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sábado, 15 de outubro de 2022

O livro de Ester e o risco da anacronia* bíblica

 


O início do livro de Ester nos leva a pensar o quão prejudicial é, para quem vive no século XXI, fazer uma leitura superficial ou fundamentalista da Bíblia e trazer para o tempo atual, tão diferente daquele do Antigo Testamento, vivências e preconceitos que são próprios daquela sociedade.

Informa o texto que o rei Assuero ofereceu um banquete para todos os príncipes e seus servidores, bem como para os nobres e prefeitos de províncias, durante 180 dias. E, como era bondoso, ou para causar essa impressão no povo, ofereceu também um banquete de 7 dias para a plebe. A intenção era somente uma, no dizer de hoje, ostentar as riquezas de seu reino.

Pois bem, no texto bíblico, a rainha Vasti também quis ter o mesmo privilégio e organizou um banquete somente para mulheres, mas como a vida da mulher sempre foi difícil, principalmente nos tempos antigos, o rei a chamou para exibir sua beleza diante de todos, como se fosse um troféu. É importante mencionar que a narrativa informa que essa ordem se deu no sétimo dia de banquete, quando "o rei estava mais alegre por causa do vinho" (Est 1,9). A recusa da mulher provocou a ira do rei, que convocou os sábios para orientá-lo sobre como proceder em relação a ela.

O sábio Manucá, por sua vez, respondeu, dizendo: “‘A rainha Vasti ofendeu não só ao rei, mas a todos os príncipes e povos que vivem em todas as províncias do rei Assuero. Pois a sua atitude chegará a todas as mulheres, fazendo que elas desrespeitem seus maridos’, justificando-se assim: o rei Assuero mandou que a rainha Vasti se apresentasse a ele e ela recusou-se’” (Est 1,16b-17). Manucá concluiu que todas as esposas dos príncipes persas e medos fariam da mesma forma que Vasti e ainda instruiu o rei a promulgar um decreto para que Vasti nunca mais se aproximasse dele e que ele pudesse escolher outra mulher “melhor do que ela” (1,19). O final da então “ex-rainha” não sabemos ao certo, pois não há essa informação no livro bíblico, mas é possível deduzir pela leitura que não foi nem um pouco agradável.

O texto segue dizendo que a proposta agradou o rei, que enviou cartas a todas as províncias “recordando que os maridos são os príncipes e chefes em suas casas e que devem manter submissas as suas mulheres” (1,22). Depois disto, há o longo e rigoroso processo do rei para escolha da nova rainha.

A leitura desse trecho inicial chama muito mais a atenção do que o fato de Ester, uma mulher hebreia, ter sido escolhida rainha e ter libertado o seu povo em um momento de grande perseguição.

O que vemos no início do texto é um claro exemplo de uma sociedade que se apoia somente em homens, na qual as mulheres não têm voz, não podem desfrutar de algo natural para eles. O rei deu um banquete de 180 dias para os ricos e 7 dias para os pobres e a rainha não pôde reunir algumas mulheres para também celebrar, pois este a chamou somente para ostentar para todos a beleza que ele havia conquistado. Ele queria apenas exibi-la como um objeto de posse e ela foi punida por somente dizer “não” a essa atitude.

Nos tempos atuais, encontramos pessoas que sentem como que uma necessidade de ostentar e postar, compartilhar e viralizar na internet todas as suas riquezas, seja para que outras pessoas se curvem a elas, seja almejando um respeito maior, ou ainda apenas para se sentirem superiores.

No texto sagrado, vemos a figura do rei nessa posição. Vendo que era uma desonra muito grande, ele procura um sábio que o instrui a promulgar uma lei que aumenta ainda mais a superioridade de todos os homens sobre todas as mulheres por supor que todas as outras fariam o mesmo aos seus maridos.

Com a nossa mentalidade do século XXI, diríamos que se todas as mulheres do reino fizessem o mesmo que Vasti, estariam no seu direito, pois homens e mulheres foram criados por Deus para se complementar e se ajudar, não para a superioridade de um sobre o outro. Porém, essa não é a visão do Antigo Testamento. E esse é um grande erro que se comete ao tentar utilizar o texto sagrado para explicar e justificar nossos preconceitos. Sabemos que, ao longo dos livros, vemos leis e decretos que subjugam a imagem da mulher e que foi uma grande novidade para o povo o modo como Jesus se tratou as mulheres e com elas se relacionou. Ele se aproximou de várias, tornando-as suas amigas e discípulas; conforme a tradição, sua mãe, Maria, foi uma das que esteve presente na gêneses da igreja primitiva junto com os apóstolos.

Hoje, as mulheres não são e não devem aceitar serem tratadas como artigos de exibição, objetos e caprichos para agradar os homens. Mas essa conquista não veio apenas com o passar dos tempos, ela surgiu por meio de muito suor e luta ao longo de muitos anos.

