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quinta-feira, 21 de abril de 2022

ENCONTROS PASCAIS: TOPAR COM O CRISTO RESSUSCITADO

 
Estamos vivenciando a alegria da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tal acontecimento é tão maravilhoso aos nossos olhos que não pode ser encerrado em um dia. A Liturgia nos anima a viver o Domingo da Ressurreição durante oito dias: a oitava da Páscoa. Relatos dos Evangelhos narram os encontros de Jesus com as discípulas e discípulos, que passam a ser testemunhas do Ressuscitado.

As narrativas nos ajudam a perceber a profundidade do mistério que nos envolve e traz ressignificação para a vida. O Jesus que se revela vencedor da morte não é outra pessoa, não é um fantasma, é o mesmo que foi crucificado: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu!”. (Lc 24, 39). Como reagir diante de tão grande surpresa? Vários foram os sentimentos dos discípulos: espanto, temor, dúvida, alegria...

O anúncio da Ressurreição foi feito à Maria Madalena, uma mulher, que mesmo numa sociedade que a coloca à margem, sem voz e sem vez, não se cala diante do pedido de seu Mestre amado: “Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá me verão” (Mt 28, 10). Maria Madalena que, na dor da ausência do Mestre, não o reconhece quando este aparece, mas ao escutá-lo chamando seu nome, tem os olhos abertos e pode exclamar: “Eu vi o Senhor!” (Jo 20, 18).

Mesma experiência acontece com discípulos de Emaús. No caminho, saídos de Jerusalém para um povoado próximo, os acontecimentos dos últimos dias eram muito pesados, conversavam, sem dúvida, sobre a tristeza, a frustração e a incerteza da vida sem o seu Mestre. Jesus aparece e os acompanha pelo caminho, mas os olhos dos discípulos estão fechados, como estão fechados também os seus corações. No diálogo pelo caminho Jesus pergunta pelos acontecimentos, escuta e explica os fatos à luz das Escrituras. Aproximando-se do povoado eles pedem que Jesus fique, pois a “tarde cai e o dia declina”. Jesus ficou e, à mesa com eles depois da bênção e partilha do pão, os olhos dos discípulos se abrem e o reconhecem. E diante de tão grande alegria dizem um ao outro: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). E voltaram para anunciar aos outros discípulos que tinham visto o Senhor Ressuscitado.

Na continuação dessa narrativa vemos Jesus que se apresenta no meio deles e diz: “A paz esteja convosco!” (Lc 24, 36). A paz que só o Ressuscitado pode nos dar. Mesmo diante de tantos sentimentos que temos nos momentos de perda, de dor, de frustração como os discípulos naquele momento, Jesus se apresenta como a nossa paz. E diz aos discípulos e a nós hoje: “não fiqueis perturbados e não tenhais dúvidas em vossos corações, sou eu mesmo!” (Lc 24,37).

Só podemos falar daquilo que conhecemos. O conhecimento adquirido na vivência diária da troca, da partilha, do relacionamento íntimo, nos conduz ao amor. Amor doado que nos permite reconhecer Jesus Ressuscitado. A comunidade reunida no seu cotidiano, no seu trabalho, também é convidada a reconhecer o Mestre, assim como o discípulo que Jesus amava o reconheceu às margens do mar de Tiberíades: “É o Senhor!” (Jo 21, 7). O Senhor que nos orienta onde pescar e se reúne conosco para nos alimentar.

A Ressurreição de Jesus é vida nova para todos. Eis o seu envio: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Mas a limitação dos discípulos não os permite, no primeiro momento, ter os olhos abertos para reconhecer o Cristo Ressuscitado. Jesus como Mestre amado, também nessa nova realidade, censura-lhes a incredulidade e a dureza de coração (Mc 16, 14). Todos somos convidados a fazer a experiência com o Cristo Ressuscitado.

O testemunho é consequência da experiência com o Senhor que nos amou e amou até o extremo, a cruz. Padre Caetano Minette de Tillesse dizia que a “Ressurreição significa deixar Deus fazer o projeto dele em nós”. Viver e proclamar a Boa Nova, o Cristo Ressuscitado, “topar com Deus” transforma todo o nosso ser e não há como ficar imparcial diante de tão grande Amor e Mistério.

O período pascal continua, que esses mesmos encontros que meditamos na oitava da páscoa, nos ensinem a reconhecer Jesus Ressuscitado no nosso cotidiano. Que o medo e a dureza de coração deem lugar a fé, fidelidade e coragem no anúncio da Boa Nova.


Referência Bibliográfica

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. 

 

Ir Edmara Ferreira de Lima é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação em biblioteconomia pela UFC, é aluna do bacharelado em teologia na Universidade Católica de Pernambuco.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Ide a José, homem justo com um coração de Pai

 

A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo. Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”. Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia ordenado, e acolheu sua esposa (Mt 1,18-24).


Esse trecho do Evangelho conforme Mateus, que é proclamado na liturgia de 18 de dezembro, narra como José lidou com a gravidez inesperada de Maria, com a qual estava desposado. É um relato tenso sobre a forma como ele responde a uma mudança inesperada em sua vida e no futuro dele com Maria e a criança que vai nascer.

Lidar com decepções ou problemas que surgem inesperadamente, como um acidente, uma demissão, uma doença, a morte de um ente querido ou a notícia ruim, é algo muito difícil para qualquer ser humano. Nossos sonhos para o futuro podem ser alterados para sempre quando algum acontecimento inesperado invade nossas vidas.

A narrativa mateana sobre o nascimento de Jesus nos lembra que Deus está conosco, não importa o que aconteça.


