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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O endemoniado geraseno (Mc 5,1-20)


Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito e conforme a tradição acredita-se que tenha surgido em Roma. Os estudos modernos o situam por volta do ano 65d.C.

É um evangelho querigmático, ou seja, traz o primeiro anúncio da boa-nova que produziu grande impacto na vida das pessoas no primeiro século de nossa era. Em Marcos vemos Jesus manifestando seu poder nos exorcismos, na palavra anunciada com autoridade, no anúncio da chegada do Reino de Deus. Jesus se denomina o Filho do Homem e o Servo Sofredor que deve dar sua vida pela salvação da humanidade, uma interpretação dos Cânticos do Servo no livro de Isaías, especialmente o capítulo 53.
É consenso entre os estudiosos que o Evangelho conforme Marcos está dividido em duas partes:

1ª parte Mc 1,1- 8,26 – “Quem é esse Jesus?” Trata sobre a identidade do taumaturgo que realiza milagres, que proclama a palavra como quem tem autoridade (1,28), que expulsa demônios e que é uma figura enigmática para seus ouvintes.

2ª parte: Mc 8,27-16,20 “O messias ‘diferente’”. Após a realização dos grandes feitos, de Jesus, fica claro para os leitores que ele é o messias. No entanto Jesus afirma não ser aquele tipo de messias esperado pelo o povo, pelos fariseus, escribas e pela sua família e até mesmo pelos seus discípulos.

O trecho que vamos refletir, sobre o endemoniado geraseno (Mc 5,1-20), está localizado na primeira parte, sobre a identidade de Jesus. Não há dúvidas de que esse é um dos mais desconcertantes e escandalosos de todos os relatos de milagres e exorcismos presentes nos evangelhos. O que dizer de um demônio que tenta passar a perna em Jesus e acaba sendo ele o enganado?

Nesse relato temos a estrutura clássica de um exorcismo:
1. encontro entre Jesus e o possesso,
2. Resistência do demônio,
3. ordem de sair dada por Jesus,
4. saída do demônio,
5. reação dos que testemunharam o exorcismo.

Trata-se de um exorcismo realizado em terras pagãs. Como todo exorcismo significa a vitória de Jesus sobre Satanás. Temos esse mesmo relato com algumas modificações também em Lc 8,26-39 e em Mt 8,28-34.

Em Marcos temos uma obra dramática sobre um homem possuído por um espírito impuro numa região pagã, do outro lado do Mar da Galileia. Alguns elementos no texto nos revelam que o território era pagão:
→Ele habitava nos sepulcros (v.2.3.5), lugar considerado impuro e impróprio para se morar pelos judeus.
→ Identifica o Deus de Israel como Deus altíssimo, a forma habitual utilizada pelos pagãos.
→O nome do espírito impuro é legião, termo militar que indica um destacamento de aproximadamente 6.000 soldados romanos.
→Temos ainda a presença dos porcos, que aos judeus era proibida a criação e a ingestão desse animal por ser considerado impuro segundo as normas da tradição judaica (Lv 11,7; Dt 14,8).
→ do outro lado do Mar, na região conhecida como Decápole, que era uma confederação de dez cidades numa região não judia, habitada por povos sírio e gregos na margem do Mar da Galileia.

Todos esses elementos nos revelam que esse é um caso especial de exorcismo em favor de um pagão que se transformou em modelo da atividade libertadora de Jesus em terras pagãs.

Além dessa passagem temos no evangelho de Marcos outros episódios que revelam essa abertura da salvação aos pagãos: a cura da filha da mulher siro-fenícia (7,24-30) e a cura do surdo-gago (7,31-37). Pode ser uma releitura marcana de algumas passagens do Antigo Testamento nas quais aparece uma visão universalista da salvação como em Is 65,3-5; Sl 107,10-15, que se aplicam bem à passagem sobre o endemoniado geraseno.

A atividade de Jesus como exorcista é um sinal da chegada do Reino de Deus (Mt 12,28). Ele tem poder para libertar um homem atormentado que vivia as margens da sociedade devolvendo-lhe a saúde física e psíquica. Nessa passagem constatamos que o poder de Jesus, atravessa as fronteiras pagãs e é manifestado em todo aquele que crê na boa-nova.

Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia.
Aquele homem após ser libertado do espírito impuro que o possuía, está agora sentado (posição do discípulo), vestido e em pleno uso da sua razão. Ele pede a Jesus para estar com ele, estar com Jesus era o que caracterizava o discípulo (Mc 3,14), pois o reconhece como seu salvador. No entanto ainda não era o momento de admitir entre os seus discípulos um pagão e nem andar com um recém curado como prova de seu poder.

A reação dos habitantes daquele lugar após a manifestação do poder de Jesus sobre os demônios é a mesma dos judeus. Ficam assombrados e pedem que ele vá embora. Eles não reconheceram a libertação operada pelo Senhor e até o temem por esse ato. Embora eles tivessem sido libertados do domínio dos demônios, pois era uma legião que estava aprisionando aquele homem.

A morte da manada de porcos significava que toda aquela região estava livre do poder de Satanás. Jesus saiu vitorioso sobre a legião, mas não foi aceito pelos homens. Por isso, pede ao homem que fique entre os seus e anuncie todas as maravilhas operadas por Deus em seu favor. Ele se tornará de agora em diante testemunha e mensageiro, na terra pagã, da vitória sobre os demônios e que o Deus de Israel é um Deus misericordioso para com todos e que as promessas feitas aos antepassados de Israel serão agora cumpridas (Is 56,6; 66,18). A salvação não é exclusivamente para Israel, é primeiramente para o povo da aliança (Mt 10,5), mas deve ser estendida a todos (At 10).

Aqui parece haver uma oposição na postura de Jesus que sempre após as curas ordenava silenciar o acontecido. Ali em plena Decápole não havia risco de uma compreensão equivocada acerca do seu messianismo. Ir com Jesus poderia significar adotar os costumes judaicos. Ir para sua casa e anunciar o que o Senhor realizou era permanecer na sua cultura com seus costumes, mas, testemunhando a libertação oferecida por Jesus para aqueles que desejavam um novo modo de viver.



Ir. Luciene Lima Gonçalves é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, mestra em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP (2020). É especialista em Estudos Bíblicos pela Faculdade Católica de Fortaleza (2015) Graduada em Filosofia (ITEP) e Teologia pelo Instituto de Ciências Religiosas - ICRE (2007)

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Dai-lhes vós mesmos de comer!

18º Domingo Comum  - Ano A



O texto de Mt 14,13-21 mostra que Jesus, mesmo quando estava extenuado pelas inúmeras tarefas, nunca deixou de sentir compaixão pelas pessoas. Seu exemplo se torna uma exigência para nós: devemos amar e nos sensibilizar com aqueles que têm fome de alimento material e fome de amor, justiça e paz.

O texto sobre a "primeira multiplicação dos pães" tem início quando Jesus deixa a multidão para ficar à sós. Ele acabara de ouvir sobre a morte de João Batista. Seu desejo de solidão implicava numa necessidade de oração e de reflexão. Mas a multidão não o deixava sozinho e a solução foi retirar-se, com os discípulos, do perímetro das cidades para lugares mais afastados. As multidões, porém, os encontraram. Cheio de compaixão, Jesus curou os enfermos. Então as horas avançaram e os discípulos ficaram preocupados. Pediram a Jesus que despedisse a multidão para que procurassem alimentos nos lugares mais próximos.

Não sejamos ingênuos, a maioria daquelas pessoas não se deslocaria para aquele lugar tão desabitado sem levar algum alimento. É muito provável que a maioria tivesse levado alguma provisão. Principalmente os alimentos básicos daquela região, peixe e pão.

Os discípulos se surpreendem quando Jesus disse: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Parecia uma ordem impossível de ser cumprida e, por isso, fizeram uma objeção. Mas, alguém colocou sua provisão à disposição de Jesus o qual ordenou a todos que se sentassem como era costume nas reuniões de família, separados em grupos de homens, de mulheres, de velhos e de crianças. Dessa forma, os que eram mais fracos tinham prioridade para receber o alimento.

Em seguida, Jesus pegou o pão e o peixe, olhou para o céu e deu graças. Obviamente, o autor do evangelho queria que os leitores fizessem conexões com a Eucaristia. Ao mencionar a postura corporal de Jesus e seus gestos, Mateus sugere que Jesus pronunciou a oração judaica da bênção para o pão: “Bendito sejas tu, Senhor Deus, rei do universo, que nos dá o pão tirado da terra”. Bênção que remete principalmente à ceia pascal. Jesus fez com que seus discípulos distribuíssem o alimento. Todos ficaram saciados e sobram ainda doze cestos. O número doze tinha muitas referências simbólicas e, principalmente, representava as doze tribos de Israel.

