domingo, 14 de novembro de 2010

Jesus: o Messias (III)

Rita Gomes, nj*

3. O Reino de Deus: projeto de vida para todos

Nesse ponto, seguiremos basicamente uma obra de Jon Sobrino.[1] Uma indicação prévia e útil refere-se ao significado de “Reino” nos diversos momentos da história do “povo de Deus”. O primeiro priemiro esclarecimento a respeito da expressão “Reino de Deus” versa sobre seu caráter tardio. Israel não a conhecia até a apocalíptica, contudo, conhecia a relação com Deus através da idéia de realeza divina. Essa noção existia em todo Oriente Antigo. Na Monarquia, Israel conheceu a deturpação dessa realeza divina, igualando-a com a dos reis terrenos.

Com o exílio o povo passou por uma grave crise existencial. Consciente de ser o povo escolhido, este perdeu sua terra e foi exilado na Babilônia. Com a derrota de seu rei, acreditavam que seu Deus havia sido derrotado. Essa era a concepção dos povos, em última instância quem era derrotado era o deus daquele pova. A apocalíptica seguinte escatologizou e universalizou o Reino de Deus.

A partir daí começam as esperanças messiânicas. Estas conhecerão mais de um viéis. Existiam os que esperavam um messias davídico que instauraria o “Reino de Javé”. A corrente sacerdotal esperava um messias de acordo com suas convicções e conseqüentemente um Reino correspondente. O Reino vindouro era assim consequencia das diversas formas de esperança no messias.

Há uma relação constitutiva nas noções de Reino e de Messias. Um implica o outro e da mesma forma, um explica o outro. Partindo da relação existente entre Messias e Reino pode-se compreender os diversos títulos atribuídos a Jesus e que nos revelam, cada um a seu modo, uma “faceta” do Cristo. Os títulos são uma forma de tentar dizer quem é Jesus.

Seja como for todos esperavam a instauração do “Reino de Deus” como um reino de justiça para Israel e no seio do próprio povo de Israel.[2] Israel compreendia a realeza divina como ação de Deus na história e essa ação era em seu favor, frente aos grandes impérios e também aos povos menores, enquanto seus inimigos.

Jesus ao iniciar sua vida pública (Mc 1,14; Mt 4,17; Lc 4,18) o faz anunciando o Reino de Deus. Como judeu, Ele se insere na grande tradição judaica da esperança por um reino de justiça, pois traz as marcas da dominação sofrida por seu povo, império após império.

O Reino de Deus para Jesus é a realidade última, ou seja, Deus agindo na história. E porque é assim, o Reino de Deus só pode ser evangelho, boa notícia. Em Mt e Mc evangelho quase sempre refere-se ao Reino. Mesmo quando fala de Jesus o faz em relação ao que Jesus oferece com sua vida e sua práxis (Mc 1,1; 1,14; 8,35; 10,29; 23,10; 14,9; Mt 4,23; 9,35; 24,14). Lc só cita o evangelho nos Atos dos apóstolos.[3]

Nesse ponto nos afastamos um pouco de Sobrino, pois ele continua sua reflexão pela “via do destinatário.”[4] Embora válida e rica, busco uma reflexão que vá ao encontro de todos aqueles que de uma maneira ou outra não fazem parte de unia elite. Não só de uma elite política, econômica, mas sobretudo de uma elite convencional.[5] No tempo de Jesus eram as prostitutas, os leprosos, os cobradores de impostos, os soldados. Os evangelhos estão cheios de exemplos e dispensa maiores explicitações.

Jesus com seu modo de agir, acolheu e libertou verdadeiramente o povo porque conferiu-lhe dignidade. Fez com que as pessoas se reconhecessem dignos, respeitáveis, por serem pessoas. Isso possibilitou sua libertação. Muito foi feito pela Teologia da Libertação, mas muito foi esquecido e negado por ela. De forma especial, negou o aspecto afetivo da pessoa, parou no social, no universal e esqueceu o singular.

O povo tomou certa consciência da realidade opressora, no caso da América Latina. Mas somente na questão política de governos militares. Hoje vemos um povo tornado escravo de seu próprio ser. A maior dificuldade enfrentada hoje nas pastorais é exatamente essa. Parece que as pessoas desistiram de lutar. Não se sentem capazes nem dignas de tomar certas posições. Acomodou-se com a ideia de que Deus veio para libertá-lo, que está do seu lado, mas espera sempre que alguém faça algo em seu lugar, tome decisões e responsabilize-se. Não tomou consciência da filiação divina que lhe confere uma dignidade única e possibilita uma compreensão de si e do outro. Não é possível libertar um povo se este não se reconhece liberto. Ele precisa primeiro reconhecer que ele é capaz de ser livre. Que é um ser para a liberdade.