O rei sentiu-se ofendido apenas pelo fato de a rainha não ter concordado em se exibir na frente de todos para mostrar a soberania dele e, diz o texto sagrado, que foi aconselhado a encontrar uma mulher melhor, como se a mulher fosse apenas um objeto. Ele não objetificou apenas a rainha, mas a muitas outras mulheres que "foram preparadas" para estar em sua presença, inclusive Ester, a quem ele concedeu o título de rainha. Esta mesma, em determinada passagem, informou a seu tio Mardoqueu que fazia 30 dias que não era chamada à presença do rei, visto que havia uma lei que determinava a morte imediata de quem se aproximasse dele sem ter sido chamado, a menos que ele estendesse o seu cetro de ouro “salvando” essa pessoa. Ou seja, seu interesse era tão somente mostrar, ostentar a sua força. Depois de uma longa seleção entre moças virgens e formosas, como diz o texto, a campeã, Ester, nem podia desfrutar de seu privilégio aproximando-se do rei sem temer a morte.

Ao longo da história, sabemos que esse medo foi disseminado para que todas as mulheres temessem seus maridos, pais e até irmãos. Por mais que não saibamos ao certo como se deu toda a construção da narrativa do livro de Ester, podemos tomar Vasti e as outras mulheres não mencionadas como exemplo de toda a opressão imposta sobre as mulheres ao longo dos séculos.

Ester surge nesse contexto, para além daquela que vai salvar o povo judeu da morte, ela também é uma das que ousam desafiar a soberania masculina na história do Antigo Testamento, com sua inteligência e perspicácia, pois conseguiu que o rei não somente mudasse seus planos em prol de seu povo, como também mudasse, de alguma forma, a maneira como ele olhava para as mulheres, pois Vasti sofreu duras penas por ter recusado uma ordem sua, mas Ester ouviu do mesmo rei: “ainda que pedisses a metade do reino, ela te seria concedida” (Est 5,3).

Que nesse século XXI, saibamos olhar o texto sagrado com o olhar de quem tira dele o essencial para nossas vidas, sabendo que cada texto pertence ao seu tempo, para que não caiamos no “pecado do anacronismo”, que castiga tantas pessoas ainda hoje. 

 

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* Anacronismo: erro de cronologia que consiste em situar, em uma época, personalidades, acontecimentos, ideias e sentimentos ou estilos próprios de outra. Dicionário Michaelis. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/anacronismo/ Acesso em 15/10/2022.

 

Por Rosilene Souza, graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará e membro do grupo Mulheres da Palavra - formado por leigas do Instituto Religioso Nova Jerusalém.


domingo, 22 de janeiro de 2012

O que o menino Jesus estava fazendo no Templo de Jerusalém?




A pergunta de Jesus, no final do texto de Lc 2,41-50, “não sabeis que devo ocupar-me com o que é de meu Pai?”, foi compreendida ao longo da história da hermenêutica como sendo o fator determinante para a compreensão integral dessa passagem bíblica. Nesse sentido, parecia óbvio que Jesus, desde a infância, quis mostrar aos doutores (rabinos, disdáskaloi) a origem divina dele, através de uma sabedoria extraordinária, muito além das potencialidades humanas. “Todos os que o ouviam extasiavam-se com a perspicácia de suas respostas” (v. 47), uma situação ímpar, visto que jamais Jesus será novamente acolhido com tanta simpatia pelos doutores de Jerusalém. Tudo dava a entender que Jesus tinha ido a Jerusalém para demonstrar a origem divina dele antes que começassem os conflitos, com os sábios judeus, durante o ministério de proclamação do Reino de Deus exercido por ele no curto período de vida pública. Sendo assim, a pergunta que usamos como título dessa postagem pareceria um absurdo.

Com o advento da exegese histórico-crítica (século XVII d.C) essas interpretações já não pareciam tão óbvias. A pergunta inicial dos exegetas era sobre o que Lucas estaria querendo afirmar com esse relato, já que esse evangelista não era judeu e seus destinatários imediatos eram cristãos vindo do ambiente gentílico. Uma nova compreensão do texto estava nascendo e o v. 50, “eles não compreenderam as palavras que ele lhes dissera”, parecia dar o tom para a interpretação da narrativa. Quem não compreendeu? Trata-se apenas dos pais de Jesus ou dos leitores do evangelho de Lucas? Durante algum tempo a maioria dos estudiosos esteve de acordo que o relato de Lc 2,41-50 pertencia ao gênero literário “relatos da infância de um herói” e tinha por objetivo preencher uma lacuna na história de Jesus enquanto sublinhava sua santidade e o exaltava perante os sábios judeus, seus oponentes posteriormente. A sabedoria da criança, futuro herói da narrativa, era um dos elementos principais encontrados na maior parte da literatura oriental (Bultmann).

O estudioso Robert Aron, em 1962, foi o primeiro a intuir que o relato lucano poderia estar se referindo a um bar-mitswah (literalmente: filho do mandamento), ou seja, Jesus estaria participando do ritual judaico no qual o adolescente assume publicamente suas responsabilidades religiosas e demonstra ter o conhecimento da Torah (Lei de Moisés) suficiente para isto. Após o ritual é declarada a maioridade do menino perante a religião. Nesse caso, Jesus estaria se submetendo à Torah, igual a todo bom judeu, e não provando a divindade dele. A admiração dos doutores a respeito do diálogo que travaram não seria uma suspeita de que Jesus era divino, mas a constatação de que ele era uma criança bem instruída, com capacidade para bem interpretar as Escrituras. Nesse caso, Jesus não fez mais que sua obrigação de menino judeu ao discutir com os doutores, demonstrando-lhes sabedoria.