Podemos citar aqui três interpretações diferentes desse trecho evangelho, conforme a maioria dos estudiosos da Bíblia.

A primeira é a interpretação literal. Quer dizer que devemos vê-lo como uma simples multiplicação de pães e peixes, algo mágico. E muitas pessoas consideram Jesus como um mágico que realiza milagres para entreter o público, mostrando como é poderoso.

O segundo é a interpretação figurativa. Muitas pessoas veem nesse milagre um símbolo da Eucaristia. A razão disto é a presença dos elementos que podem ser encontrados na liturgia eucarística: pegar o pão, dar graças, partir o pão e entregar aos discípulos. Neste modo de interpretar, não se trata de uma refeição em que as pessoas famintas ficam saciadas, mas de uma refeição em que se alimentam do pão espiritual, a Eucaristia.

Há uma terceira opinião que une as duas primeiras. Imaginemos a seguinte cena. Lá está a multidão. É fim de tarde e eles estão com fome. Faz parte daquela cultura levar provisões para onde quer que fossem. Além disso, a multidão sabia para onde Jesus estava indo (que era lugar desabitado), tanto que chegou lá antes dele. Mesmo assim nem todos devem ter levado alimento consigo.

Quando a noite se aproximou, as pessoas sentiram fome. E ninguém queria partilhar o próprio alimento porque em regiões desérticas a sobrevivência está em primeiro lugar, e partilhar água e alimento é muito arriscado. Aquelas pessoas ficaram com medo de partilhar porque, se o fizessem, nada restaria para si mesmas. Mas Jesus tomou a iniciativa com um convite. Então todos começaram a abrir suas provisões, compartilhar o que tinham e, antes que percebessem, havia comida mais do que suficiente para todos.

Se foi isso que aconteceu, então, não foi só um milagre da multiplicação de pães e peixes, mas foi um milagre da transformação de pessoas egoístas em pessoas generosas. Foi o milagre do nascimento do amor nos corações temerosos. Nesse caso esse acontecimento também é um sinal da Eucaristia que transforma as pessoas em um só corpo, o Corpo místico de Cristo, que é a Igreja.

Em todo caso a alimentação da multidão nunca deve ser tomada como prova do poder de Jesus. A ênfase do texto é na compaixão que Jesus teve pelas pessoas, na providência amorosa de Deus para com suas criaturas, na dimensão da partilha que foi realizada e na ordem de Jesus para que seus discípulos dessem alimento aos famintos.

Por que os discípulos não pensaram em compartilhar sua provisão com a multidão? Será que eles não se importavam com o bem-estar das pessoas? Sim, eles se importavam e desejavam o melhor para a multidão. Mas, provavelmente, eles estavam simplesmente sendo realistas e práticos. Vamos ser sinceros: cinco pães e dois peixes não é nada diante de uma multidão faminta. No entanto, eles deveriam ter dado o exemplo do desapego, eles deveriam ter tomado uma atitude mais concreta porque se eram realista deveriam saber que aquela multidão não encontraria alimento suficiente nos arredores. Os discípulos transferiram o problema para Jesus. Era melhor ficar distante dos famintos. Mas Jesus devolveu o problema para eles.

Semelhante aos discípulos, desejamos o bem às pessoas, mas nem sempre temos intenção de realizar ações positivas para ajudar a amenizar a situação. E, novamente como os discípulos, o que nos impede de agir é, frequentemente, uma avaliação realista de que o pouco que podemos fazer não fará realmente nenhuma diferença. Deus é capaz e está disposto a saciar todos os tipos de fome. Mas Deus está esperando homens e mulheres que acreditam nele o suficiente para abrir mão de seus “cinco pães e dois peixes”, com os quais Deus tornará possível o milagre da multiplicação.

É aqui que vem em nosso auxílio o texto de Is 55,1-3. Em seu contexto original, essa passagem foi escrita para encorajar pessoas muito desanimadas. O bloco inteiro dos capítulos 40-55 de Isaías registra as profecias do final do exílio babilônico, quando os judeus tiveram permissão para regressar a uma terra devastada, o antigo reino de Judá.