Jesus quando se aproximava dos excluídos de seu tempo disse-lhe que a situação em que estavam era injusta e que tinham que fazer isso ou aquilo. Não dava soluções. Aproximava-se e acolhia o dom que era o outro. Diante de Alguém que quebrava as convenções gratuitamente, se rendiam, se sentiam afetados. Os questionamentos que certamente surgiam de tais situações é que levavam as pessoas a repensarem suas vidas e atitudes e tomarem coragem de agir de forma diferente. E não falamos de conversão de uma vida de pecado.

Quem já experimentou, encorajar alguém a tomar uma atitude e viu o resultado, sabe o quanto é importante a consciência de saber-se capaz. O reconhecimento de Deus na pessoa de Jesus vinha dessa liberdade que tocava o mais íntimo do ser humano. Quando propus o título deste ponto como sendo o Reino de Deus, um projeto de vida para todos, não foi por negar ou não reconhecer certa parcialidade existente na Escritura. Foi por crer que Deus ao se revelar propõe-se a todos. E os que o reconhecerem e forem afetados por Ele, não continuarão suas vidas do mesmo modo. Na sua raiz é parcial, mas o seu projeto não é excludente. Quem não o reconhece, não o aceita e coloca-se fora do Reino, fora do projeto de vida plena.


Conclusão

O messianismo de Jesus é mais que nunca atual. O maior problema do homem hodierno é ele mesmo. O homem é cada dia menos homem. Jesus é à maneira paulina o Messias que vem trazer à salvação. Salvação enquanto vida em Deus e seu reino é Reino de Deus porque reconhecimento e aceitação da ação de Deus na história. Ação essa que precisa da colaboração do homem para se instaurar. Não é possível a instauração do Reino de Deus sem uma adesão do homem, sem o seguimento do Cristo. Assinalamos que seguir o Cristo é seguir Jesus no seu Mistério Pascal.

O fato de Jesus já ter vencido a morte não nos autoriza a vivermos alheios à realidade terrena. Toda nossa dignidade reside no fato de Jesus assumir nossa humanidade para chegarmos a realidade divina. Mas, tudo que constitui nossa humanidade deve ser integrado em nossa vida e nossa práxis. Seguir Jesus é procurar a adequação com a realidade própria do ser humano (nascimento, crescimento, sofrimento, alegrias, morte e claro, ressurreição).

O início do reinado de Deus é indiscutivelmente interior. Só quem conseguiu deixar Deus reinar em seu interior e assim transformá-lo é capaz de contribuir com a instauração do Reino de Deus na vida dos outros e das comunidades. Concretamente, exigindo e construindo um reino de justiça para todos. Um reino onde cada ser humano assuma o seu lugar como co-responsável pela atualização da realidade do Cristo, nos “cristos”. Em Cristo somos também “messias” e devemos assumir nosso papel na salvação, vida plena dos outros.


Notas:
*É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em filosofia pelo Instituto Teológico e Pastoral do Ceará – ITEP. Graduada e mestranda em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE.
[1]Jesus, o Libertador I -A História de Jesus de Nazaré. Vozes, Pelrópolis, 1996.
[2]SOBRINO, J. Op. Cite, p. 111.
[3]SOBRINO, J. Op. Cite, p.121-122.
[4]SOBRINO, J. Op. Cite, p. 123.
[5]Utilizo esse termo para designar tudo o que hoje é tido como normal ou esperado das pessoas em sociedade.


Referências Bibliográficas

BARBAGLIO, G. et alii. Os Evangelhos (1). Loyola: São Paulo, 1990.
THEISSEN, G. — MERZ, A., O Jesus histórico: Um manual São Paulo: Loyola, 2002.
SOBRINO, J., Jesus, o Libertador I: A História de Jesus de Nazaré. Vozes: Petrópolis, 1996.
SOBRINO, J., Jesus, o Libertador II: A Fé em Jesus. Ensaio a partir das vítimas. Vozes, Petrópolis, 2000.
MARQUES, V. , Apostila do Curso de Corpus Paulinum. Primeira Epístola aos Coríntios.
MINETTE DE TELLESSE, G. Le secret messianique dáns I’Évangile de Marc. Paris: Cerf, 1968.
PALÁCIO, C., Jesus Cristo: História e Interpretação. Loyola: São Paulo, 1979 (Coleção Fé e Realidade).
DUQUOC, CH., Cristotogia Ensaio Dogmático II: O Messias. Loyola: São Paulo, 1980.

Jesus: o Messias (II)

Rita Gomes, nj*


2. O Cristo,j: aspecto histórico e teológico (Jesus terreno e Cristo da fé)[1]

A primeira consideração a ser feita refere-se a impossibilidade de separar os dois aspectos: histórico e teológico. Isso se verificará a seguir. Antes de iniciarmos a reflexão sobre o Jesus terreno importa fazer menção, mesmo breve, à questão da pesquisa sobre a vida de Jesus. Inúmeras foram as obras que se seguiram à de H. E. Reimarus [2]. De sua reflexão veio o grande impulso na busca pelo Jesus histórico. A história da pesquisa sobre a vida de Jesus é descrita em cinco fases, que aqui, apenas cito.