QUEM É JOSÉ?

As narrativas sobre a infância de Jesus no Evangelho de Mateus se concentram mais em José do que em Maria. Isso porque o Evangelho de Mateus foi direcionado para cristãos de ascendência judaica. Mateus quer demonstrar que Jesus é o messias da linhagem de Davi, prometido pelos profetas na Sagrada Escritura.

Em hebraico José (Yoseph), derivado da raiz YSP (adicionar, acrescentar). Foi isto que Raquel disse quando lhe nasceu seu primeiro filho e décimo primeiro de Jacó: “que o Senhor me acrescente mais um filho” (Gn 30,24). Mas essa raiz também significa “agregar”, por isso, o nome José também pode significar “aquele que agrega”. Existem muitos paralelos entre o esposo de Maria e o patriarca filho de Raquel e Jacó, um dos doze patriarcas que formaram as doze tribos do povo de Israel. Por isso, o Papa Francisco destaca na Patris corde que “São José constitui a dobradiça que une o Antigo e o Novo Testamento” (1).


- Maria estava desposada com José e, antes de viverem juntos

O casamento judaico consiste de duas etapas: a primeira fase é a ketubá ou contrato de casamento que estipula as responsabilidades mútuas de esposo e esposa (Mt 1,18a, Lc 1,27a, Is 7,14). Depois disto o esposo vai preparar a residência para a nova família. Nessa ocasião o esposo dizia: “Vou preparar-te um lugar na propriedade de meu pai” (Jo 14,2). A etapa da coabitação é marcada pela cerimônia de kedushim (santificação) (Mt 1,18). O amigo do esposo prepara a cerimônia (Jo 2,9-11; 3,29). Ele avisa que o tempo da espera terminou (Mt 25,7). Duas procissões são formadas, uma com a esposa e outra com o esposo (1Mac 9,37-39; Ct 3,6-11; Mt 25,1-13). No encontro dos esposos há uma festa (Mt 22,1-14). Após a ketubá qualquer infidelidade dos esposos é considerada adultério. Essa é a situação suposta no relato mateano.

José se encontra numa situação terrível, seus sonhos de um casamento e de uma família felizes foram frustrados pela incrível notícia de que Maria estava grávida. É intenção do evangelista que sintamos as emoções e os pensamentos que devem ter dominado José até ele decidir o que fazer.

José viveu um dilema: sua esposa apareceu grávida e não era dele: não tinha evidências para provar a inocência ou culpa de Maria. Mateus nos informa que José ficou pensando até tomar uma decisão.


- era justo e não querendo denunciá-la

Em vez de expor publicamente Maria à desgraça, pois ela seria apedrejada como adúltera, José decidiu divorciar-se dela discretamente sem mencionar o motivo.

A bondade (justiça) de José permitiu a intervenção oportuna de Deus. José não foi considerado um homem justo porque ele era um observador rigoroso da Lei (Dt 22,23-24), mas por seu ajustamento em relação à vontade de Deus, por sua bondade.

A única opção para ele era se divorciar de Maria, escrevendo uma carta de divórcio (Dt 24,1) sem divulgar o motivo. No entanto, ele não fez isso imediatamente; mas estava ainda cogitando pôr em prática sua decisão.


- o anjo do Senhor lhe apareceu

O nome do anjo não é especificado, Mateus afirma que é o anjo do Senhor, que no Antigo Testamento é frequentemente um representante de Deus ou uma forma de falar no próprio Deus ao se comunicar com um ser humano. Alguns exemplos do aparecimento do anjo do Senhor são a Agar (Gn 16, 7-14), a Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,1), a Abraão no Monte Moriá (Gn 22,11-12.15), a Jacó (Gn 31,11;32,25), a Moisés (Ex 3, 2), a Josué (Js 5,13-15), a Gideão (Jz 6,22) e aos pais de Sansão (Jz 13,21-22). Novamente um eco da genealogia, José e Maria continuam a história do povo.

O anjo tranquiliza José dizendo que ele deve ir em frente e receber Maria como esposa, ou seja, deve desistir de divorciar-se dela. O anjo estava garantindo a José que ele poderia confiar em Maria.

Foi algo semelhante à interferência de Deus na vida de Abraão quando ele estava perto de sacrificar seu filho Isaque. Por isso Mateus colocou a genealogia de Jesus como introdução desse relato, ele quer que nos lembremos das histórias daqueles patriarcas e matriarcas. A história de José e de Maria é uma continuação das narrativas do povo da aliança.

O patriarca José, que viveu 700 anos antes, também era um homem casto e justo. Sua integridade moral é apresentada em Gn 39, quando ele vence o assédio da esposa de Potifar, seu amo. O patriarca José, sendo justo (bom) não se vingou de seus irmãos e nem os envergonhou publicamente quando eles foram ao Egito em busca de alimento. Em vez disso, ele os tratou bem e disse-lhes: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração” (Gn 50,20-21).

Era função do patriarca agregar, proteger, conduzir e cuidar da tribo. Temos aí novamente um paralelo entre o José do Antigo Testamento e o esposo de Maria. Inclusive o Papa Francisco destaca na Patris corde esse aspecto do papel que ambos exercem em relação ao cuidado. Diz o Papa que a confiança do povo em São José está contida na expressão “Ide ter com José; fazei o que ele vos disser (Gn 41, 55), uma referência às palavras do faraó do Egito quando o povo pedia pão em tempos de carestia e este lhe indicava que deveriam se dirigir àquele poderia suprir suas necessidades (1).