A intuição de Robert Aron provocou um alvoroço, pois ela parecia muito lógica, mas era necessário embasar-se em algum texto rabínico para apoiar essa teoria ou ela cairia no descrédito e não passaria de mera intuição. Aron não demonstrou em que se apoiava, mas igual ao “aprendiz de feiticeiro” havia mexido numa alavanca que tirou a exegese dos textos lucanos da órbita na qual estava até então. Agora os exegetas se dividiam, uns a favor e outros contra o bar-mitswah de Jesus. Os que estavam a favor destacavam os elementos do texto como a peregrinação anual a Jerusalém (2,41), a caravana (2,44), o lugar de ensinamento no Templo (2,46), a possibilidade de discussão entre uma criança e os doutores (2,46-47). Todos esses elementos estavam conforme os costumes no tempo de Jesus, por isso era possível tratar-se de um bar-mitswah. Os que estavam contra a teoria de Robert Aron enfatizavam que nos textos antigos do judaísmo não há uma descrição dessa cerimônia e por isso ela deve ser uma prática recente. O Talmud da Babilônia (compilação da doutrina tradicional do Judaísmo) é o primeiro a trazer a expressão bar-mitswah, contudo não está se referindo a nenhuma cerimônia, mas apenas designando o judeu adulto como sendo um “filho do mandamento”, ou seja, aquele que cumpre a Torah (BM 96a, apud MANSS). Além disso, os textos judaicos que descrevem a cerimônia estabelecem a idade de 13 anos para sua realização, argumentam os oponentes de Robert Aron.

Frédéric Manns, renomado estudioso do Novo Testamento no contexto das raízes judaicas e catedrático de literatura rabínica, tomou a si o encargo de esclarecer alguns pontos dessa polêmica. Primeiramente, considerou no relato lucano os elementos que estavam em conformidade com os costumes do tempo de Jesus, os quais foram destacados pelos estudiosos pró bar-mitswah de Jesus. Mas mostrou que é necessário também procurar ver se a teoria de Robert Aron encontra sua fundamentação nos textos da literatura judaica. Isso pode ser possível porque textos rabínicos posteriores ao Novo Testamento geralmente são testemunhas de tradições mais antigas, isto significa que há uma possibilidade de existência da cerimônia de bar-mitswah no tempo de Jesus e que ele pode ter realizado esse rito. Além disso, havia uma hesitação entre os rabinos sobre a fixação da idade, entre doze ou treze anos, para a maturidade religiosa. É provável que a idade tenha variado segundo as regiões geográficas e/ou conforme a maturidade pessoal dos indivíduos. Na Mishná (compilação rabínica de leis orais fruto de interpretações da Torah), no tratado Niddah 5,6 está escrito que “a partir de doze anos e um dia os votos de um jovem são válidos” (apud Manns). O Talmud da Babilônia afirma: “um pai deve ter paciência na formação de seu filho até que este atinja a idade de doze anos, após isto ele deve empregar métodos fortes” (Kethuboth 50a, apud Manns), ou seja, com doze anos a criança passa da fase de aprendizagem para a de obrigatoriedade no cumprimento da Torah.

Por fim, Manns assegura que ambos os grupos de exegetas, os prós e os contra o bar-mitswah de Jesus, não consideraram um aspecto muito importante o qual ele pretende pesquisar e se tornará uma grande contribuição desse estudioso para o debate a respeito desse tema. Os elementos da narrativa lucana como a menção ao terceiro dia, subir e descer, buscar e encontrar, décimo segundo ano e tomar a Deus por Pai, são colocados, em diversas literaturas rabínicas elencadas por Manns, em relação com o dom da Torah a Moisés e com a obrigatoriedade assumida por cada judeu de cumprir os seus preceitos. Ocupar-se com o que é do Pai (v. 49) é uma expressão corriqueira na literatura rabínica e significa fazer a vontade de Deus cumprindo os mandamentos.

“Se é verdade que o tema do terceiro dia, ao qual estão vinculados os do descender-ascender e os do procurar-encontrar, o de doze anos e o de ocupar-se com as coisas do Pai, têm um vínculo com o dom da Lei, não está excluído que eles indiquem igualmente que, na cena do Encontro, Jesus veio realizar a Lei de Moisés que prescrevia a todo judeu, de tomar sobre si a Lei e de vir a ser um filho da Lei” (Manns, p. 349).

Depois de percorrer vários textos da literatura rabínica, Manns não é taxativo, ele apenas conclui que o relato lucano pode ser um testemunho do bar-mitswah de Jesus. Também admite a existência de muitos outros aspectos na narrativa a serem considerados dentro do plano teológico-literário do evangelista. Talvez possamos acrescentar também que Lucas, escrevendo para cristãos vindo do ambiente gentílico, deseja apresentar um Jesus bem humano, dentro de uma cultura e tradição religiosa e, com isso, evitar que seus destinatários pensassem se tratar de mais um mito ou lenda sobre um semideus à maneira greco-romana. Também a comunidade para a qual Lucas escreve não estava compreendendo quem era Jesus. E o que dizer dos cristãos de hoje? Ah, isto é outra história que requer outra postagem…

 

REFERÊNCIAS:

MANNS, Frédéric. “Luc 2,41-50 temoin de la bar mitswa de Jesus”. Marianum, Roma, v. 40, n. 121-122, p. 344-349, 1978.