1ª fase: os “impulsos” críticos para a questão do Jesus histórico por H. S. Reimarus e D. E Strauss;
2 ª fase: o otimismo da pesquisa liberal sobre a vida de Jesus;
3 ª fase: o colapso da pesquisa sobre a vida de Jesus;
4 ª fase: a “nova pergunta” pelo Jesus histórico;
5 ª fase: a “terceira questão” pelo Jesus histórico.

A última fase exige um esclarecimento, pois muda o eixo das pesquisas sobre o Jesus histórico. Fala-se de cinco fases, mas estas se apresentam em três momentos bem distintos. O primeiro não necessita de nenhuma explicação. O segundo começa na terceira fase, com a constatação de que não é possível construir uma “biografia de Jesus”. Esse terceiro momento corresponde à quinta fase. Nele se passa a considerar o contexto social de Jesus e sua pertença ao povo judeu, ou seja, o fato de que na pessoa de Jesus estava profundamente enraizada a grande tradição judaica.

O “Cristo da fé” foi amplamente difundido e o conteúdo desta expressão é a convicção de que o ‘verdadeiro Cristo é o Cristo crido’. Na base deste pensamento estão M. Kähler [3] e Bultman. Este último defende a tese de que à fé não interessa a vida de Jesus e sim o kérigma, ou seja, o Cristo anunciado. Assim o “Cristo da fé” é já a exposição da experiência de fé dos primeiros. Como argumento contra o retorno à ‘história da vida de Jesus’, coloca a falta de fontes históricas que possibilítem esse conhecimento. Ainda segundo Bultman, a fé não está ancorada na ação de Jesus e sim na ação de Deus ao ser pregado o kérigma.’[4] Desta ideia surgiram vários questionamentos e ampla bibliografia. Esse ponto suscitou muitas discussões e não faltou quem quisesse dar sua contribuição.

Segundo Sobrino, Jesus Cristo é uma totalidade, ou seja, traz em si uma dimensão histórica e uma transcendente. “Jesus é mais do que Jesus, é o Cristo.”[5] Para ele, Jesus de Nazaré como ponto de partida para uma reflexão cristológica é importante porque ao refletirmos sua práxis [6] podemos nos aproximar de forma mais segura do como Jesus via, sentia e compreendia a Deus e seu projeto. Dessa compreensão podemos chegar à visão que Jesus tinha de sua própria missão, isto é, de sua adesão total a esse projeto. Pois é sua fidelidade a esse projeto que o leva à cruz. Cremos ser também este, um ponto de partida para a compreensão da cristologia dos títulos de Jesus e, claro, do Cristo,j.

Consideramos necessário resgatar o que há de historicamente concreto no testemunho neotestamentário a respeito do Cristo,j. Primeiro, Paulo utiliza a linguagem e a lógica do pensamento helenista ao apresentar Jesus como Cristo,j. Desse ponto é possível perceber a mudança operada no sentido desse título em relação ao do judaísmo. Contudo, não é correto ver no uso do título por Paulo, uma transcendentalização sem mais. Paulo passou a falar de Jesus enquanto messias, quando percebeu nas comunidades, em especial a de Corinto, uma tendência a negar o lado “dificil” do Evangelho.

Negavam em forma de “esquecimento”, a paixão de Jesus, ou seja, a crueza da morte de cruz. Paulo inicia a partir do uso desse título, um trabalho de resgate do ponto alto do agir de Jesus. Mesmo que não volte à vida terrena de Jesus, uma vez que para ele, não era fundamental esse retorno naquele momento. As questões de fé daquelas comunidades, poderiam ser resolvidas através de uma teologia da cruz. O que não se verificou.

Pelo conteúdo e objetivo geral dos evangelhos, podemos concluir que a intuição paulina falhou. Uma teologia da cruz não deu conta de responder aos questionamentos dos primeiros cristãos. Até porque a utilização do título Cristo,j, como um segundo nome para Jesus, obscureceu o seu significado.

Importa aqui retomar dois pontos relevantes, em Mateus e Lucas, respectivamente. Mateus nos revela Jesus como Messias poderoso em palavras e obras, preanunciado pelos profetas e Lucas o apresenta como o profeta poderoso em palavras e obras. Retomo estes porque aqui encontramos um tema que pode ser a pedra de toque para o desenvolvimento de nossa reflexão.

No Novo Testamento, com exceção dos escritos paulinos, há um ponto de convergência: o Cristo,j não se compreende senão na relação existente entre Jesus e sua práxis. Explicitando ainda mais. O ponto de aproximação mais seguro, para uma apreensão fiel do conteúdo do Cristo,j é sem dúvida sua ação: a pregação do Reino (palavras e obras) e sua compreensão de Reino. Jesus se entende na pregação do Reino e por sua vez o Reino é compreendido na pessoa de Jesus.