O Profeta Isaías estava se dirigindo a pessoas cujos ancestrais tiveram uma forte experiência com Deus. No entanto, aquelas pessoas se afastaram de Deus, apesar dessas experiências. Mas Deus as convidou a terem intimidade com ele através do simbolismo de um banquete no qual se pode usufruir da melhor comida sem ter que pagar nada por ela, somente por pura gratuidade daquele Pai amoroso que deseja saciar nossa fome de amor, que deseja preencher nosso vazio existencial.

No tempo do autor, a elite de Jerusalém vivia no exílio na Babilônia, até que Ciro, o rei persa, conquistou o império babilônico e devolveu os judeus à sua terra natal, a Judeia. Mas alguns dos exilados já consideravam a Babilônia como sua pátria e não queriam se arriscar a abandonar tudo que haviam conquistado para voltar à terra dos antepassados. Ao mesmo tempo, outros duvidavam da possibilidade do retorno. Então um mal-estar geral se instalou sobre os judeus naquela ocasião. Para animar a ambos,  o capítulo cinquenta e cinco, promete alívio material e espiritual.

O texto fala sobre água em abundância, cereais, leite, vinho e pão. Menciona uma renovação da aliança que Deus havia feito com o rei Davi e com os ancestrais do povo. Enfim, há um convite de Deus aos exilados para participarem de um banquete onde nada é pago e os alimentos são as melhores iguarias daquela época e cultura.

Esse simbolismo do banquete tornava-se, nos ouvidos povo, um lembrete reconfortante sobre os bons e velhos tempos quando seus antepassados viviam na terra prometida. Essas palavras davam esperança e serviam para impedir que o povo perdesse a fé em Deus. O tempo do exílio havia sido considerado pelos exilados como um tempo de penitência porque acreditavam que estavam pagando pelo pecado de idolatria praticada quando estavam na terra prometida. O convite de Deus para um banquete era tranquilizador. Era uma maneira sutil de dizer que eles não precisavam pagar nada, que Deus estava agindo com misericórdia para com eles, apesar de não serem merecedores. O convite soa magnânimo, Deus como um anfitrião entusiasmado, orgulhoso de suas iguarias finas, recebendo convidados muito amados e há muito aguardados.

Como o convite de Deus foi compreendido pelos exilados? Para os judeus, o céu na terra  era a cidade de Jerusalém. A reconstrução da cidade daria ao povo um renovado sentido de identidade nacional como povo consagrado ao Senhor. Em Jerusalém estava o lugar para ouvir a palavra de Deus, proclamar e renovar a aliança, o Templo, o lugar da habitação divina. A cidade e seus monumentos tornavam tangível o convite à intimidade com Deus. As pessoas só precisavam responder ao chamado de retorno à terra natal. A reconstrução da cidade iria proporcionar a renovação nacional.

Esse convite à união com Deus permanece sempre atual e é feito para todas as pessoas. A intimidade com Deus preenche uma profunda necessidade comum a todos os seres humanos. Pois, fomos feitos para Deus. Sem ele, estamos incompletos. Com ele nos realizamos verdadeiramente.

É por isso que o texto de Rm 8,35.37-39 nos assegura que nada pode nos separar do amor de Cristo. Podemos pessoalmente rejeitar esse amor, mas Cristo continua a nos amar.  Muitas pessoas passam grande parte de suas vidas rejeitando esse amor até que reconhecem sua fome espiritual e começam a aceitá-lo, pelo menos de forma um pouco mais consciente.

Os primeiros capítulos da Carta de Paulo aos Romanos versam sobre o que é necessário para estar em aliança com Deus. Os primeiros destinatários da carta estavam divididos sobre essa questão. Alguns, embora reconhecessem a importância de Jesus, insistiam que, para serem salvos, era necessário observar a Lei de Moisés. Paulo, por outro lado, insistia que os gentios convertidos ao cristianismo não tinham obrigação nenhuma de praticar a Lei de Moisés, embora os judeus convertidos pudessem fazê-lo se quisessem. E Paulo provou isso com muitos argumentos teológicos complexos e profundos.