ARON, Robert. Lês années obscures de Jésus. Paris: Bernard Grasset,1962.

BULTMANN, Rudolf. The History of the Synoptic Tradition, Oxford: Blackwell, 1963.

 

Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

domingo, 29 de maio de 2011

O HERDEIRO E A VINHA - REFLEXÕES À LUZ DE NA 4 (final)

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

Agora, nos propomos a estudar a maneira como Mateus utilizou as fontes veterotestamentária para inserir a parábola dos Vinhateiros dentro de seu projeto teológico e, mais especificamente, dentro do tema da rejeição/aceitação presente no bloco literário (Mt 21,23–22,14). Para tanto, faremos uma abordagem semântica de alguns termos:

- VINHA [11]
Tanto Is 5,2, quanto Mc 12,1 e Mt 21,33 atestam os cuidados que o Amado (Mc diz que é um homem, Mt afirma que é um homem chefe de casa) teve com a vinha: preparou a terra (Is); protegeu-a contra animais selvagens cercando-a com uma sebe (Mc e Mt); evitou que as uvas se estragassem, cavando um lagar (Is, Mc e Mt); e deu-lhe proteção permanente com vigias, construindo uma torre (Is, Mc e Mt). Esses cuidados fizeram dela uma “vinha preciosa” (Jr 2,21). Contudo a vinha não correspondeu às expectativas de seu proprietário. Para Isaias, a vinha é Israel e Judá (Is 5,7). Que expectativas não foram correspondidas? O exercício da justiça e do direito (Is) e a acolhida dos enviados (Mc, Mt e Lc).

No texto de Is 5,1-7, o profeta afirma que o Amado (v. 1b-2), identificado com o Senhor dos Exércitos (5,7), convoca os moradores de Jerusalém para julgar a sua vinha (5,3) [12]. O proprietário faz duas perguntas: a primeira, sobre suas atividades e a segunda, sobre a produção da vinha (5,4). Ele mesmo deu a sentença, anunciando o que fará, e suas atividades destrutivas (Is 5,5-6) serão o oposto dos cuidados iniciais (5,2). O ápice é o v. 7 no qual o profeta contrasta as expectativas positivas de Deus e as atividades do povo.

Mateus é, entre os sinóticos, quem melhor enfatiza o julgamento dos Vinhateiros, pois na versão mateana, os próprios interlocutores responderam à questão posta por Jesus: eles declararam que os vinhateiros eram vilões e mereciam morrer.

Além disso, com a sentença de Jesus, eles reconheceram, na parábola, a história de seu conflito com o Nazareno. A parábola é chave interpretativa para uma a história de desobediência à vontade de Deus, cujo clímax se mostra agora na rejeição ao Filho.

- FRUTOS [13]
A expressão produzir frutos (Mt 21,43) não aparece ingenuamente nesse versículo, mas é uma descrição do comportamento correto, e faz elo com Is 5,2.4b, quando por três vezes se diz que o Amado esperava a produção de uvas boas, mas a vinha produziu uvas amargas, bravas. Essa orientação ética seria um desenvolvimento do comportamento destacado em Is 5,7: esperava-se o direito e a justiça e em contraposição foi produzido transgressão e clamor. O texto de Mt 21,41 insinua que os frutos não foram entregues ao dono da Vinha. E por fim, Mt 21, 43 afirma que a vinha não produziu frutos quando estava com os arrendatários.

Em Mateus ainda temos duas diferenças em relação a Marcos: (a) a totalidade (Mt 21,34), e não uma parte (Mc 12,2) dos frutos, deve ser dada ao proprietário; (b) o filho foi morto fora (Mt 21,39; cf. Hb 13,12; Jo 19,20b; Lv 21,14-16) e não dentro da vinha (Mc 12,8).

- ETHNOS
A expressão “um éthnos que produza os frutos dele” (Mt 21,43) aparece apenas em Mateus. Conforme os estudos de Saldarini [14], o termo éthnos significa bando, classe, nação, gente, pessoas que vivem juntas, companhia militar, grupo de camaradas, província, associação mercantil e os outros em oposição ao nosso grupo.

A maioria das edições da bíblia em português traduz o grego éthnos pelo termo nação. Partindo desse tipo de tradução, muitos concluem que Israel foi substituído por outra nação, a Igreja gentílica. Contudo, esse tipo de interpretação traz alguns problemas. Em primeiro lugar, os cristãos não podem ser considerados como nação. Também “não há nenhuma menção implícita ou explícita aos gentios”. E quem rejeita o herdeiro não é a vinha (Israel), mas os vinhateiros, os líderes que “repudiam e matam continuamente os profetas e também conspiram para matar o Filho”[15].

A interpretação mais correta é que o grupo rejeitado na parábola seja o dos principais sacerdotes e anciãos do povo. Estes são reprovados porque não agem segundo a vontade de Deus para que a vinha produza frutos. A parábola pressupõe que a vinha é fecunda, mas os vinhateiros se apropriam indevidamente dos frutos em vez de entregar a produção ao proprietário. A vinha (Israel) foi mal administrada e tem que passar para outros administradores [16].