Fazendo um crescendo: Paulo inicia [7] o uso do título Cristo,j para dizer que o Ku,rioj, ou seja, o Cristo glorioso é o mesmo Jesus que morreu na cruz. Faz a ligação entre o Cristo da fé e o Jesus terreno, mesmo que seja apenas no ato da consumação de sua vida terrena. Jesus é o Messias. Não é possível pensar no Messias sem ter consciência de que o seu conteúdo tem um pé firme na história. Marcos, em seguida, diz que Jesus é o Cristo e delineia que tipo de messias é e como sua messianidade pode ser verificada. Os outros evangelistas dão também os seus testemunhos sobre a messianidade de Jesus, com suas respectivas diferenças, como visto antes.


Notas:
*É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em filosofia pelo Instituto Teológico e Pastoral do Ceará – ITEP. Graduada e mestranda em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE.
[1]O estudo desse ponto tem como base duas obras de Jon Sobrino. Este é de origem basca. Nascido em 1938. Entrou na Companhia de Jesus em 1956. Licenciado em Filosofia e Letras, mestrado em Engenharia. Doutor em Teologia pela Universidade de Frankfurt. Conferencista renomado e tem vários livros publicados. Entre eles estão: Jesus na América Latina e A Ressurreição da Verdadeira Igreja (Loyola, 1984 e 1986) e ainda Liberación con Espíritu (Sal Terrae, 1985). Nesse estudo seguimos outras obras do autor: Jesus, o Libertador I— A História de Jesus de Nazaré (Vozes, 1996) e Jesus, o Libertador II - A Fé em Jesus Cristo. Ensaio a partir das vítimas (Vozes, 2000).
[2]Obra publicada postumamente e sem indicação do autor. Esta obra lançou as bases da busca pelo que havia de “verdadeiramente histórico” na vida de Jesus. Mais sobre o assunto ver: THEISSEN, G. - MERZ, A., O Jesus histórico. Um manual. São Paulo: Loyola, 2002, p. 19-33.
[3]“O verdadeiro Cristo é o Cristo anunciado”. Afirmação feita por este autor em uma conferência em 1892. Citado por Sobrino em Jesus, o Libertador I - A História de Jesus de Nazaré.
[4]SOBRINO, J. Jesus, o Libertador I—A História de Jesus de Nazaré. Vozes: Petrópolis, 1996, p. 71.
[5]SOBRINO, J. Op. Cite, p. 63.
[6]Práxis aqui compreende a totalidade da pregação e das obras de Jesus.
[7]Fundamentamos esta afirmação nos escritos canônicos.

Jesus: o Messias (I)

Rita Gomes, nj*

Introdução

Na atualidade presenciamos um desejo desordenado de encontrar, nas expressões religiosas, conforto para os anseios. A religião substitui, de certo modo, os psicólogos e de maneira perigosa. Na busca pelo sagrado, arrisca-se tomar as religiões como uma espécie de central de exposição, em que os indivíduos avaliam as opções e escolhem as que mais se ajustam ao seu desejo. Não se buscará, nessa dinâmica, a si mesmo divinizado?

Será que a mensagem de Jesus se esvaziou? Será que por ser situada, tornou-se ultrapassada? Ou é ainda hoje, atual e fomentadora de vida em plenitude, como Ele desejou? De que modo Sua vida e Sua práxis podem iluminar o agir do cristão em um contexto complexo de globalização e pouco espaço para o indivíduo singular?

Tentando responder a essas questões decidimos, a exemplo de outros, voltar ao conteúdo da Escritura, sobretudo do Novo Testamento. Assim, num primeiro momento, abordamos sumariamente a compreensão do título “Cristo” na teologia paulina e no testemunho dos evangelhos a respeito do Messias Jesus. Num segundo momento, abordamos a questão do Jesus “histórico” e sua relação com o Cristo Ressuscitado. Por fim, tentaremos perceber como e em que esses pontos estudados podem nos ajudar a encontrar novos caminhos a seguir, que sejam mais fiéis ao ensinamento de Jesus, por isso, consideramos a noção de Reino de Deus.


1 - O Messias segundo o testemunho do Novo Testamento

Os escritos paulinos sao os mais antigos documentos cristãos e nestes o apostolo usa o título de Messias Cristo,j como um segundo nome para Jesus. O termo Cristo,j estava associado diretamente à Morte e Ressurreição de Jesus, ou seja, ao Mistério Pascal. Raramente o apóstolo une dois títulos e ele estava consciente que Cristo,j era um.

No ambiente judaico o Cristo,j corresponde ao hebraico ha-mašiah, usado para designar uma pessoa consagrada por unção para exercer uma tarefa especial. Daí vem o uso comum do termo “ungido”.(1) A referência a Jesus como messias sublinha que sua missão especial é realizar a redenção escatológica. Jesus é o redentor escatológico.

Os usos do termo indicam que Paulo o utiliza para ressaltar a Morte e Ressurreição de Jesus em contexto onde isto se faz necessário. Paulo compreende o Mistério Pascal como prova mais que suficiente de que Jesus é o Messias e, por isso mesmo, não recorre à vida terrena de Jesus no seu querigma (Cf. lTs 1,9ss; lCor 15,3; Rm 10,9).