Então chegamos a Rm 8,35.37-39 que parece abordar uma questão implícita: “Se Deus nos ama tanto a ponto de nos salvar pela graça imerecida, por que tudo ainda é tão difícil para nós? Por que sofremos?” Essa passagem da Carta aos Romanos é um resumo da resposta de Paulo.

Há uma conexão entre os sofrimentos de Cristo e os sofrimentos dos primeiros cristãos, especificamente os sofrimentos do próprio apóstolo. Se as provações pelas quais Paulo passou não conseguiram diminuir sua fé nem seu compromisso com a evangelização do mundo, o que poderia então separá-lo de Deus? E, por extensão, o que poderia separar os cristãos de seu Salvador?

Para responder essas questões, Paulo abordou a totalidade das experiências humanas e tudo que era temido pelas pessoas naquele tempo: vida e morte, anjos, seres celestiais e demônios; o futuro incerto e os cataclismas provocados pela natureza e pelas guerras.

Paulo estava convencido de que nada no universo poderia nos separar do amor de Deus, dado a nós por meio de seu Filho. Paulo inferiu que nosso lugar na criação estava acima de todos os poderes que, de alguma forma, nos afetam dentro da criação e da história. Em outras palavras, nosso lugar com Deus é íntimo e eterno, pois nossa jornada neste mundo é temporária, um dia estaremos com Jesus para sempre.

O que divide os fracos dos fortes é o compromisso. A teimosia do verdadeiro seguidor de Cristo tem muito mais poder de perseverança do que a busca de vantagens pessoais momentâneas. Para o apóstolo, a fé era o compromisso decisivo, pois assegurava a intimidade com Deus para além da morte. Se o objetivo é a vida eterna, todo o resto fica empalidecido em comparação com ela. Os sofrimentos da vida, as necessidades e até a ameaça de morte não podem parar o verdadeiro seguidor do Cristo.

As limitações da vida e a morte, eventos presentes e futuros, poderes da terra e do mundo espiritual, e até mesmo o próprio universo, nada disso poderia impedir o amor de Deus pela humanidade. O lugar de todos que confiam em Deus é estar em sua presença eterna. A fé nos convence desse fato.

Paulo estava certo: a fé é o compromisso último, é o compromisso por excelência. É uma orientação para além desta vida. Enquanto se permanece nesse compromisso, é fácil confiar no amor de Deus pelo por si e por todos. Amor infalível é amor inabalável.

Quando amamos, oferecemos tudo o que somos. O amor verdadeiro aceita o que é imperfeito. Assumimos grandes riscos quando amamos. Exemplo disso é o amor de pai e de mãe por seus filhos, quando o ser humano realmente vive a paternidade e a maternidade. Quando as pessoas são realmente pai e mãe, não desistem nunca de seus filhos.

O amor humano é forte, mas outras forças podem esfriar o amor e ele pode se apagar. Não é assim com Cristo, seu amor permanece perfeito e dura para sempre, não importa como nosso coração esteja. Às vezes, não amamos a Deus o suficiente, mas o amor de Deus por nós nunca diminui.

Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

sexta-feira, 10 de julho de 2020

O Relato da Infância de Jesus como Cristologia Pós-Pascal



Resumo

Neste artigo[i] abordaremos as questões em torno do estudo do Relato da Infância segundo Lucas como cristologia pós-pascal, a partir de duas questões principais: a discussão sobre a historicidade desse Relato e as perspectivas de alguns estudiosos que procuram corrigir Hans Conzelmann, autor que desconsidera tal Relato como teologia lucana.

Por questões metodológicas, dividiremos o assunto em três postagens: 1ª) Uma breve introdução, seguida do tópico sobre o desenvolvimento da cristologia; 2ª) o tema da historicidade da Narrativa da Infância e 3ª) a reflexão sobre Narrativa da Infância no contexto da teologia lucana, concluindo com a Narrativa da Infância como mini evangelho.

 

Introdução

A Narrativa da Infância[ii] segundo Lucas é extensamente estudada pelos especialistas atuais. A estrutura literária, a origem e a linguagem das fontes, o gênero literário, entre outros aspectos, são temas tratados por esses estudiosos. Observa-se que alguns aspectos dessa narrativa comparados ao restante do Evangelho causam certa estranheza quanto ao estilo lucano[iii] (SPINETOLI, 1967, p. 67). As peculiaridades presentes no Relato da Infância, o claro tom semítico e as possíveis fontes utilizadas por Lucas são elementos, entre outros, que levaram alguns especialistas a questionar o valor desse relato para o Evangelho lucano. São narrativas? Histórias edificantes? Episódios de crônica? (Ibid.).