- em sonhos

Numerosas vezes na Bíblia, Deus se comunica com as pessoas por meio de sonhos. A Bíblia dá importância aos sonhos e à interpretação dos sonhos. O patriarca José também recebeu mensagens de Deus através de sonhos e também tinha o dom de interpretá-los. O sonho no qual seus irmãos se curvavam diante dele se tornou realidade. Sua interpretação do sonho de Faraó salvou o Egito e sua família de sete anos de fome.

O Evangelho conforme Mateus relata quatro sonhos de José, o esposo de Maria. O primeiro está no trecho que estamos refletindo (Mt 1, 20). O segundo está relatado logo depois que os magos partiram: o anjo do Senhor avisou a José para ir ao Egito (Mt 2, 13). O terceiro é narrado logo depois da morte de Herodes Magno quando o anjo diz a José para sair do Egito (Mt 2,19-20). No quarto sonho, José é avisado para não ir habitar na região da Judeia, mas da Galileia (Mt 2,23).


- Filho de Davi

A saudação do anjo chama a atenção: “José, filho de Davi”. O anjo enfatiza que José era da linhagem do Rei Davi, personagem mais destacado pela genealogia. Com essa saudação, o anjo preparou José para a parte seguinte da mensagem que iria transmitir. O povo da aliança estava esperando o messias que seria descendente do rei Davi conforme a profecia de 2 Sm 7, 12-16.

A expressão “Filho de Davi” foi usada várias vezes em referência a Jesus por pessoas que pediam sua misericórdia. Por exemplo, a mulher cananeia que pedia a cura de sua filha atormentada por um espírito impuro (Mt 15,22) e dois cegos pedindo a cura (Mt 20,30). O uso de “filho de Davi” pelo anjo ao saudar José significa que há uma conexão ancestral com Davi, de cuja linha o libertador viria.


- Não tenhas medo

José e Maria viviam numa época em uma sociedade que estava profundamente focada em
ideias de honra familiar. E se a esposa tivesse sido infiel aos compromissos do matrimônio, o esposo tinha o dever legal de assumir uma posição moralmente elevada e se mostrar livre da vergonha pública. E todos, legal e socialmente, ficariam do seu lado. Marcado por aquele contexto, José estava com medo do que as pessoas diriam a respeito dele. A vergonha pública, a má reputação o seguiria pelo resto de sua vida. Além disso, como ele poderia amar uma criança sabendo que não era seu pai? Todos esses receios devem ter passado pela cabeça de José.

Há outro agravante, porém. Aquela época era um tempo de terror. Um dos personagens principais daquele contexto era o rei Herodes Magno, um homem extremamente violento que não admitia nenhum questionamento a respeito da opressão que o império romano exercia sobre os povos. Qualquer atitude que fosse classificada como rebelião era combatida com grandes torturas e morte na cruz. Havia a pax romana que proibia qualquer desacordo entre as pessoas. As pessoas viviam aterrorizadas e se refugiavam nas promessas de Deus que enviaria um libertador nacional semelhante a Davi que combateu os filisteus ou a Moisés que venceu o faraó do Egito.

Mas o anjo disse a José que não deveria ter medo porque o que nela foi concebido procedia do Espírito Santo. Deus estava cumprindo suas promessas, o libertador estava chegando através de Maria.


- tu lhe darás o nome de Jesus

O nome Jesus significa literalmente “YHWH (o Senhor) é a salvação”. O anjo estava dizendo a José que o menino que iria nascer é Deus trazendo a salvação prometida. Não apenas uma libertação nacional contra o império romano e o poder de Herodes. De uma forma que José, e nem nós ainda conseguimos entender completamente, esse menino é Deus vindo fazer morada conosco como um de nós.

Portanto, o anjo esclareceu a missão de Jesus para José. Jesus, em hebraico é Yeshua', o mesmo que Josué, no Antigo Testamento, que conduziu os israelitas através do rio Jordão para a terra prometida derrotando os cananeus. Jesus salvaria o povo da escravidão do pecado e os conduziria através batismo à nova Jerusalém, a realidade celeste. Portanto, a libertação prometida por meio do redentor não era do imperador romano, como os líderes judeus contemporâneos esperavam do messias, mas de um inimigo maior que poderia impedir o povo de chegar a Deus.

O pai era o único que tinha o direito de nomear o menino Jesus no dia da circuncisão, o rito de iniciação à fé judaica. José lhe deu o nome de Jesus conforme as instruções do anjo e, dessa forma, o reconheceu como o filho legal. De acordo com o conceito da época, nomear um filho era reivindicar o filho como seu. A paternidade de Jesus pertence a Deus, o Pai, que designou o nome de Jesus para seu filho e pediu a seu pai adotivo José e sua mãe Maria que usassem esse nome no momento de sua circuncisão.


- para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta

Mateus está se referindo ao texto do profeta Isaías em 7,14. Um destaque deve ser dado ao
termo Emmanuel, que é um título e não um nome. No livro de Isaías há várias nomeações semelhantes para o messias: “o seu nome será: “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5). Estes, incluindo “Emanuel”, não foram dados como nomes literais, mas como o título que especifica as características do Messias.


- quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia ordenado

O relato de Mateus está enfatizando que a história da salvação depende da obediência de José em meio a sua decepção, medo e incertezas. Três vezes no relato mateano sobre a infância de Jesus, José é visitado por um anjo que lhe diz para fazer algo e três vezes ele faz exatamente o que lhe foi dito para fazer. Ele é um personagem silencioso, não o ouvimos falar, ele é um homem de ação e faz o que precisa ser feito. Todos podemos nos beneficiar com o seu exemplo.