O grupo que produz frutos é a Comunidade dos seguidores de Jesus, principalmente aquela da qual Mateus faz parte e que é composta, em sua maioria, de judeu-cristãos. O grupo que produz frutos é um subgrupo que faz parte da vinha (Israel). “A vinha, Israel, permanece a mesma; subgrupos dentro de Israel são acusados ou louvados... a parábola dos vinhateiros é uma crítica aos líderes de Israel e não a Israel” [17].

- PEDRA
Em Mt 21,42 temos a citação do Sl 118, 22-23. Esse salmo[18] foi composto para ser cantado na solene liturgia de ação de graças que terminava com a entrada no Templo, na festa das Tendas. Essa festa destacava a reconstrução de Jerusalém (Ne 8,13-18; 12,27-43) e comparava Israel a uma pedra que as nações tinham rejeitado e que Deus a utilizava para a construção de seu Reino. Agora que os líderes do povo de Israel rejeitavam o enviado de Deus, Jesus mesmo é a pedra rejeitada e por isso se torna escândalo, palavra grega que significa “pedra que faz tropeçar”. Dessa forma, podemos entender essa afirmação “todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços” (Mt 21,44a).

Mas também é dito que “aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt 21,44b). Para compreender melhor essa afirmação é necessário recorrer a Dn 2,44-45. Nesse texto de Daniel, o sábio identifica a pedra que desce do monte, no sonho de Nabucodonosor, com um reino suscitado por Deus que jamais será destruído e que esmagará os demais reinos [19]. O Reino dos Céus, inaugurado por Jesus, é a pedra que cai sobre aqueles que rejeitam o enviado de Deus.

- REINO
O texto de Mt 21,43, com a afirmação “vos será tirado o Reino de Deus e será dado a outro grupo (éthnos) que produza frutos”, parece contrário a Dn 2,44: “um reino que jamais passará a outro povo (LXX: éthnos)”. Contudo, essa contradição não passa de um problema de tradução.

O Reino significa a soberania da vontade de Deus sobre o ser humano inserido em estruturas históricas, sociais, políticas, econômicas, culturais, etc. Portanto, isto não depende da pertença a uma etnia. Por isso, o Reino é dado a quem produz frutos de justiça, seja judeu ou gentio. Para a comunidade de Mateus, Jesus é a autobasileia, ou personificação do Reino, pois na vida dele a vontade de Deus foi sempre soberana. Não acolher o dom que é Jesus significa rejeitar a pedra angular do Reino[20].

A autoridade dos interlocutores de Jesus nesse texto de Mateus foi subtraída porque: (1) não acolheram os mensageiros de Deus, (2) não produziram frutos de justiça para Deus e (3) rejeitaram a autobasileia, Jesus. Perderam a autoridade sobre o povo “por causa de seu mau procedimento” e foram substituídos pelos líderes da comunidade de Mateus, “um grupo (éthnos) de líderes que ouve Deus e pode guiar corretamente ‘as ovelhas perdidas da casa de Israel’ (10,6)”[21]. Então, trata-se de uma justificação da autoridade da comunidade de Mateus perante a autoridade dos fariseus e não de uma rejeição de Israel por parte Deus. A comunidade de Mateus necessita justificar para os fariseus a autoridade que está reclamando para si mesma. Isto porque nessa época eram os fariseus as autoridades constituídas sobre o povo.

CONCLUSÃO
A Palavra nos exorta sobre algo que aconteceu com os fariseus da época de Mateus e que pode se repetir, tanto na História da Igreja, quanto na consciência de cada cristão: a rejeição aos enviados de Deus e à sua vontade soberana. A eleição por parte de Deus exige uma resposta pessoal e um engajamento de vida, é importante que a pregação provoque um julgamento da Assembléia sobre si mesma, como aconteceu na parábola.

É necessário também que se destaque um aspecto fundamental, isto é, que uma Igreja acomodada é uma figueira sem frutos (Mt 21,19) de justiça. Novos problemas exigem novas acentuações da fé, como fez a Igreja de Mateus, e a novidade da resposta, a tais problemas, pode trazer confrontos e desconfianças entre estruturas hierárquicas antigas e novas.

Acima de tudo é necessários permanecer fiel e perseverante. Estar consciente que a rejeição a Deus é um processo gradual que culmina sempre na Cruz, ontem e hoje. E que se rejeitamos Deus é porque sua vontade não corresponde aos nossos esquemas sempre forjadores de ídolos silenciadores de nossa consciência pecaminosa.

Enquanto houver acusações mútuas embasadas numa hermenêutica anti-semita dos textos bíblicos não será possível uma verdadeira manifestação de amor como pede a NA 4. Depois de 40 anos dessa Declaração do Concílio Vaticano II poucos passos foram dados para um abraço honesto entre judeus e cristãos. Muitas vezes por falta de uma boa tradução da Escritura. Outras vezes porque a dureza de coração impede de se reconhecer no outro um enviado de Deus.

Oremos para que Deus nos livre de fundamentar na Escritura uma atitude de anulação de nosso semelhante como pressuposto para afirmação de nós mesmo:

Onde está o clamor, onde estão as lágrimas
que eu deveria derramar na presença de Deus?


Eu nunca produzi senão frutos de morte,
porque não me enxertei em vós, Senhor!...
grandeza incomensurável!...


De onde trazes, ó árvore, estes frutos de vida,
sendo por ti mesma estéril e morta?