Encontrar respostas para essas questões significa trilhar o caminho percorrido por muitos estudiosos na tentativa de uma aproximação da teologia desse relato e das motivações que levaram o evangelista Lucas a compor um relato com tal maestria.

Nossa intenção neste artigo é apresentar algumas questões pertinentes que se colocam à leitura do relato enquanto parte integrante da obra lucana. Para tanto, apresentaremos um esboço do processo de maturação da cristologia na Igreja primitiva, como pressuposto para se entender a inserção dos relatos da infância nos evangelhos. Depois veremos em grandes linhas como a pesquisa bíblica mudou de perspectiva na abordagem da Narrativa da Infância segundo Lucas, deslocando seu interesse sobre a natureza desse relato para sua compreensão no interior do Evangelho lucano.

O desenvolvimento da cristologia[iv]

Muitos estudiosos perguntaram-se porque Lucas começa seu evangelho com o relato da infância, uma vez que na pregação primitiva o nascimento de Jesus não era considerado na mesma perspectiva que a morte e a ressurreição (BROWN, 1982, p. 22). O anúncio era centrado no tema da morte e ressurreição de Jesus Cristo[v]. Ao querigma foram acrescentados, posteriormente, os fatos e as palavras recolhidos nas tradições sobre o ministério de Jesus, resultando, assim, nos evangelhos escritos.

O evangelho segundo Marcos, o primeiro a ser escrito, apresenta como “começo do evangelho de Jesus Cristo” (1,1) a narrativa do encontro de Jesus com João Batista no Jordão, e termina com a proclamação da ressurreição na tumba vazia (16,1-8). Os evangelhos segundo Mateus e Lucas trazem uma reflexão mais elaborada da cristologia. Estes acrescentaram ao material que colheram de suas fontes não só os ditos primitivos, mas os relatos da infância de Jesus. E, por último, o evangelho de João aprofunda ainda mais a cristologia ao fazer uma retrospectiva desde a preexistência de Jesus (Ibid., p. 20-21).

Trata-se de uma reflexão mais elaborada que corresponde a uma fase ulterior do processo de compreensão da fé Cristológica. A adição dos relatos da infância de Mateus e de Lucas se explica melhor à luz desse desenvolvimento da cristologia (Ibid., p. 26). A retrospectiva da vida de Jesus desde sua infância, realizada pela comunidade cristã, deve-se a necessidade de clareza quanto à identidade do salvador. Não há um interesse de narrar fatos históricos sobre a infância de Jesus em Nazaré.

Veremos, na próxima postagem, qual o valor dado à Narrativa da Infância na pesquisa bíblica moderna e a importante mudança de perspectiva em relação a sua historicidade.

 

Referências

BROWN, Raymond E. El nacimiento del Mesías: comentario a los relatos de la infancia. Madrid: Cristiandad, 1982.

RODRIGUES, Márcia E. O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52. 2008. 121 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) – Faculdade Jesuíta de filosofia e Teologia, Belo Horizonte, 2008.

SPINETOLI, Ortensio. Introduzione ai vangeli dell’infanzia. Brescia: Paidéia, 1967.



[i] O artigo é uma síntese do primeiro capítulo (A infância de Jesus em questão, p. 12-31) da Dissertação de Mestrado “O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52”, defendida junto à Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE / 2008 e orientada pelo prof. Dr. Johan Konings, com o apoio da CAPES – PROEX. A dissertação está disponível em: <https://www.faculdadejesuita.edu.br/dissertacoes-teologia-437/-o-cristo-pos-pascal-na-narrativa-da-infancia-um-estudo-de-lc-2-41-52--04092017-224410>. Foi apresentado em conferência no II Colóquio de Literatura, História e Ciências da Religião, Fortaleza-Ce, outubro de 2013.

[ii] Embora muitos estudiosos usem a expressão “Evangelho da Infância”, fizemos a opção por empregar a denominação “Narrativa da Infância” ou “Relato da Infância” por razão de clareza, com o objetivo de afirmar que esse trecho é parte integrante do Evangelho de Lucas.

[iii] “O que atinge subitamente o leitor de Lc 1–2 é o tom familiar (“Havia no tempo do rei Herodes”), a ausência, ou quase, de contornos histórico-topográficos, o maravilhoso que aparece com frequência insólita no resto do evangelho, a simetria impecável das partes singulares ou cenas, a sincronização dos vários elementos que as compõem (contos, diálogos, hinos), as citações e a abundância de semitismos, as imitações escriturísticas, a diferença com o texto ‘paralelo’ de Mateus 1–2 etc.” [tradução nossa].

[iv] O desenvolvimento da cristologia que apresentamos refere-se somente ao período da formação das Escrituras neotestamentárias. Toda a reflexão cristológica posterior procurou explicitar em novos contextos e categorias o que já fora compreendido e elaborado nos escritos do Novo Testamento.

[v] No livro dos Atos dos Apóstolos aparecem fórmulas do querigma primitivo: At 2,23.32; 3,14-15; 4,10; 10, 39- 40; e também em 1Cor 15,3-4.



Ir. Márcia Eloi Rodrigues é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Atualmente leciona Sagrada Escritura no Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina-MG.



quinta-feira, 9 de julho de 2020

“A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4,12)


15º Domingo do Tempo Comum - Ano A


Durante toda a história da humanidade, a maioria das vezes, o ser humano preferiu ignorar a vontade de Deus, deixando de acolher a revelação direcionada a todos sem qualquer acepção de pessoa. Este é o antigo escândalo, e é o escândalo moderno: muitos preferem não ver, porque estão muito focados em si mesmos, no poder, no dinheiro, nas vantagens pessoais, nas coisas triviais. Mesmo respeitando o livre arbítrio do ser humano, Deus faz a sua obra. A eficácia de sua palavra é irreversível. Pode haver atrasos, pode haver displicência, mas sua palavra terminará por fazer acontecer o mundo vindouro. Porque é palavra de Deus, viva e eficaz, realiza uma obra divina que o ser humano não pode impedir que aconteça.

É nesse sentido que Jesus oferece sua palavra ao mundo; a semente é semeada em todo tipo de terreno (Mt 13,1-23). Sua palavra é a base da comunhão entre aqueles que se deixam transformar por Deus. Jesus dá a sua palavra a todos, mas, por várias razões, ela não é aceita por alguns. Os que a acolhem  não o fazem pela força de nenhum argumento racional, mas pela profundidade de um estilo de vida totalmente transformada, vivida a partir de outros valores.

A citação do texto de Is 6,9-13 nos faz pensar sobre a situação daqueles que recusam a palavra de Deus, que é o próprio Jesus. Recusam- se a entender porque preferem sua mentira em vez da verdade de Deus. Tendo os olhos e ouvidos fechados, não aceitam o perdão que Deus lhes oferece por meio de Jesus. Mas não estamos falando sobre ateus, afinal os discípulos que ouviram a parábola do semeador também não a entenderam. Estamos falando de uma multidão de pessoas que se dizem religiosas, cristãs, e oferecem um terreno ruim para a boa semente plantada por Jesus porque se tornam desleais a Deus diante de qualquer perseguição, porque estão fascinadas pelas riquezas e ocupadas com o que é trivial, coisas próprias deste mundo. Não se trata, portanto, de ateísmo; trata-se de fé superficial que não produz frutos.

Quem acolhe a palavra produz frutos, porque ela é como a semente, possui uma força irreversível para frutificar. Produz frutos para o reino de Deus, que foi instaurado por Jesus e se plenificará no fim dos tempos. “Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque veem; e os vossos ouvidos, porque ouvem” (v. 16). Quer dizer, bem-aventurado quem se abre para a obra que Jesus deseja fazer nos corações através de sua palavra. Basta desistirmos de ser cegos e veremos o que Deus está fazendo; basta que recusemos o fechamento dos ouvidos para ouvir a vontade de Deus para nós e para a época atual; basta que abramos o coração e ofertemos um bom terreno à semeadura de Jesus, e a palavra em nós produzirá seus frutos, e Deus curará nosso mundo da violência, da intolerância, da ganância e de todos os males que deixam nosso espírito enfermo.

Muitas pessoas não acolhem a palavra de Jesus porque estão decepcionadas com o péssimo testemunho que as religiões, de uma maneira geral, têm dado ao longo da história. Houve uma época em Israel em que o povo estava cansado de ouvir profecias triunfalistas, estava impaciente, cheio de dúvidas, com crise de fé e desconfiança na palavra de Deus. As profecias pareciam receitas mágicas para soluções de problemas, havia a promessa de que Deus os tiraria do exílio, mas a cada dia que passava isso parecia impossível. A profecia de Isaías (Is 55,10-11) retrata isso. Era um contexto no qual o povo passava por todas essas dúvidas e questionamentos porque não entendia o modo como Deus agia.

O texto de Is 55,10-11 garante que a mensagem profética, ou seja, a palavra que saiu de Deus, teria resultados concretos. Nada escapa aos cuidados de Deus, e suas mais incompreensíveis decisões têm um sentido. O profeta tinha consciência de que a palavra de Deus não é neutra e não pode ficar sem produzir efeito. Isso tem sido assim ao longo da história, a qual pode ser narrada à luz da presença profunda e onipotente da palavra de Deus, manifestada em tantas vidas humanas.

A comparação da palavra com a chuva foi muito oportuna porque fez os ouvintes daquele tempo pensarem na terra prometida: era uma região cheia de desertos, mas quando caíam as primeiras chuvas, brotavam pequenas flores coloridas em todos os lugares e ainda hoje acontece dessa forma. É impossível não notar esse fenômeno em Israel; da mesma forma, é impossível não notarmos a ação da palavra de Deus e sua eficácia.

O contexto de desconfiança na palavra de Deus, na religião, e em Deus mesmo, não era algo que acontecia somente no antigo Israel, no ambiente do exílio da Babilônia no século VI aC, o mesmo se dava no contexto do ministério de Jesus e no ambiente da Igreja nascente, é o que mostra o texto de Rm 8,18-23. Essa passagem bíblica é sobre o mistério do Reino, do mundo novo que o evangelho veio nos trazer.

Não é onde se aprendem mais teorias que melhor se compreende o evangelho, mas onde a palavra de Deus, anunciada por Jesus, é aceita. Isto é, o poder de Cristo e do evangelho se mostra quando cada pessoa, livremente, se deixa transformar pelo amor gratuito de Deus. Quanto mais pessoas aderirem, verdadeiramente e não superficialmente, a Jesus, mais o mundo se transforma e o reino de Deus se plenifica.

A recusa à palavra de Deus, que Jesus veio anunciar, deixa o mundo debaixo do pecado, ou seja, sob o poder do ódio, da intolerância, da exploração de pessoas e da natureza. O mundo inteiro fica enfermo, torna-se um lugar insuportável para viver.

Por isso, Paulo afirma que a criação inteira espera ansiosamente pela conversão, pela transformação dos corações, para que este mundo se torne um ambiente de fraternidade, de acolhida ao outro, de respeito e de cuidado dispensado às criaturas.

Esse sentimento de desconfiança está presente no contexto atual, mesmo que de forma velada, lá no fundo da alma, ou no inconsciente. E essa desconfiança decorre de uma compreensão errônea sobre o modo como Deus age na história. As pessoas esperam que Deus lhes dê uma solução extraordinária e instantânea para seus problemas. Pois muitas vezes os discursos religiosos prometeram isso, e continuam prometendo. No entanto, a proposta de Deus, que foi assumida pelos profetas e, de modo pleno, por Jesus, é que a palavra se encarne na vida das pessoas, ou seja, no seu agir cotidiano.

A vida de Jesus e a proposta do evangelho parecem loucura; por isso, muitos pensam que são cristãos, mas de fato não são, porque baseiam a própria vida em “valores” que são contrários aos ensinamentos de Jesus. Somente aqueles que estão no caminho do amor podem entender o significado da cruz, da renúncia que, para o mundo, não faz sentido, porque a norma que move o mundo é o egoísmo.
A verdade do evangelho não é uma teoria neutra, abstrata, um conjunto de doutrinas vazias. A palavra do evangelho é uma força poderosa que exige compromisso de vida e conversão contínua. Não há como ser cristão e ficar em cima do muro, servir ao Deus de Jesus Cristo e servir aos propósitos do mundo, como ganância pelo poder e pelas riquezas, na adesão ao ódio e à intolerância, na recusa de receber e dar perdão e misericórdia.



Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).