bíblicos e do aprofundamento desses estudos, que conhecemos os diversos problemas enfrentados pelo denominado “grupo de Moisés” no período que se estabeleceram em Canaã e posteriormente quando se tornaram uma monarquia.

O contexto histórico do povo de Israel, é coberto de incertezas politicas e, em muitos casos, religiosas. De escravos do Egito, para seminômades que vagavam no deserto em busca da terra prometida, uniram-se a eles diversos povos que acreditaram na promessa do Deus libertador. Madianitas (Ex 18,1-5), cananeus (Js 6,17), moabitas (Rt 1,1418) e outros povos foram se agregando aos poucos a Israel, formando um único povo da aliança.

Muitas foram as dificuldades encontradas até chegarem à terra de Canaã, fome, sede, problemas sociais, culturais, entre outros, que as tribos tiveram que enfrentar até se estabilizarem. Mas uma coisa há de se destacar, é que sempre tiveram líderes escolhidos por Deus. Até que, sendo prescionado, Samuel indicou um rei para conduzir as tribos nos moldes da cultura dos povos vizinhos.

A miscigenação dos povos, que aconteceu na época do êxodo e nomadismo, trouxe a dificuldade de adorar a um só Deus. Passar a crer em uma só divindade foi difícil para aqueles que acreditavam em outros deuses, deusas e, até mesmo, imolavam seres humanos em sacrifícios.

Outra dificuldade a ser destacada, e que perdurou por muito tempo, foi a rivalidades das tribos do Sul com as tribos do Norte, até o período do governo centralizado, a monarquia, quando Saul foi ungido, depois Davi e por último Salomão, como reis de todas as tribos dos hebreus.

O povo de Israel enfrentou adversidades que eram próprias daquele tempo e cultura, mas que, em muitos traços, lembram infortúnios que passamos no atual cenário ocidental.

Em comparação com nossa época, vivemos em um tempo de constantes mudanças, dificuldades e descrenças. Os governantes acabam agravando e propagando esses problemas no sentido econômico, a exemplo dos reis de Israel, que se preocupavam mais com as guerras, invasões de terras e ambições que com o povo. Da mesma forma que os reis de Israel colaboraram co a idolatria, os governantes atuais colaboram com o crescimento da secularização e o progressivo avanço da perda dos valores que antes eram compreendidos como sendo religiosos e que hoje estão perdendo aos poucos sua sacralidade. Unido à secularização encontramos o materialismo, segundo o qual o que interessa é o ter cada vez mais. A opulência do poder, interessa demasiadamente mais que valores que condizem com uma vida melhor.

Como a sociedade israelita, em especial o Brasil é um povo miscigenado, um povo de muitas misturas e com origem em diversas nacionalidades, que enfrenta dificuldades até parecidas com as daquela época. A busca para sair dessa situação é urgente, e é na bíblia que encontramos o caminho, para vencer todas essas adversidades.

O reino de Israel, mesmo tendo permissão divina, estava carregado de desentendimentos internos, posturas abusivas de governantes, disputa por poder, vinganças e golpes políticos. Isso não difere muito do cenário atual, e mesmo que tenham sido criadas muitas leis que resguardam a justiça e a verdade, perduram ainda muitas injustiças que já eram notadas no passado, no antigo Israel. Tudo isso acontece em decorrência do abandono dos valores e ensinamentos religiosos.

Enquanto Jesus reafirma os mandamentos “Não matarás”, “Não roubarás”, e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, vemos isso ser transformado em filosofias ou até mesmo em teorias que abandonam o real sentido do que é ensinado pela religião.

O “grupo de Moisés” tem muito a nos ensinar, inicialmente, a superação da indiferença e da descrença no Deus libertador, que ama e cuida de toda a comunidade. É através desta perspectiva que muitos daqueles agregados ao povo de Israel, enxergaram em Deus um herói, libertador e salvador, que sempre cumpre suas promessas. A proximidade dos povos bárbaros com o Deus de Israel é verídica, não é uma coisa abstrata e arbitraria, mas vivaz, que afetou e tocou a todos.

Por fim, as características encontradas para a vivência dos valores religiosos exigidos da monarquia de Israel, são válidas para a atualidade, desde o reconhecimento de um único Deus como salvador e libertador até a resposta concreta que se deve dar a Ele. A fidelidade que os hebreus tiveram para com o Deus de Israel, mesmo em meio a diversas tentações, deve ser também a mesma hoje, sobretudo quando se percebe que o materialismo, capitalismo e muitas outras teorias ou ideologias de poder, não trazem valores constitutivos que preenchem o vazio humano.


Ronário Mota Rodrigues é seminarista da Diocese de Itapipoca, graduado em filosofia pela Faculdade Católica de Fortaleza onde atualmente cursa o bacharelado em Teologia. Atividade para a matéria de Introdução à Sagrada Escritura, Profa Aíla Pinheiro, nj.