Da mesma árvore da vida o trazes!


Pois se não estivesses enxertada nela,
nenhum fruto poderias produzir por virtude tua,
porque nada és.

Catarina de Sena [22]

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[11] Os principais textos do AT que identificam Israel com a vinha são: Sl 80, 9-17; Is 5,1-7; Os 10,1; Ez 19,10-14.
[12] WEREN, W.J.C. “The Use of Is 5, 1-7 in the Parable of the Tenants (Mark 12,1-12; Matthew 21,33-46)”, Biblica 79 (1998) 1-26.
[13] No AT e no NT o termo “frutos” significa “obras”, “práxis que agrada a Deus”.
[14] SALDARINI, A. J. A Comunidade judaico-cristã de Mateus, São Paulo: Paulinas, 2000, p. 104-112.
[15] Ibidem, p. 105, notas 58 e 59.
[16] Este sentido também é comum ao episódio da figueira (Mt 21,18-19). Jesus esperou encontrar frutos e decepcionou-se. Os líderes do povo, daquela geração, não fizeram as obras que agradam a Deus.
[17] Ibidem, p. 109.
[18] Na opinião de alguns estudiosos, a citação do Salmo 118, 22-23 na parábola dos Vinhateiros é uma acréscimo redacional em Mc 12,10 // Mt 21,42 // Lc 20,17. Mas se for assim, a parábola perde sua chave eclesiológica, ou seja, não se refere em nada à comunidade cristã. Cf. CIPRIANI, S. “Significato Cristologico o anche Eclesiologico nella Citazione del Salmo 118,22-23 al Termine della Parabola dei Vignaiolli Omicidi”, Asprenas 26/3 (1979) 235-249.
[19] Veja a expressão: “aquele sobre quem ela [a pedra] cair será reduzido a pó” (Mt 21,44b//Lc 20,18b). Mc fala apenas da pedra rejeitada (Cristo) pelos construtores.
[20] RODRÍGUES CARMONA, Evangelio de Mateo, Bilbao: Desclée De Brouwer, 2006, p. 190.
[21] SALDARINI, op. cit., p. 112.
[22] Preghiere ed Elevazioni, Roma: Ferrari, 1920, p. 113.


* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O HERDEIRO E A VINHA - REFLEXÕES À LUZ DE NOSTRA AETATE 4 (continuação)

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

O contexto literário da parábola dos vinhateiros

Antes de iniciarmos o estudo sobre o conflito de Jesus com a sinagoga, tomando como referência a parábola dos vinhateiros, consideramos o bloco narrativo de Mt 21,23 – 22,14 no qual esta se encontra
inserida.

Em Mt 21,23 encontramos a pergunta dirigida a Jesus pelos principais sacerdotes e anciãos do povo [6] sobre a legitimidade de sua autoridade em relação ao episódio no Templo de Jerusalém (Mt 21,12-17). Mas, em vez de responder-lhes, Jesus endereça-lhes uma contra pergunta sobre a origem do batismo de João (Mt 21,25). A resposta dos principais sacerdotes e anciãos significa uma confissão de recusa em aderir à proposta João Batista e como não atenderam ao apelo do Profeta, não puderam compreender a missão de Jesus. Então, o tema destacado até aqui é que os principais sacerdotes e anciãos do povo – grupo que rejeitou os dois enviados de Deus – perderam a autoridade de cobrar explicações de Jesus sobre sua atitude no Templo de Jerusalém.

O texto imediatamente posterior a essa controvérsia é a parábola dos Dois Filhos (Mt 21,28-31).Através desta o evangelista insiste em mostrar que os principais sacerdotes e anciãos de Jerusalém não cumpriram o chamado do Senhor, não mudaram de atitude nem pelo testemunho de João Batista, nem quando viram os pecadores se converterem (Mt 21,31-32). Esse bloco narrativo aponta, então, para uma transferência no exercício da autoridade: dos líderes do povo que recusaram o enviado de Deus, Jesus, para aqueles que o acolhem.

A rejeição/aceitação de Jesus é a unidade temática de Mt 21,23 – 22,14. Esse tema permanece nas narrativas posteriores à parábola dos Vinhateiros. No texto da fonte Q [7] (Mt 22,2-3. 5.8-10//Lc 14,16-24) há uma parábola com os seguintes elementos comuns: um anfitrião (Lc: um homem, Mt: um rei) convidou seus concidadãos para um festim (Mt: núpcias do filho), os convidados não lhe deram atenção, o anfitrião ofendido os substituiu por outros (Lc: pobres e marginalizados; Mt: maus e bons). O tema dessa parábola é o mesmo dos textos anteriores no capítulo 21, os líderes do povo foram desatenciosos, enquanto os gentios e os míseros, os “maus e bons”, aceitaram o convite.

O texto de Mt 21,33-46

Passando a considerar o texto que nos propomos estudar, notamos que a narrativa sobre os Vinhateiros pertence aos três evangelhos sinóticos. É relatada por Lucas (20,9-19) de forma mais simples que nos outros evangelhos. Refere-se três vezes ao envio de um servo, depois disso é a vez do filho. Marcos (12,1-12) menciona três envios de um servo a cada vez sendo que a violência com que são tratados aumenta progressivamente, depois se fala de muitos outros emissários, dos quais alguns foram golpeados e outros mortos.