AS VIRTUDES DE JOSÉ

Podemos concluir nossa reflexão elencando algumas virtudes de José que transparecem no texto de Mateus. Elas são muito necessárias para nossa época:


- José era paciente

José foi paciente ao resolver o problema com Maria. Embora tivesse cogitado se divorciar em segredo, ele pensou muito a respeito. Uma reação imediata de José poderia ter levado Maria correr risco de morte e ele poderia ter perdido sua vocação como pai adotivo de Jesus. A ação imediata é boa em situações de emergência. Porém, quando há um conflito dentro de si ou na relação com os outros, a paciência por um tempo oportuno, com a confiança em Deus, nos ajudarão a uma melhor solução. Esperar um tempo razoável pode ser benéfico para obter ajuda de Deus ou de outras pessoas para resolver os problemas.


- José era um homem justo

Esse é o principal título que as Escrituras dão a José, além daquele com o qual o anjo o saudou “filho de Davi”.

Os anseios de José por um casamento feliz foram interrompidos pela notícia de que Maria estava grávida. O texto mateano destaca que José era “justo” no sentido de que ele se adequa ao que Deus espera do ser humano. Por isso, José decidiu encerrar o casamento discretamente. Este foi um ato nobre de sua parte, pois colocou em primeiro lugar salvar a honra da família de Maria e a vida dela em vez de cumprir rigorosamente a Lei. Isso é visto como algo justo pelo autor do evangelho. 
 
Aquele que prefere outro, aquele que mostra honra ao invés de “direitos” é o tipo de pessoa que precisamos nos tornar. José é justo porque seu agir é semelhante ao agir de Deus. José é uma pessoa segundo o coração de Deus. Ele era realmente um homem de Deus.


- José era atento

Não devemos esticar a passagem fazendo o texto dizer o que não era intenção do autor. No entanto, Mateus diz que José “pensava nisso”. Temos Maria como alguém que “meditava essas coisas em seu coração”. Mas, aqui, vemos que José também era um homem atento, um homem que refletia sobre os acontecimentos que estavam acima de sua compreensão e que o deixavam sem entender o agir de Deus. Não podemos entender a complexidade do agir de Deus a nosso respeito, não somos capazes disso, é preciso dar atenção aos acontecimentos com profundidade para discernirmos que decisão devemos tomar para fazer a vontade de Deus. É necessário ser uma pessoa atenta, meditar sobre como aplicar a Palavra de Deus às situações; considerar o leque de possibilidade de escolhas que Deus coloca diante de nós e considerar as consequências de cada alternativa de ação. Quantos de nós se orgulham da rapidez com que agem na vida? No trabalho, no lazer, nos relacionamentos, nas decisões...


PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

1. Se você calçasse as sandálias de José, como você teria reagido às notícias de Maria sobre a gravidez?

2. Você já teve uma experiência em que alguém lhe pediu para acreditar em algo que parecia “difícil de acreditar?” Como você reagiu a isto?

3. O que a decisão inicial de José nos diz sobre seu caráter?

4. Depois que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, o que as ações de José revelaram sobre sua fé? 
 
 
 
Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

sexta-feira, 10 de julho de 2020

O Relato da Infância de Jesus como Cristologia Pós-Pascal



Resumo

Neste artigo[i] abordaremos as questões em torno do estudo do Relato da Infância segundo Lucas como cristologia pós-pascal, a partir de duas questões principais: a discussão sobre a historicidade desse Relato e as perspectivas de alguns estudiosos que procuram corrigir Hans Conzelmann, autor que desconsidera tal Relato como teologia lucana.

Por questões metodológicas, dividiremos o assunto em três postagens: 1ª) Uma breve introdução, seguida do tópico sobre o desenvolvimento da cristologia; 2ª) o tema da historicidade da Narrativa da Infância e 3ª) a reflexão sobre Narrativa da Infância no contexto da teologia lucana, concluindo com a Narrativa da Infância como mini evangelho.

 

Introdução

A Narrativa da Infância[ii] segundo Lucas é extensamente estudada pelos especialistas atuais. A estrutura literária, a origem e a linguagem das fontes, o gênero literário, entre outros aspectos, são temas tratados por esses estudiosos. Observa-se que alguns aspectos dessa narrativa comparados ao restante do Evangelho causam certa estranheza quanto ao estilo lucano[iii] (SPINETOLI, 1967, p. 67). As peculiaridades presentes no Relato da Infância, o claro tom semítico e as possíveis fontes utilizadas por Lucas são elementos, entre outros, que levaram alguns especialistas a questionar o valor desse relato para o Evangelho lucano. São narrativas? Histórias edificantes? Episódios de crônica? (Ibid.).

Encontrar respostas para essas questões significa trilhar o caminho percorrido por muitos estudiosos na tentativa de uma aproximação da teologia desse relato e das motivações que levaram o evangelista Lucas a compor um relato com tal maestria.

Nossa intenção neste artigo é apresentar algumas questões pertinentes que se colocam à leitura do relato enquanto parte integrante da obra lucana. Para tanto, apresentaremos um esboço do processo de maturação da cristologia na Igreja primitiva, como pressuposto para se entender a inserção dos relatos da infância nos evangelhos. Depois veremos em grandes linhas como a pesquisa bíblica mudou de perspectiva na abordagem da Narrativa da Infância segundo Lucas, deslocando seu interesse sobre a natureza desse relato para sua compreensão no interior do Evangelho lucano.