O apóstolo não afirma nunca que Jesus é o Cristo, mostrando desse modo a ausência, até aquele momento, de qualquer dúvida a respeito da messianidade de Jesus por parte dos cristãos. Cara a Paulo é a expressão “Cristo crucificado”, ele marca o distintivo da fé cristã. Essa expressão era chocante e inaceitável para a mentalidade judaica e sua compreensão de messias.

Outra expressão significativa para Paulo é a fórmula “em Cristo”. Esta refere-se a um estado espiritual e místico de união com o Cristo. Estar “em Cristo” é ser parte constitutiva de um corpo, a Igreja. O Cristo,j transcende o tempo e o espaço. Podendo assim, habitar em cada cristão e possibilitar que cada um habite Nele. Paulo acentua o título Cristo,j em 1Cor porque na comunidade havia membros demasiadamente apegados ao Cristo glorioso da Parusia, Ku,rioj, não querendo ouvir falar da morte do Messias Crucificado, considerado loucura. Paulo procura explicitar seu sentido de Cristo,j, através da Teologia da Cruz e da Sabedoria de Deus. Essa teologia orientará toda a Cristologia paulina posterior.


1.2 — Nos Evangelhos.

Existe um consenso atual sobre o objetivo principal dos evangelhos escritos e da tradição evangélica que os precedeu: anunciar Jesus como Cristo e Senhor. Sem excluir, no entanto, o interesse pela realidade histórica de Jesus.(2) Os evangelhos são documentos já teologizados, ou seja, são expressões da fé das comunidades primitivas, mas estão vinculadas à ação e à vida de Jesus de Nazaré. O que é próprio de um “evangelho” é ser uma proclamação da messianidade e da filiação divina de Jesus, possibilitada pelos relatos — de suas obras e palavras. Essa compreensão é que faz do escrito de João também um evangelho, apesar das grandes diferenças em relação aos sinóticos.

Destes o que mais se aproxima da compreensão paulina de Cristo,j (Messias) é o Evangelho de Marcos. Isto é compreensível se recordamos, que este é o mais antigo dos evangelhos. Esta proximidade se refere à relação direta entre o título Cristo,j e o Mistério Pascal (morte e ressurreição).

O Evangelho de Marcos estrutura-se sobre um esquema teológico chamado “segredo messiânico”.(3) Este se percebe através de uma visão geral do livro. Na primeira parte do escrito marcano a pergunta que perpassa o texto é: quem é Este? (1,1— 8,26). No centro está a resposta: Jesus é o Cristo/Messias (8,29). Na seqüência se delineia o tipo de Messias que Jesus é (8,27—l 6,20).

No segredo messiânico mantêm-se uma tensão constante entre manifestação e segredo sobre quem é Jesus. Em suas palavras e obras essa tensão se expressa. Elas manifestam o Cristo e ao mesmo tempo, Jesus procura guardar segredo sobre sua identidade messiânica. A verdadeira identidade de Jesus só será revelada após sua morte e ressurreição. São os milagres, as palavras e gestos de Jesus que dizem quem Ele é: o Cristo, Filho de Deus.

Embora Marcos tenha como ponto central de sua Cristologia o Jesus Messias, Jesus só dirá que o é diante das autoridades judaicas (14,61-62). Jesus se apresenta como Filho do Homem. Este título é caro ao evangelista, que o usa 14 vezes, enquanto o de Messias e Filho de Deus, apenas sete cada. É através do Filho do Homem que o evangelista caracteriza a tarefa e o mistério de Jesus. Ele é o Messias que sofre até a morte e morte de cruz e é ressuscitado e exaltado por Deus.

Concluindo: o título Cristo,j (Messias), não é o mais usado no Evangelho de Marcos, contudo, é o centro de sua Cristologia. Jesus é o Cristo. Esta afirmação dá autoridade ao seu anúncio do Reino de Deus. O agir e a fidelidade de Jesus ao projeto de Deus o leva à cruz, expressão máxima de sua fidelidade a Deus e ao Reino.

No Evangelho de Mateus o título Cristo,j é usado muitas vezes, mas não com o mesmo sentido e peso com que Paulo o utiliza. Na Cristologia de Mateus, Jesus é antes de tudo, o Senhor e o Filho de Davi. Embora use também os títulos: Filho do Homem, Servo de Deus sofredor, revelador da última palavra de Deus (novo Moisés) e Filho de Deus.