Para Carmona[8], o texto sobre os vinhateiros é mais uma alegoria que uma parábola, na qual cada elemento da narrativa tem um significado: o proprietário é Deus, a vinha é Israel (o povo escolhido), os servos são os profetas enviados ao longo da história, o herdeiro é Jesus (cume da Revelação e morto fora dos muros de Jerusalém), os vinhateiros são os líderes do povo que rejeitaram Jesus e merecem que a vinha lhes seja tirada e dada a quem entregue os frutos a seu tempo (Sl 1,3).

No evangelho apócrifo de Tomé[9], log. 65, temos o seguinte texto:
Disse Jesus: Um homem de bem possuía uma vinha. Arrendou-a para alguns trabalhadores para que a cultivassem e, no tempo da vindima, lhe dessem as uvas. Mandou seu servo para que recebesse dos agricultores o fruto da vinha. Estes agarraram o servo e o espancaram: pouco faltou para que o matassem. O servo foi contar ao senhor o que tinha acontecido. Este pensou: eles,talvez, não o tenham reconhecido. E mandou outro servo. Os agricultores voltaram a espancá-lo. Então, o Senhor mandou o próprio filho, dizendo: ao menos, hão de respeitá-lo. Ao saberem que se tratava do herdeiro da vinha, os agricultores agarram-no e o mataram. Quem tem ouvidos, ouça!
Podemos supor que talvez o apócrifo tenha conhecido a forma mais primitiva e original[10] da parábola e que os evangelhos canônicos, em vista do projeto teológico de cada autor, tenham acrescentado alguns pormenores e explicações.


No texto de Mateus fala-se de duas missões em que os servos são espancados, mortos e apedrejados. A terceira missão é a do filho. Isso significa que a pregação de cada evangelista privilegiou alguns aspectos em detrimento de outros.

(continua)
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[6] Conselho de líderes do povo.
[7] Fonte comum a Mt e Lc.
[8] RODRÍGUES CARMONA, A. Evangelio de Mateo, Bilbao: Desclée De Brouwer, 2006, p. 190.
[9] ROHDEN, H. (trad). O quinto Evangelho: a mensagem de Cristo segundo Tomé, São Paulo: Alvorada (s.d).
[10] SNODGRASS, K. R. “The Parable of the Wicked Husbandmen. Is the Gospel of Thomas Version the Original?”, New Testament Studies 21 (1975), 142-144.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O HERDEIRO E A VINHA - REFLEXÕES À LUZ DE NOSTRA AETATE 4 [1]

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

Publicado em Convergência (CRB), Rio de Janeiro, v. 44, n. 420, p. 215-225, 2009.

No tempo em que Mateus redigia o evangelho estava acontecendo uma forte tensão entre os seguidores de Jesus e a Sinagoga. A destruição do Templo de Jerusalém deu início ao chamado judaísmo formativo, com o fim da pluralidade dos grupos religiosos judaicos e a tentativa de certa uniformidade na interpretação das Escrituras. Conseqüência disso foi o estabelecimento da autoridade dos rabinos (Mestres da Torah) em substituição ao Sinédrio. Isso significava uma supremacia do antigo grupo dos fariseus sobre o povo judeu [2].

Nessa tensão entre o grupo dos seguidores de Jesus e a Sinagoga, a comunidade de Mateus sentia-se como “ovelhas entre lobos” (Mt 10,16), até mesmo os familiares dos cristãos os colocavam em situações desagradáveis (Mt 10,21-24.34-36). Talvez os seguidores do Caminho[3] já tivessem sido expulsos da sinagoga (Mt 10,17) e eram acusados de não seguir as “tradições dos antigos” (Mt 15,2). Tudo isso fazia com que os cristãos se sentissem cansados e tentados a abandonar a fé (Mt 24,9s).

Para mostrar a seus contemporâneos que não deviam inquietar-se com os fariseus, Mateus escreveu as controvérsias entre Jesus e os líderes religiosos de Jerusalém. Dessa forma, exortava a comunidade a não imitar o modo de ser dos adversários, ou seja, a evitar todo rigor exagerado com Lei e também a não ambicionar nenhum privilégio ou poder (Mt 18,1-35)[4]. Os cristãos deveriam assumir o modo de ser de Jesus, refazendo o caminho do Messias e atualizando a missão do Mestre até que ele venha. A maneira de viver de Jesus é, pois, a condição e o critério para ser discípulo, como Mateus fez questão de mostrar (especialmente em 6,19–7,23 e 16,24-28).

As Parábolas em Mateus

Para exemplificar como deve ser um verdadeiro discípulo do Reino, Mateus narra as Parábolas de Jesus. Dessa forma, o seguidor do Messias terá claro o critério sob o qual deve pautar sua vida.

O verbo grego parabállo denota a idéia de “lançar ao longo de” ou “por junto a si”. O substantivo parábola quer traduzir o termo hebraico mashal, que reagrupa grande variedade de formas literárias como a sentença sapiencial, o enigma e outras. Todas elas têm como objetivo exprimir uma verdade através da linguagem figurada, método utilizado, principalmente pelos mestres orientais, para transmitir uma mensagem predispondo o ouvinte para a reflexão.

Desde os tempos da Igreja primitiva, denominou-se “parábolas” aqueles ensinamentos de Jesus, em linguagem figurada, que falavam a respeito de verdades espirituais profundas, a partir de exemplos tirados da natureza ou da vida social, econômica e religiosa de seu tempo. Dessa forma, Jesus provocava seus contemporâneos a descobrirem o dinamismo do Reino de Deus e os orientava a viver de acordo com o projeto salvífico do Pai.

Não podemos, hoje, recriar a situação histórica na qual uma parábola foi contada por Jesus, pois os evangelistas criaram diversos contextos literários para a mesma parábola tendo em vista o projeto teológico específico de cada um [5]. Cada contexto literário, entretanto, respeitou o propósito original de Jesus ao contá-las. Dessa forma, a mensagem das parábolas nos Evangelhos passa a servir de critério de avaliação para a práxis dos leitores em quaisquer tempos e lugares.

A narrativa de Mt afirma que Jesus falou muitas coisas em parábolas (13,3). Considerando Mt 13 em sua totalidade, se percebe o objetivo principal de indicar como o Reino dos Céus vai se consumando no dinamismo da história universal até a sua plenitude. À pergunta dos dis-

– Parábolas para orientar a vida na Comunidade (Mt 18,12-14.23-25): manifestam que na comunidade de Mateus alguns lutavam pelo poder, outros eram ocasiões de escândalos, havia intolerantes e obstinados em não perdoar e, os “pequeninos” eram desprezados ou haviam se extraviado.

– Parábolas para orientar no conflito com a Sinagoga (Mt 11,16-19; 20,1-16; 21,28-32. 33-45; 22,1-14; 24,45-51): mostram como os líderes da Sinagoga estavam falhando em sua missão de guiar o povo já que rejeitaram o Messias.

– Parábolas para orientar sobre a vigilância (Mt 25,1-13.14-30): exortam a comunidade dos seguidores de Jesus, em todos os tempos, a permanecer firme, construindo na história o Reino dos Céus, conservando-se firme e alerta para que na Parusia se manifeste em plenitude o que já é vivido agora.

(continua)
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Notas
[1] NOSTRA AETATE, Declaração sobre as Relações da Igreja com as Religiões não-cristãs, in COMPÊNDIO DO VATICANO II, Petrópolis: Vozes, 1996: “Por isso não pode a Igreja esquecer que por meio daquele povo, com o qual em sua indizível misericórdia Deus se dignou estabelecer a Antiga Aliança, ela recebeu a Revelação do Antigo Testamento e se alimenta pela raiz de boa oliveira, na qual como ramos de zambujeiro foram enxertados os Povos. Pois crê a Igreja que Cristo, nossa Paz, mediante a cruz, reconciliou os Judeus e os Povos e a ambos unificou em Si mesmo... Se bem que os principais dos Judeus, com seus seguidores, insistiram na morte de Cristo, aquilo contudo que se perpetrou na Sua Paixão não pode indistintamente ser imputado a todos os Judeus que então viviam, nem aos de hoje. Os Judeus não devem ser apresentados nem como condenados por Deus, nem como amaldiçoados, como se isso decorresse das Sagradas Escrituras. Haja por isso cuidado, da parte de todos, para que, tanto na catequese como na pregação da Palavra de Deus, não se ensine algo que não se coadune com a verdade evangélica e com o espírito de Cristo. Além disso, a Igreja, que reprova toda a perseguição contra quaisquer homens, lembrada do comum patrimônio com os judeus, não por motivos políticos, mas impelida pelo santo amor evangélico, lamenta os ódios, as perseguições, as manifestações anti-semíticas, em qualquer tempo e por qualquer pessoa dirigidas contra os Judeus. De resto, a Igreja sempre teve e tem por bem ensinar que Cristo por causa dos pecados de todos os homens, sofreu voluntariamete e por imenso amor se sujeitou à morte, para que todos conseguissem a salvação. Cabe pois à Igreja pregadora, anunciar a cruz de Cristo como sinal do amor universal de Deus e fonte de toda a graça.”

[2] OVERMAN J. A. O Evangelho de Mateus e o Judaísmo Formativo: o mundo social da comunidade de Mateus, São Paulo: Loyola, 1997, tradução de Cecília Camargo Bartalotti, Bíblica Loyola no. 20.

[3] Assim se chamavam os primeiros cristãos (At 9,2; 19,9.23; 22,4; 24,14.22). O termo “cristão”será usado neste artigo para evitar ambiguidades e facilitar a compreensão.

[4] O que Mt critica é o legalismo farisaico. Contudo, nem todo fariseu era legalista. Em geral esse grupo era muito respeitado pelo povo por sua sabedoria e piedade. Infelizmente o termo “fariseu” tornou-se sinônimo de “hipócrita”. Esse tipo de generalização denota preconceito e foi, muitas vezes, causa de antisemitismo.

[5] Veja, por exemplo, a parábola dos Odres e o Vinho (Mt 9,17; Mc 2,22 e Lc 5,37), que em Mt vem antes da cura da mulher com fluxo de sangue e em Mc e Lc é anterior ao episódio das espigas colhidas no sábado. Sendo que Lc acrescenta à parábola uma afirmação sobre a preferência pelo vinho velho (Lc 5,8) que não consta em Mt e Mc.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.