O desenvolvimento da cristologia[iv]

Muitos estudiosos perguntaram-se porque Lucas começa seu evangelho com o relato da infância, uma vez que na pregação primitiva o nascimento de Jesus não era considerado na mesma perspectiva que a morte e a ressurreição (BROWN, 1982, p. 22). O anúncio era centrado no tema da morte e ressurreição de Jesus Cristo[v]. Ao querigma foram acrescentados, posteriormente, os fatos e as palavras recolhidos nas tradições sobre o ministério de Jesus, resultando, assim, nos evangelhos escritos.

O evangelho segundo Marcos, o primeiro a ser escrito, apresenta como “começo do evangelho de Jesus Cristo” (1,1) a narrativa do encontro de Jesus com João Batista no Jordão, e termina com a proclamação da ressurreição na tumba vazia (16,1-8). Os evangelhos segundo Mateus e Lucas trazem uma reflexão mais elaborada da cristologia. Estes acrescentaram ao material que colheram de suas fontes não só os ditos primitivos, mas os relatos da infância de Jesus. E, por último, o evangelho de João aprofunda ainda mais a cristologia ao fazer uma retrospectiva desde a preexistência de Jesus (Ibid., p. 20-21).

Trata-se de uma reflexão mais elaborada que corresponde a uma fase ulterior do processo de compreensão da fé Cristológica. A adição dos relatos da infância de Mateus e de Lucas se explica melhor à luz desse desenvolvimento da cristologia (Ibid., p. 26). A retrospectiva da vida de Jesus desde sua infância, realizada pela comunidade cristã, deve-se a necessidade de clareza quanto à identidade do salvador. Não há um interesse de narrar fatos históricos sobre a infância de Jesus em Nazaré.

Veremos, na próxima postagem, qual o valor dado à Narrativa da Infância na pesquisa bíblica moderna e a importante mudança de perspectiva em relação a sua historicidade.

 

Referências

BROWN, Raymond E. El nacimiento del Mesías: comentario a los relatos de la infancia. Madrid: Cristiandad, 1982.

RODRIGUES, Márcia E. O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52. 2008. 121 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) – Faculdade Jesuíta de filosofia e Teologia, Belo Horizonte, 2008.

SPINETOLI, Ortensio. Introduzione ai vangeli dell’infanzia. Brescia: Paidéia, 1967.



[i] O artigo é uma síntese do primeiro capítulo (A infância de Jesus em questão, p. 12-31) da Dissertação de Mestrado “O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52”, defendida junto à Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE / 2008 e orientada pelo prof. Dr. Johan Konings, com o apoio da CAPES – PROEX. A dissertação está disponível em: <https://www.faculdadejesuita.edu.br/dissertacoes-teologia-437/-o-cristo-pos-pascal-na-narrativa-da-infancia-um-estudo-de-lc-2-41-52--04092017-224410>. Foi apresentado em conferência no II Colóquio de Literatura, História e Ciências da Religião, Fortaleza-Ce, outubro de 2013.

[ii] Embora muitos estudiosos usem a expressão “Evangelho da Infância”, fizemos a opção por empregar a denominação “Narrativa da Infância” ou “Relato da Infância” por razão de clareza, com o objetivo de afirmar que esse trecho é parte integrante do Evangelho de Lucas.

[iii] “O que atinge subitamente o leitor de Lc 1–2 é o tom familiar (“Havia no tempo do rei Herodes”), a ausência, ou quase, de contornos histórico-topográficos, o maravilhoso que aparece com frequência insólita no resto do evangelho, a simetria impecável das partes singulares ou cenas, a sincronização dos vários elementos que as compõem (contos, diálogos, hinos), as citações e a abundância de semitismos, as imitações escriturísticas, a diferença com o texto ‘paralelo’ de Mateus 1–2 etc.” [tradução nossa].

[iv] O desenvolvimento da cristologia que apresentamos refere-se somente ao período da formação das Escrituras neotestamentárias. Toda a reflexão cristológica posterior procurou explicitar em novos contextos e categorias o que já fora compreendido e elaborado nos escritos do Novo Testamento.

[v] No livro dos Atos dos Apóstolos aparecem fórmulas do querigma primitivo: At 2,23.32; 3,14-15; 4,10; 10, 39- 40; e também em 1Cor 15,3-4.



Ir. Márcia Eloi Rodrigues é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Atualmente leciona Sagrada Escritura no Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina-MG.



terça-feira, 2 de junho de 2015

Corpo e Sangue da nova aliança

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

Roteiro Homilético para a Solenidade de Corpus Christi


I. INTRODUÇÃO GERAL

Deus fez aliança com Israel ao libertá-lo do Egito. Esse pacto foi instituído por meio de um rito. Primeiramente, o sangue do cordeiro pascal foi derramado em substituição à vida dos primogênitos dos hebreus. Depois o rito continuou na celebração de uma refeição, a ceia pascal, memorial da libertação, celebrada a cada ano pelos filhos de Israel para atualizar aquele evento fundador e paradigmático da religião bíblico-judaica.

No Novo Testamento, Jesus faz sua última refeição juntamente com os discípulos dele. Tal refeição não é apenas o coroamento da atividade missionária de Jesus, mas o coroamento de todas as refeições que ele havia feito com os pecadores ao longo de sua vida terrestre. Conforme os evangelhos sinóticos, nos momentos finais da vida de Jesus, os comensais celebram uma ceia pascal. E nessa ceia Jesus substitui o cordeiro pascal e também se identifica com o pão ázimo e com o vinho abençoado. Jesus transforma radicalmente o significado dos elementos da ceia pascal, pois é nele que se dá a libertação definitiva e plena do ser humano. Portanto, é instaurada uma nova aliança firmada na libertação integral da humanidade. Na ceia eucarística, atualiza-se a libertação escatológica realizada por Jesus ao longo de sua vida que culminou na morte de cruz, celebrada antecipadamente nos gestos da última ceia.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mc 14,12-16.22-26): Tomai e comei, isto é meu Corpo

No Oriente antigo, o sangue simbolizava a totalidade da vida de um ser, animal ou humano. Por isso, quando o sangue de um animal era ofertado a Deus, na verdade o que se ofertava era a vida da pessoa que fazia a oferenda.