O Messias em Mateus está ligado à idéia geral de messianismo enquanto abarca os ideais que representam o Israel do futuro, o reino universal de YHWH. Jesus é Senhor e Mestre. É um messias que liberta e salva, pois, é messias por palavras e obras. É, sem sombra de dúvida, o messias preanunciado pelos profetas. Seu poder messiânico não é nem político nem militar, consiste no ensinar com autoridade a vontade do Pai. Esta vontade se expressa na cura dos doentes (Mt 11,5), expulsação dos demônios (Mt 10,1), libertação dos humildes e pobres de toda força que os oprima.(4)

Assim, Jesus foi fiel até o fim e selou sua fidelidade na cruz. Por isso, Deus o exaltou pela ressurreição e o constituiu “Senhor”. Outro aspecto ressaltado, como nos outros evangelhos, é o anúncio do Reino. A mediação da qual Jesus é o Mediador.

Os evangelhos de um modo geral, apresentam Jesus como Cristo (Messias) e Senhor. Lucas também o apresenta desse modo, no entanto, não centua os títulos, mas trabalha com “modelos”. Em Lucas Jesus é, sobretudo, profeta e salvador. É o “novo Elias”. Lucas trabalha com duas linhas: fidelidade à tradição e liberdade em relação a esta. Como todos os outros evangelistas, tenta responder aos questionamentos de sua comunidade e isso pressupõe certa liberdade. Jesus é o homem da palavra e do Espírito: anuncia a palavra da salvação e age movido pelo Espírito, tal como os profetas. Interpreta a morte e ressurreição de Jesus, o profeta poderoso em obras e palavras, na linha dos profetas clássicos. Ele será exaltado, glorificado por Deus, ao ser ressuscitado.

Particularmente diferente é o Evangelho de João. Este trabalha de forma magistral o Cristo (Messias). O evangelista parte do Lo,goj o Verbo de Deus que se faz carne. Jesus é a Palavra de Deus encarnada. Assim, o acento maior parece recair sobre Jesus enquanto revelador do Pai.

A exemplo dos outros evangelistas, João afirma, em última instância, que Jesus é o Cristo. No início de seu evangelho, encontramos o testemunho de André a seu irmão Pedro: “Nós achamos o Messias” (Jo 1,41) e no final, o próprio evangelista atesta o motivo do escrito: “Estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31).

Resumindo. Todos os escritos neotestamentários apresentam Jesus como o Cristo (Messias). Se em Paulo essa messianidade não era posta em dúvida, o mesmo não pode ser afirmado a respeito da comunidade de Mateus, Marcos, Lucas e João. Mesmo que Marcos tenha uma preocupação mais clara que os outros, em apresentar Jesus como Cristo, essa difere muito da intuição paulina. O que permanece nos evangelhos da compreensão paulina de Messias é sua ligação direta com o Mistério Pascal, mas estes se preocupam com a práxis terrena de Jesus.

Notas:
* É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em filosofia pelo Instituto Teológico e Pastoral do Ceará – ITEP. Graduada e mestranda em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE.
(1) Temos como exemplo do emprego do termo nos livros históricos em referência a unção dos reis.
(2) BARBAGLIO, G et alii. Os Evangelhos (1). Loyola: São Paulo, 1990, p. 25-26.
(3) Expressão criada por W. WREDE, em obra publicada em 1901 e citada em BARBAGLIO, G. op. cite, p. 507. Ver ainda MINETTE DE TILLESSE, G. Le secret messianique dans l’Evangile de Marc, Paris. Cerf,
1968.
(4) BARBAGLIO, G. op. cite, p. 57.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Jesus Cristo: único mediador segundo a Carta aos Hebreus

Aíla L. Pinheiro de Andrade*, nj.

“Aos hebreus” é o título do livro bíblico. Não menciona a região onde estavam as pessoas a quem se dirige, mas podemos encontrar, a partir do próprio texto, algumas pistas sobre seus primeiros destinatários.

Os membros da comunidade de Hebreus parecem estar em boas condições financeiras (Hb 10,34). Provavelmente não eram da Igreja de Jerusalém, cujas necessidades foram socorridas pela coleta dos irmãos gentios (At 24,17; Rm 15,26-28).

O texto deixa transparecer que seus primeiros destinatários estavam seriamente contaminados por uma crise de fé ou apatia (Hb 5,11b; 6,12; 12,3. 12), com dificuldade para perseverar (Hb 3,14) e com falta de confiança (Hb 10,35). Alguns tinham abandonado as assembléias (Hb 10,25) e a fé cristã (Hb 6,4-6; 10,28-31), embora o autor recorde que ainda jovem essa comunidade suportou um “combate pesado e doloroso” (Hb 10,32): injúrias, perseguições, espoliação dos bens (cf. Hb 10,33-35), alguns cristãos foram colocados na cadeia (Hb 13,3). Além disso, havia ainda o perigo de desvio doutrinário (Hb 13,9).

Enfim, o texto fala de dificuldades internas e externas da comunidade. Elogia, porém, seu passado, afirmando ser digno de louvor: seus membros serviram os “santos” (cf. Hb 6,10) e aceitaram os sofrimentos alegremente (Hb 10,34). Esses fatos do passado são lembrados agora para estimulá-los à perseverança. Portanto, não se trata de uma Igreja de fundação recente (Hb 5,12). O autor lhes recorda os pregadores, dos quais receberam o anúncio, como já tendo concluído suas carreiras naquele momento, ou seja, já estavam mortos (Hb 13,7). Mas apesar dessa comunidade ter aceitado o anúncio há muito tempo e de ter passado por esses sofrimentos, ainda não era capaz de tirar deles a força para manter-se fiel, e está sucumbindo a uma apatia da fé (Hb 5,11-14).

Diante das dificuldades internas e externas, o autor convida os destinatários a olharem para quem suportou o maior sofrimento de todos, Jesus Cristo, o “Sumo Sacerdote”, que se sentou à destra do trono da majestade nos céus” (Hb 8,1). Isso requer uma explicitação, visto que ele não era da estirpe sacerdotal, da tribo de Levi (Hb 7,14; 8,4).

O sacerdócio de Cristo não é segundo a descendência (carne), mas de outra forma. O autor encontra na tradição de Israel um argumento fundamental: Jesus foi feito Sumo Sacerdote segundo a condição (ordem) de Melquisedeque” (Hb 6,20; Sl 110,4).

Para Israel, sacerdócio significa mediação entre Deus e o povo. Sumo Sacerdote significa único mediador. E a partir do conceito de sacerdócio como mediação, o autor de Hebreus vai tecer suas considerações.

Para quem pensa que os anjos são mediadores, escreve o autor de Hebreus que Jesus é maior que os anjos, pois esses, embora estejam junto a Deus, não são humanos, e por isso não podem ser solidários com nossas fraquezas (cf. Hb 2,5-18).

Para quem venera a memória de Moisés, tido pelos judeus como o maior mediador (Nm 12,1-8) do qual os sacerdotes dependiam (Lv 8,12), o autor afirma em Hb 3,1-6 que Moisés não passa de um servidor, só Jesus, enquanto Filho, é digno de fé, constituído à direita de Deus (Hb 1,3).

Para ser verdadeiro mediador, há que pertencer às duas realidades: humana e divina. Moisés participa da esfera humana, conhece nossas fraquezas, mas é um servidor da casa e não o Filho. Os anjos têm acesso à esfera divina, pois estão diante do trono, mas não são humanos, logo, não são verdadeiros mediadores (1,4–2,5). Assim, somente Jesus Cristo é o único mediador, em outras palavras, o Sumo Sacerdote.

Por ser o Filho, ele tem a autoridade de ter sido constituído Sumo Sacerdote por Deus, glorificado à direita do Pai. Na relação com os homens há o aspecto da solidariedade: é misericordioso, visto que por experiência própria participou das nossas fraquezas (Hb 5,7, e na Cruz – Hb 12,2).

Isto faz dele o fundamento da nossa fé. O cristão pode lançar toda a sua existência sobre esse fundamento, por duas razões: porque Cristo é o Filho de Deus constituído em dignidade; e porque nos amou a ponto de morrer por nós.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O ateísmo antropológico de Feuerbach: para uma possível relação com a Teologia

Luziene Filgueira da Silva, nj*


Desenvolverei esse texto partindo de cinco pontos que considero essenciais para uma melhor explanação do assunto. São os seguintes: 1) como era o pensamento sobre Deus e o homem anterior a Feuerbach; 2) a problemática percebida por este filósofo que o levou a desenvolver seu pensamento; 3) como é estruturado seu pensamento com relação à religião e qual sua crítica; 4) que solução ele aponta e o que não se sustenta em sua crítica;5) o que há de positivo que pode contribuir para a Teologia.

Para um melhor desempenho, utilizarei não só o texto referido, o de Manfredo, mas também alguns apontamentos da minha monografia que trabalhei que tem como tema: “O Ateísmo de Feuerbach como Afirmação do Homem em a Essência do Cristianismo.”

Feuerbach era um filósofo alemão que viveu no século XIX. Anterior a Feuerbach, Deus, assim como na idade média, continuava sendo o centro, só que já estando na era da modernidade a questão de Deus é racional.

Na Alemanha o feudalismo ainda estava muito presente. Sendo governada por príncipes, barões e prelados, sofria grande influência ideológica cristã. O governo tirava proveito do povo, dizendo agir em nome de Deus e o povo simplesmente obedecia, isso se tomava alienante. Feuerbach percebendo tudo isso, vê também a religião por este ângulo. Para ele o cristianismo se confundiu com o capitalismo. Assim como o sistema tira as esperanças do homem de se apossar de seu objeto, não se reconhecendo mais naquilo que construiu, fabricou; assim também a Teologia se apossou do objeto humano, de sua essência colocando-a como uma outra diferente e oposta. Então o homem desvaloriza sua essência por não se reconhecer nela. Ele não consegue resolver seus problemas então se refugia, tomando sua essência alienada como consolação.