O termo sacrifício significa “tornar sagrado”; portanto, quando o sacerdote colocava o sangue do animal sobre o altar, a vida da pessoa ofertante é que se tornava sagrada, ou seja, consagrada a Deus. A ideia de sacrifício não tinha a atual conotação de “realização de algo difícil ou penoso”, mas de santificação ou sacralização da vida.

Antes de derramar o sangue na cruz, Jesus fez de sua vida uma oferta a Deus e à humanidade. Por isso ele antecipa, no gesto profético da última ceia, o que se dará no momento culminante do dom de si mesmo, a morte na cruz. É por causa de uma vida inteira ofertada, a Deus e ao outro, que a morte de Jesus, cume dessa oferta, pode ser chamada de sacrifício. A vida inteira de Jesus é sacrifício, é uma vida consagrada, santificada. Jesus oferta a própria vida como nosso representante.

Sua obediência e fé integral nos substitui, já que não conseguimos ser obedientes e fiéis da mesma forma. Sua vida humana sem pecado nos liberta do pecado, sua ressurreição nos liberta da morte. Em tudo isso Jesus nos representa e nos substitui. Cessam daqui por diante os antigos sacrifícios de animais. O sangue, a vida ofertada da nova aliança é o que vigora doravante.

Também era comum na cultura antiga a concepção de que beber o sangue significava assumir a vida presente nele. Os povos vizinhos a Israel, na Antiguidade, costumavam beber sangue de animais porque acreditavam com isso assimilar as características do animal, como força, coragem, valentia. Por isso, o Antigo Testamento proíbe beber o sangue de animais. As palavras do Senhor: “Isto é meu corpo… isto é meu sangue”, “tomai e comei… tomai e bebei”, deveriam nos recordar de que nos compete assimilar em nossa vida as características da vida de Jesus.

Dessa forma, no Corpo e Sangue de Cristo vive e cresce a Igreja, com os fiéis continuamente se alimentando de amor, de fidelidade, de doação ao outro, de perdão e de todos os aspectos da vida de Jesus.

O Corpo e Sangue de Cristo são centro e sustentáculo da vida cristã. Por isso, quem deles se alimenta há que aceitar participar da doação de vida realizada por Cristo, em adesão à vontade do Pai e em doação ao próximo. Assim, por meio da eucaristia, os fiéis vivem o mistério da vida, morte e ressurreição de Cristo, celebrando agora a comunhão sem fim na glória eterna.

2. I leitura (Ex 24,3-8): Este é o sangue da aliança que o Senhor fez convosco

A primeira leitura descreve com detalhes o rito da aliança entre Deus e Israel. Moisés reuniu o povo, construiu um altar, mandou oferecer novilhos em holocausto e derramou metade do sangue deles sobre o altar e com a outra metade aspergiu o povo.

O termo hebraico para aliança, “berith”, significa também pacto e casamento (pacto de amor). Um pacto ou contrato, mesmo o casamento, implica a observância de certas exigências. Nesse texto que acabamos de ler, a exigência é o cumprimento das palavras proclamadas na presença do povo, a saber, aquelas concernentes ao decálogo. De sua parte, Deus se comprometeu a cumprir suas promessas, cuidando de Israel como um pai cuida do filho, suprindo-lhe as necessidades básicas e defendendo-o de todos os perigos.

O pacto bilateral da aliança no Antigo Testamento era estipulado mediante o sangue dos animais ali oferecidos em holocausto. O laço espiritual que unia o povo de Israel ao Deus da aliança era indicado pelo sangue aspergido sobre o povo.

3. II leitura (Hb 9,11-15): Cristo ofereceu a si mesmo como oferta sem mácula

A antiga aliança prefigurava a nova, ratificada em Cristo não “por meio do sangue de cabritos e de touros, mas no seu próprio sangue” (v. 12). Os sacrifícios realizados na antiga aliança, apesar da profundidade de seu simbolismo, eram inadequados para purificar a consciência e trazer a salvação.

Na nova aliança há um só sacrifício, “oferecido uma vez por todas” (v. 12) por ter valor intrínseco, infinito. Nele não há animais sendo sacrificados nem sacerdotes fazendo rituais. Oferta e ofertante se identificam no Filho de Deus humanado, o sumo sacerdote, “o qual se ofereceu sem mancha a Deus”. Essa oferta eficaz tem o poder de purificar a consciência do ser humano “a fim de servirmos ao Deus vivo” (v. 14). Já não se trata de purificação exterior, e sim interior, que transforma o íntimo da pessoa, lavando-a dos pecados para que viva em conformidade com a graça.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Durante muitos séculos, foi esquecido da eucaristia o aspecto de comensalidade e refeição e superenfatizado o aspecto sacrifical do derramamento de sangue na cruz para o perdão dos pecados. Jesus foi transformado em animal de sacrifício. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo deve chamar a atenção para o Pão e o Vinho, para a dimensão da refeição familiar onde todos estamos participando da mesma mesa.

Na reflexão deste dia, sejamos cuidadosos com as palavras, para que as pessoas da assembleia não tirem conclusões equivocadas. Jesus não é animal de sacrifício; a expressão bíblica que diz que ele é o “cordeiro de Deus” somente pode ser entendida à luz do significado do cordeiro pascal. É errado supor que Deus Pai, em vez da morte de um cordeiro na Páscoa, preferiu a morte do próprio Filho. A carta aos Hebreus afirma que o sangue de animais não tira o pecado. Deus nunca precisou disso. Mas o sangue do cordeiro pascal substituía a vida do ofertante. Na realidade, o que se dava a Deus não era o sangue, mas a vida da pessoa (da família) que realizava o rito, e entregar a vida a Deus é ter a vida renovada, liberta, sem pecado. O sacrifício do cordeiro era um símbolo dentro de um rito.

Não há necessidade de que o Filho de Deus tenha o próprio sangue derramado como condição para que Deus nos perdoe os pecados, Deus Pai não é sanguinário. Jesus é aquele que se dedica à humanidade e ao bem comum e dá início ao Reino de Deus a partir da vida dele. A vida inteira de Jesus foi de doação ao próximo, sem excluir ninguém. A vida terrestre de Jesus de Nazaré foi uma oferta total ao Pai e à humanidade. O sangue de Cristo é a vida de Cristo, o corpo de Cristo é a vida de Cristo. Nessas espécies está figurada a vida inteira de Cristo, incluindo sua morte e ressurreição. Tal vida foi uma oferta, e por isso Cristo é a humanidade ofertada a Deus, libertada integralmente do egoísmo, do pecado e da morte. Por isso Cristo nos representa, sua vida substitui a nossa. É isso que celebramos na ceia eucarística.


Nesse sentido, comungar da eucaristia é assumir a vida de Cristo na própria vida, é acolher a todos, não ter preconceitos, desamor, rancor, não praticar qualquer exclusão.

Publicado originalmente em: http://vidapastoral.com.br/roteiros/4-de-junho-corpus-christi/

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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Anunciai a boa-nova a toda criatura

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj* 

Roteiro Homilético para a Ascensão do Senhor



I. INTRODUÇÃO GERAL

Hoje a Igreja celebra a solenidade da Ascensão do Senhor. Estritamente falando, não é uma nova festa, mas a plenificação da Páscoa. Estar sentado à direita do Pai não é tanto um triunfo ou um prêmio que Jesus recebe por bom comportamento e por ter realizado a tarefa que lhe foi proposta. O triunfo de Cristo é o ponto aonde deve chegar cada ser humano na plenitude de suas potencialidades. Celebramos a elevação do ser humano antecipada na ascensão de Cristo.

Ressuscitou, subiu ao céu, está sentado à direita do Pai são termos e expressões cujos significados denotam que a missão terrena de Jesus culminou. Tudo o que ele veio realizar foi feito. Agora a comunidade de seus seguidores deve continuar a missão de edificar o Reino de Deus neste mundo. Por isso, as leituras de hoje nos oferecem uma síntese da missão dos cristãos, fundada em três afirmações inseparáveis: 1) ressurreição: Jesus venceu o pecado e a morte; 2) ascensão: Jesus está junto do Pai, exercendo autoridade sobre a criação e a história; 3) esperança: Jesus voltará (parusia) inesperadamente para plenificar todas as coisas.

A missão dos cristãos situa-se entre a ascensão e a parusia, anunciando e edificando o Reino de Deus até que Cristo venha.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mc 16,15-20): Ide pelo mundo inteiro

O evangelho de hoje enfatiza o mandato missionário recebido por todo cristão. Primeiramente, oferece um resumo das experiências que os discípulos tiveram com o Ressuscitado, seguido do mandato missionário no qual são elencados os elementos ou sinais principais da missão dos cristãos: expulsar demônios, falar todas as línguas, ser imune a qualquer veneno e curar os enfermos. Percebemos aqui que a missão dos cristãos possui os mesmos elementos ou sinais da missão de Jesus. Aparentemente, é uma missão impossível. É necessário compreender cada um desses elementos. Antes de tudo, trata-se de sinais e não de demonstrações (muito menos midiáticas), os quais têm por objetivo indicar que os missionários entraram em um campo novo de ação e para isso receberam uma autoridade originada no Pai, ao lado do qual está Jesus. Significa que é uma ação dos cristãos, mas não unicamente deles: é uma ação de Deus regenerando este mundo por intermédio da obra evangelizadora dos cristãos.

Expulsar os demônios em nome de Jesus significa, primeiramente, continuar a sua luta contra o mal, como foi enfatizado ao longo do Evangelho de Marcos. Não é tanto fazer exorcismos, mas instaurar um reino de justiça, fraternidade e paz em oposição ao mal, ao pecado e ao egoísmo. É continuar a luta de Jesus em cada circunstância da vida, enfatizando o poder do bem contra o mal, e não o contrário. Uma forma de exorcismo que cada um pode fazer é evitar desanimar por causa do aumento da violência e prestar mais atenção nas ações das pessoas de bem que fazem grandes mudanças na sociedade.

Falar novas línguas, no contexto narrativo dessa leitura, não significa a oração em línguas, pois se trata não de falar com Deus – não é um texto sobre oração –, mas do mandato missionário de falar às pessoas do mundo inteiro. Significa que os cristãos farão um esforço para não impor uma cultura ou modo de pensar, mas anunciarão o evangelho, a boa notícia de Jesus, levando em conta os destinatários, seu contexto histórico-social e cultural.

Serpentes e venenos que não causam nenhum mal não significam que o cristão é blindado para que nada de ruim lhe aconteça, como quer nos iludir a ideologia da prosperidade. Ao contrário, os cristãos estão sempre à mercê de muitos sofrimentos e perseguições, como aconteceu com Jesus e como vemos na vida dos santos. Bem entendidas, essas palavras de Jesus, em linguagem apocalíptica de luta contra o mal, significam que os verdadeiros cristãos estão imunes às serpentes e venenos do egoísmo que matam pela exclusão social, pelo preconceito e falta de aceitação do outro, pela calúnia, corrupção e desonestidade. É desse veneno maligno que os verdadeiros cristãos estão imunes e por ele jamais serão destruídos.

Imporão as mãos sobre os enfermos e eles ficarão curados. Essa expressão nos situa de novo no centro da atividade de Jesus – por onde ele andava, curava os enfermos. Os cristãos são, antes de tudo, crentes, isto é, pessoas unidas de tal forma a Jesus, que compartilham do seu poder de curar. Longe de pensar que isso se refere aos santos ou a uns poucos privilegiados, a cura das enfermidades é um sinal que acompanha todo aquele que crê. Não se trata tanto de um dom carismático, mas da cura dos corações marcados pelo egoísmo e pelas feridas do desamor. Todos nós podemos escolher entre ferir ou curar. E podemos pôr em prática essa palavra de Jesus por meio de nossas palavras e ações no compromisso com o outro.

Resumindo: num mundo perigoso (venenos e enfermidades), os cristãos deverão ser capazes de expandir a Palavra em toda língua, superando o poder do mal e ajudando os outros a viver (curas). Desse modo, o anúncio do evangelho se converterá em ação transformadora, sinal de que o mal cede lugar ao Reino que estará se expandindo na terra.

2. I leitura (At 1,1-11): Sereis minhas testemunhas até os confins do mundo

Por que ficais parados olhando para o céu? O que o Cristo tinha de fazer aqui entre nós ele já fez. A partir de agora, cabe a nós desenvolver a nossa vida particular e coletiva, assimilando e vivendo os ensinamentos que Jesus nos transmitiu. A fé cristã implica responsabilidade. Cristo nos legou a boa-nova do Reino, agora cabe a cada um de nós, pessoalmente e em comunidade, responder a ele com nosso modo de viver. Não estamos abandonados, há uma promessa: o poder do Espírito que nos capacita a testemunhar até os confins do mundo.

A chamada de atenção feita pelos “homens vestidos de branco” significa que o verdadeiro seguimento de Jesus não envolve ficar parado olhando para o céu, esperando que Cristo faça a evangelização do mundo. A parte dele já foi feita, agora nos compete levar ao mundo inteiro, a toda criatura, a sua mensagem. Tornar o Reino de Deus algo real no nosso mundo.

O envio messiânico universal é a ata de fundação da Igreja. Jesus envia seus discípulos a todo o mundo conforme um programa, um esquema de universalidade que aparece em vários textos do terceiro evangelho e dos Atos dos Apóstolos: partindo de Jerusalém, passando pela Judeia e Samaria e chegando a todo o mundo, a todo cosmo, no idioma grego. Significa que a evangelização é um processo, um desenvolvimento que somente chegará ao seu término quando todos tiverem recebido a mensagem de Jesus.

A missão cristã se estende desde o princípio a todo o mundo, a todos os povos e culturas. Trata-se de um contexto universal; desaparecem as distinções entre os povos, já não há um povo único de Deus, mas todos os povos pertencem a Deus e com ele estabelecem aliança. A missão é para a humanidade, para o cosmo aberto à palavra dos missionários.

3. II leitura (Ef 1,17-23): Somos continuadores da missão do Cristo

A segunda leitura afirma que a Igreja é o Corpo de Cristo. O que isso significa? Jesus foi elevado ao âmbito do Pai e recebeu autoridade sobre todas as coisas. Os discípulos saíram pelo mundo proclamando o evangelho com a cooperação do Senhor, que confirmava a palavra com sinais. A ascensão e a ausência física de Cristo tornam possível novo tipo de presença na comunidade de seus discípulos: somente quando Cristo “se vai” é que a Igreja começa a sentir a força dele atuando por meio dela. A comunidade dos discípulos, quer dizer, a Igreja é a presentificação do Cristo ressuscitado. Cristo se corporifica no mundo mediante seus discípulos, ou seja, o modo pelo qual se pode ver Cristo evangelizando o mundo são os evangelizadores. A Igreja o torna visível para o mundo.

Da mesma forma que não há corpo vivo sem cabeça, assim também não há Igreja sem a ação de Cristo ressuscitado agindo no mundo por meio dela. Portanto, podemos dizer que Jesus está no céu à direita do Pai, mas, ao mesmo tempo, está presente, coatuando por meio dos fiéis.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Na “oração para depois da comunhão”, o presidente da celebração diz: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis conviver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade”. Essa oração expressa muito bem o sentido profundo da Ascensão do Senhor. Nós somos introduzidos no seio da Trindade. Jesus, o homem verdadeiro, está junto do Pai. Com ele nossa humanidade já está lá. A Ascensão do Senhor é a celebração da plenificação de nossa humanidade junto de Deus. Já convivemos aqui na terra com esse grande mistério.

Que a comunidade não desvirtue a celebração desse grande mistério com uma devoção mariana. Atribuir o mês de maio a Maria não deve implicar a sobreposição de uma devoção à grandeza do mistério que celebramos hoje. Portanto, os cânticos não devem ser marianos, muito menos a homilia. O foco dessa celebração é Cristo, que leva nossa humanidade para o seio da Trindade. Mesmo em uma paróquia consagrada a Maria e mesmo que se esteja em pleno festejo, a ênfase deve ser dada à ascensão de Cristo e à nossa ascensão com ele para junto do Pai.


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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).