A influência iluminista levou Feuerbach a desenvolver seu pensamento, só que fazendo uma releitura em que percebe no homem seu caráter ilimitado, O homem é o ponto de partida de todo conhecimento, assim também, é a partir do homem que Deus é pensado. Então nessa supervalorização do homem, Feuerbach o vê como um todo, ou seja, o homem é matéria, pensamento e sensibilidade; é o real é quem pensa, sente; é nele que está toda imaginação, criação. Enfim, o homem é o sujeito da razão. Não é mais o finito no infinito, mas o infinito no finito. Na religião tudo de bom fora colocado em Deus deixando o homem pobre, em decadência. Houve uma cisão no homem, desviando todos seus valores para o além. Então Deus é a essência do homem alienado de si mesma. Aquilo que é do homem fora transformado em um ser diferente e oposto ao homem, Deus. Agora é preciso que o homem tome consciência dessa alienação, de que “Deus é apenas projeção ou reflexo que o homem faz de si mesmo” (apud ZILLES, 1991, p. l08).

Para Feuerbach a religião não assume as necessidades humanas, tenta solucioná-las com ascética, ilusoriamente causando uma alienação no homem separando-o de sua essência. O que o homem poderia resolver aqui é transportado para o além. Isso seria uma forma de acomodar o homem a não superar-se, a não construir a sociedade, a história, ficando alheio a realidade concreta que precisa de transformação. É assim que acontece essa alienação, na própria estrutura do pensamento.

Para Feuerbach esse Deus criado pelo homem é sua essência infinita, ou seja aquilo que o constitui: a razão, a vontade e o coração. Elas realizam o gênero, a própria humanidade do homem. São elas que vão dinamizar a vida do ser humano; impulsionando-o a refletir, agir e doar-se plenamente. O processo de desalienação acontece quando o homem toma consciência de sua infinitude, sabendo que não é algo estranho a ele, assim ele redescobre sua dignidade de homem. Para Feuerbach essa é a verdadeira religião.

A preocupação de Feuerbach está em negar a negação do homem. Ele não se considera ateu, pois ateu não é o que nega a Deus, mas o que nega seus atributos, e isso ele afirma não ter feito. Quando o homem destruir o que criou, Deus, sem eliminar seus predicados e se reconhecer neles, então ele não estará mais alienado. É perceptível que para Feuerbach o ateísmo é necessário para que o homem reconquiste sua essência. Não é a intenção desse pensador destruir a religião mas resgatar sua gênese que ele afirma ser antropológica.

Apesar de bons argumentos a tese de Feuerbach não se sustenta em determinado ponto, pois o que ele faz é apenas trocar Deus por outra realidade abstrata que são as perfeições, a essência que compõe o ser humano. Só que não há como constatar essa essência (espécie), não se pode ver nem pegar. Portanto, Feuerbach continuou no plano metafisico. O problema é que ele continuou idealista, superando a alienação só no pensamento e não na prática.

Podemos levar em conta na teologia a crítica de Feuerbach: “ A religião é alienação”, pois podemos realmente criar um Deus, ou imagem de Deus que poderia alienar. Se formos muitos fechados nos tornamos alienados e dessa forma a religião pode vir a ser uma ameaça a religiosidade.

Outra coisa importante é que Feuerbach deu um grande passo para a Teologia quando ele ressalta o valor antropológico, afirmando o homem. Pois a Teologia não pode afirmar nada de Deus negando o homem, sabendo que o homem é o lugar prévio.

Sendo um pouco mais ousada quero complementar o pensamento de Feuerbach quando ele diz: “Mostro então que o verdadeiro significado da teologia é a antropologia”. Pode ser complementado da seguinte forma: como também o verdadeiro significado da antropologia é a teologia. No sentido que não é possível falar do homem sem falar de Deus, como também, não é possível falar de Deus sem falar do homem. Recordo o pensamento de Rahner apresentado pelo professor Aquino que até agora me soa muito bem; quando ele expôs que o homem é a possível alteridade de Deus e Deus, enquanto se revela, se doa, se apresenta ao homem, pode-se dizer que é a possível alteridade do homem. Isso pode resumir a aliança que há entre teologia e antropologia e que não há uma objeção entre ambas.

Pensamentos contrários a Teologia não devem ser desprezados, mas analisados e compreendidos para um possível diálogo. De alguma forma eles sempre darão sua contribuição enriquecendo nosso conhecimento, nos levando a refletir e precaver sobre tantas questões, e nesse caso do referido trabalho sobre a alienação; até onde estamos alienando ou sendo alienados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Filosofia Transcendental e Religião: Ensaio sobre a filosofia da religião de Karl Rahner, São Paulo: Loyola, 1984.

SILVA, Luziene Filgueira. O Ateísmo de Feuerbach como afirmação do homem em A Essência do Cristianismo, 2008. 39p. Monografia (Bacharelado em Filosofia) — Faculdade Católica de Fortaleza.

ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião, São Paulo: Paulus, 1991.


* Luziene Filqueira da Silva é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Faculdade Católica de Fortaleza. Atualmente cursa o bacharelado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE).