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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Dai-lhes vós mesmos de comer!

18º Domingo Comum  - Ano A



O texto de Mt 14,13-21 mostra que Jesus, mesmo quando estava extenuado pelas inúmeras tarefas, nunca deixou de sentir compaixão pelas pessoas. Seu exemplo se torna uma exigência para nós: devemos amar e nos sensibilizar com aqueles que têm fome de alimento material e fome de amor, justiça e paz.

O texto sobre a "primeira multiplicação dos pães" tem início quando Jesus deixa a multidão para ficar à sós. Ele acabara de ouvir sobre a morte de João Batista. Seu desejo de solidão implicava numa necessidade de oração e de reflexão. Mas a multidão não o deixava sozinho e a solução foi retirar-se, com os discípulos, do perímetro das cidades para lugares mais afastados. As multidões, porém, os encontraram. Cheio de compaixão, Jesus curou os enfermos. Então as horas avançaram e os discípulos ficaram preocupados. Pediram a Jesus que despedisse a multidão para que procurassem alimentos nos lugares mais próximos.

Não sejamos ingênuos, a maioria daquelas pessoas não se deslocaria para aquele lugar tão desabitado sem levar algum alimento. É muito provável que a maioria tivesse levado alguma provisão. Principalmente os alimentos básicos daquela região, peixe e pão.

Os discípulos se surpreendem quando Jesus disse: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Parecia uma ordem impossível de ser cumprida e, por isso, fizeram uma objeção. Mas, alguém colocou sua provisão à disposição de Jesus o qual ordenou a todos que se sentassem como era costume nas reuniões de família, separados em grupos de homens, de mulheres, de velhos e de crianças. Dessa forma, os que eram mais fracos tinham prioridade para receber o alimento.

Em seguida, Jesus pegou o pão e o peixe, olhou para o céu e deu graças. Obviamente, o autor do evangelho queria que os leitores fizessem conexões com a Eucaristia. Ao mencionar a postura corporal de Jesus e seus gestos, Mateus sugere que Jesus pronunciou a oração judaica da bênção para o pão: “Bendito sejas tu, Senhor Deus, rei do universo, que nos dá o pão tirado da terra”. Bênção que remete principalmente à ceia pascal. Jesus fez com que seus discípulos distribuíssem o alimento. Todos ficaram saciados e sobram ainda doze cestos. O número doze tinha muitas referências simbólicas e, principalmente, representava as doze tribos de Israel.

Podemos citar aqui três interpretações diferentes desse trecho evangelho, conforme a maioria dos estudiosos da Bíblia.

A primeira é a interpretação literal. Quer dizer que devemos vê-lo como uma simples multiplicação de pães e peixes, algo mágico. E muitas pessoas consideram Jesus como um mágico que realiza milagres para entreter o público, mostrando como é poderoso.

O segundo é a interpretação figurativa. Muitas pessoas veem nesse milagre um símbolo da Eucaristia. A razão disto é a presença dos elementos que podem ser encontrados na liturgia eucarística: pegar o pão, dar graças, partir o pão e entregar aos discípulos. Neste modo de interpretar, não se trata de uma refeição em que as pessoas famintas ficam saciadas, mas de uma refeição em que se alimentam do pão espiritual, a Eucaristia.

Há uma terceira opinião que une as duas primeiras. Imaginemos a seguinte cena. Lá está a multidão. É fim de tarde e eles estão com fome. Faz parte daquela cultura levar provisões para onde quer que fossem. Além disso, a multidão sabia para onde Jesus estava indo (que era lugar desabitado), tanto que chegou lá antes dele. Mesmo assim nem todos devem ter levado alimento consigo.

Quando a noite se aproximou, as pessoas sentiram fome. E ninguém queria partilhar o próprio alimento porque em regiões desérticas a sobrevivência está em primeiro lugar, e partilhar água e alimento é muito arriscado. Aquelas pessoas ficaram com medo de partilhar porque, se o fizessem, nada restaria para si mesmas. Mas Jesus tomou a iniciativa com um convite. Então todos começaram a abrir suas provisões, compartilhar o que tinham e, antes que percebessem, havia comida mais do que suficiente para todos.

Se foi isso que aconteceu, então, não foi só um milagre da multiplicação de pães e peixes, mas foi um milagre da transformação de pessoas egoístas em pessoas generosas. Foi o milagre do nascimento do amor nos corações temerosos. Nesse caso esse acontecimento também é um sinal da Eucaristia que transforma as pessoas em um só corpo, o Corpo místico de Cristo, que é a Igreja.

Em todo caso a alimentação da multidão nunca deve ser tomada como prova do poder de Jesus. A ênfase do texto é na compaixão que Jesus teve pelas pessoas, na providência amorosa de Deus para com suas criaturas, na dimensão da partilha que foi realizada e na ordem de Jesus para que seus discípulos dessem alimento aos famintos.

Por que os discípulos não pensaram em compartilhar sua provisão com a multidão? Será que eles não se importavam com o bem-estar das pessoas? Sim, eles se importavam e desejavam o melhor para a multidão. Mas, provavelmente, eles estavam simplesmente sendo realistas e práticos. Vamos ser sinceros: cinco pães e dois peixes não é nada diante de uma multidão faminta. No entanto, eles deveriam ter dado o exemplo do desapego, eles deveriam ter tomado uma atitude mais concreta porque se eram realista deveriam saber que aquela multidão não encontraria alimento suficiente nos arredores. Os discípulos transferiram o problema para Jesus. Era melhor ficar distante dos famintos. Mas Jesus devolveu o problema para eles.

Semelhante aos discípulos, desejamos o bem às pessoas, mas nem sempre temos intenção de realizar ações positivas para ajudar a amenizar a situação. E, novamente como os discípulos, o que nos impede de agir é, frequentemente, uma avaliação realista de que o pouco que podemos fazer não fará realmente nenhuma diferença. Deus é capaz e está disposto a saciar todos os tipos de fome. Mas Deus está esperando homens e mulheres que acreditam nele o suficiente para abrir mão de seus “cinco pães e dois peixes”, com os quais Deus tornará possível o milagre da multiplicação.

É aqui que vem em nosso auxílio o texto de Is 55,1-3. Em seu contexto original, essa passagem foi escrita para encorajar pessoas muito desanimadas. O bloco inteiro dos capítulos 40-55 de Isaías registra as profecias do final do exílio babilônico, quando os judeus tiveram permissão para regressar a uma terra devastada, o antigo reino de Judá.

O Profeta Isaías estava se dirigindo a pessoas cujos ancestrais tiveram uma forte experiência com Deus. No entanto, aquelas pessoas se afastaram de Deus, apesar dessas experiências. Mas Deus as convidou a terem intimidade com ele através do simbolismo de um banquete no qual se pode usufruir da melhor comida sem ter que pagar nada por ela, somente por pura gratuidade daquele Pai amoroso que deseja saciar nossa fome de amor, que deseja preencher nosso vazio existencial.

No tempo do autor, a elite de Jerusalém vivia no exílio na Babilônia, até que Ciro, o rei persa, conquistou o império babilônico e devolveu os judeus à sua terra natal, a Judeia. Mas alguns dos exilados já consideravam a Babilônia como sua pátria e não queriam se arriscar a abandonar tudo que haviam conquistado para voltar à terra dos antepassados. Ao mesmo tempo, outros duvidavam da possibilidade do retorno. Então um mal-estar geral se instalou sobre os judeus naquela ocasião. Para animar a ambos,  o capítulo cinquenta e cinco, promete alívio material e espiritual.

O texto fala sobre água em abundância, cereais, leite, vinho e pão. Menciona uma renovação da aliança que Deus havia feito com o rei Davi e com os ancestrais do povo. Enfim, há um convite de Deus aos exilados para participarem de um banquete onde nada é pago e os alimentos são as melhores iguarias daquela época e cultura.

Esse simbolismo do banquete tornava-se, nos ouvidos povo, um lembrete reconfortante sobre os bons e velhos tempos quando seus antepassados viviam na terra prometida. Essas palavras davam esperança e serviam para impedir que o povo perdesse a fé em Deus. O tempo do exílio havia sido considerado pelos exilados como um tempo de penitência porque acreditavam que estavam pagando pelo pecado de idolatria praticada quando estavam na terra prometida. O convite de Deus para um banquete era tranquilizador. Era uma maneira sutil de dizer que eles não precisavam pagar nada, que Deus estava agindo com misericórdia para com eles, apesar de não serem merecedores. O convite soa magnânimo, Deus como um anfitrião entusiasmado, orgulhoso de suas iguarias finas, recebendo convidados muito amados e há muito aguardados.

Como o convite de Deus foi compreendido pelos exilados? Para os judeus, o céu na terra  era a cidade de Jerusalém. A reconstrução da cidade daria ao povo um renovado sentido de identidade nacional como povo consagrado ao Senhor. Em Jerusalém estava o lugar para ouvir a palavra de Deus, proclamar e renovar a aliança, o Templo, o lugar da habitação divina. A cidade e seus monumentos tornavam tangível o convite à intimidade com Deus. As pessoas só precisavam responder ao chamado de retorno à terra natal. A reconstrução da cidade iria proporcionar a renovação nacional.

Esse convite à união com Deus permanece sempre atual e é feito para todas as pessoas. A intimidade com Deus preenche uma profunda necessidade comum a todos os seres humanos. Pois, fomos feitos para Deus. Sem ele, estamos incompletos. Com ele nos realizamos verdadeiramente.

É por isso que o texto de Rm 8,35.37-39 nos assegura que nada pode nos separar do amor de Cristo. Podemos pessoalmente rejeitar esse amor, mas Cristo continua a nos amar.  Muitas pessoas passam grande parte de suas vidas rejeitando esse amor até que reconhecem sua fome espiritual e começam a aceitá-lo, pelo menos de forma um pouco mais consciente.

Os primeiros capítulos da Carta de Paulo aos Romanos versam sobre o que é necessário para estar em aliança com Deus. Os primeiros destinatários da carta estavam divididos sobre essa questão. Alguns, embora reconhecessem a importância de Jesus, insistiam que, para serem salvos, era necessário observar a Lei de Moisés. Paulo, por outro lado, insistia que os gentios convertidos ao cristianismo não tinham obrigação nenhuma de praticar a Lei de Moisés, embora os judeus convertidos pudessem fazê-lo se quisessem. E Paulo provou isso com muitos argumentos teológicos complexos e profundos.

Então chegamos a Rm 8,35.37-39 que parece abordar uma questão implícita: “Se Deus nos ama tanto a ponto de nos salvar pela graça imerecida, por que tudo ainda é tão difícil para nós? Por que sofremos?” Essa passagem da Carta aos Romanos é um resumo da resposta de Paulo.

Há uma conexão entre os sofrimentos de Cristo e os sofrimentos dos primeiros cristãos, especificamente os sofrimentos do próprio apóstolo. Se as provações pelas quais Paulo passou não conseguiram diminuir sua fé nem seu compromisso com a evangelização do mundo, o que poderia então separá-lo de Deus? E, por extensão, o que poderia separar os cristãos de seu Salvador?

Para responder essas questões, Paulo abordou a totalidade das experiências humanas e tudo que era temido pelas pessoas naquele tempo: vida e morte, anjos, seres celestiais e demônios; o futuro incerto e os cataclismas provocados pela natureza e pelas guerras.

Paulo estava convencido de que nada no universo poderia nos separar do amor de Deus, dado a nós por meio de seu Filho. Paulo inferiu que nosso lugar na criação estava acima de todos os poderes que, de alguma forma, nos afetam dentro da criação e da história. Em outras palavras, nosso lugar com Deus é íntimo e eterno, pois nossa jornada neste mundo é temporária, um dia estaremos com Jesus para sempre.

O que divide os fracos dos fortes é o compromisso. A teimosia do verdadeiro seguidor de Cristo tem muito mais poder de perseverança do que a busca de vantagens pessoais momentâneas. Para o apóstolo, a fé era o compromisso decisivo, pois assegurava a intimidade com Deus para além da morte. Se o objetivo é a vida eterna, todo o resto fica empalidecido em comparação com ela. Os sofrimentos da vida, as necessidades e até a ameaça de morte não podem parar o verdadeiro seguidor do Cristo.

As limitações da vida e a morte, eventos presentes e futuros, poderes da terra e do mundo espiritual, e até mesmo o próprio universo, nada disso poderia impedir o amor de Deus pela humanidade. O lugar de todos que confiam em Deus é estar em sua presença eterna. A fé nos convence desse fato.

Paulo estava certo: a fé é o compromisso último, é o compromisso por excelência. É uma orientação para além desta vida. Enquanto se permanece nesse compromisso, é fácil confiar no amor de Deus pelo por si e por todos. Amor infalível é amor inabalável.

Quando amamos, oferecemos tudo o que somos. O amor verdadeiro aceita o que é imperfeito. Assumimos grandes riscos quando amamos. Exemplo disso é o amor de pai e de mãe por seus filhos, quando o ser humano realmente vive a paternidade e a maternidade. Quando as pessoas são realmente pai e mãe, não desistem nunca de seus filhos.

O amor humano é forte, mas outras forças podem esfriar o amor e ele pode se apagar. Não é assim com Cristo, seu amor permanece perfeito e dura para sempre, não importa como nosso coração esteja. Às vezes, não amamos a Deus o suficiente, mas o amor de Deus por nós nunca diminui.

Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

quinta-feira, 9 de julho de 2020

“A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4,12)


15º Domingo do Tempo Comum - Ano A


Durante toda a história da humanidade, a maioria das vezes, o ser humano preferiu ignorar a vontade de Deus, deixando de acolher a revelação direcionada a todos sem qualquer acepção de pessoa. Este é o antigo escândalo, e é o escândalo moderno: muitos preferem não ver, porque estão muito focados em si mesmos, no poder, no dinheiro, nas vantagens pessoais, nas coisas triviais. Mesmo respeitando o livre arbítrio do ser humano, Deus faz a sua obra. A eficácia de sua palavra é irreversível. Pode haver atrasos, pode haver displicência, mas sua palavra terminará por fazer acontecer o mundo vindouro. Porque é palavra de Deus, viva e eficaz, realiza uma obra divina que o ser humano não pode impedir que aconteça.

É nesse sentido que Jesus oferece sua palavra ao mundo; a semente é semeada em todo tipo de terreno (Mt 13,1-23). Sua palavra é a base da comunhão entre aqueles que se deixam transformar por Deus. Jesus dá a sua palavra a todos, mas, por várias razões, ela não é aceita por alguns. Os que a acolhem  não o fazem pela força de nenhum argumento racional, mas pela profundidade de um estilo de vida totalmente transformada, vivida a partir de outros valores.

A citação do texto de Is 6,9-13 nos faz pensar sobre a situação daqueles que recusam a palavra de Deus, que é o próprio Jesus. Recusam- se a entender porque preferem sua mentira em vez da verdade de Deus. Tendo os olhos e ouvidos fechados, não aceitam o perdão que Deus lhes oferece por meio de Jesus. Mas não estamos falando sobre ateus, afinal os discípulos que ouviram a parábola do semeador também não a entenderam. Estamos falando de uma multidão de pessoas que se dizem religiosas, cristãs, e oferecem um terreno ruim para a boa semente plantada por Jesus porque se tornam desleais a Deus diante de qualquer perseguição, porque estão fascinadas pelas riquezas e ocupadas com o que é trivial, coisas próprias deste mundo. Não se trata, portanto, de ateísmo; trata-se de fé superficial que não produz frutos.

Quem acolhe a palavra produz frutos, porque ela é como a semente, possui uma força irreversível para frutificar. Produz frutos para o reino de Deus, que foi instaurado por Jesus e se plenificará no fim dos tempos. “Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque veem; e os vossos ouvidos, porque ouvem” (v. 16). Quer dizer, bem-aventurado quem se abre para a obra que Jesus deseja fazer nos corações através de sua palavra. Basta desistirmos de ser cegos e veremos o que Deus está fazendo; basta que recusemos o fechamento dos ouvidos para ouvir a vontade de Deus para nós e para a época atual; basta que abramos o coração e ofertemos um bom terreno à semeadura de Jesus, e a palavra em nós produzirá seus frutos, e Deus curará nosso mundo da violência, da intolerância, da ganância e de todos os males que deixam nosso espírito enfermo.

Muitas pessoas não acolhem a palavra de Jesus porque estão decepcionadas com o péssimo testemunho que as religiões, de uma maneira geral, têm dado ao longo da história. Houve uma época em Israel em que o povo estava cansado de ouvir profecias triunfalistas, estava impaciente, cheio de dúvidas, com crise de fé e desconfiança na palavra de Deus. As profecias pareciam receitas mágicas para soluções de problemas, havia a promessa de que Deus os tiraria do exílio, mas a cada dia que passava isso parecia impossível. A profecia de Isaías (Is 55,10-11) retrata isso. Era um contexto no qual o povo passava por todas essas dúvidas e questionamentos porque não entendia o modo como Deus agia.

O texto de Is 55,10-11 garante que a mensagem profética, ou seja, a palavra que saiu de Deus, teria resultados concretos. Nada escapa aos cuidados de Deus, e suas mais incompreensíveis decisões têm um sentido. O profeta tinha consciência de que a palavra de Deus não é neutra e não pode ficar sem produzir efeito. Isso tem sido assim ao longo da história, a qual pode ser narrada à luz da presença profunda e onipotente da palavra de Deus, manifestada em tantas vidas humanas.

A comparação da palavra com a chuva foi muito oportuna porque fez os ouvintes daquele tempo pensarem na terra prometida: era uma região cheia de desertos, mas quando caíam as primeiras chuvas, brotavam pequenas flores coloridas em todos os lugares e ainda hoje acontece dessa forma. É impossível não notar esse fenômeno em Israel; da mesma forma, é impossível não notarmos a ação da palavra de Deus e sua eficácia.

O contexto de desconfiança na palavra de Deus, na religião, e em Deus mesmo, não era algo que acontecia somente no antigo Israel, no ambiente do exílio da Babilônia no século VI aC, o mesmo se dava no contexto do ministério de Jesus e no ambiente da Igreja nascente, é o que mostra o texto de Rm 8,18-23. Essa passagem bíblica é sobre o mistério do Reino, do mundo novo que o evangelho veio nos trazer.

Não é onde se aprendem mais teorias que melhor se compreende o evangelho, mas onde a palavra de Deus, anunciada por Jesus, é aceita. Isto é, o poder de Cristo e do evangelho se mostra quando cada pessoa, livremente, se deixa transformar pelo amor gratuito de Deus. Quanto mais pessoas aderirem, verdadeiramente e não superficialmente, a Jesus, mais o mundo se transforma e o reino de Deus se plenifica.

A recusa à palavra de Deus, que Jesus veio anunciar, deixa o mundo debaixo do pecado, ou seja, sob o poder do ódio, da intolerância, da exploração de pessoas e da natureza. O mundo inteiro fica enfermo, torna-se um lugar insuportável para viver.

Por isso, Paulo afirma que a criação inteira espera ansiosamente pela conversão, pela transformação dos corações, para que este mundo se torne um ambiente de fraternidade, de acolhida ao outro, de respeito e de cuidado dispensado às criaturas.

Esse sentimento de desconfiança está presente no contexto atual, mesmo que de forma velada, lá no fundo da alma, ou no inconsciente. E essa desconfiança decorre de uma compreensão errônea sobre o modo como Deus age na história. As pessoas esperam que Deus lhes dê uma solução extraordinária e instantânea para seus problemas. Pois muitas vezes os discursos religiosos prometeram isso, e continuam prometendo. No entanto, a proposta de Deus, que foi assumida pelos profetas e, de modo pleno, por Jesus, é que a palavra se encarne na vida das pessoas, ou seja, no seu agir cotidiano.

A vida de Jesus e a proposta do evangelho parecem loucura; por isso, muitos pensam que são cristãos, mas de fato não são, porque baseiam a própria vida em “valores” que são contrários aos ensinamentos de Jesus. Somente aqueles que estão no caminho do amor podem entender o significado da cruz, da renúncia que, para o mundo, não faz sentido, porque a norma que move o mundo é o egoísmo.
A verdade do evangelho não é uma teoria neutra, abstrata, um conjunto de doutrinas vazias. A palavra do evangelho é uma força poderosa que exige compromisso de vida e conversão contínua. Não há como ser cristão e ficar em cima do muro, servir ao Deus de Jesus Cristo e servir aos propósitos do mundo, como ganância pelo poder e pelas riquezas, na adesão ao ódio e à intolerância, na recusa de receber e dar perdão e misericórdia.



Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

“Altíssimo é o Senhor, mas olha os pobres” (Sl 137,6)

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*  

Roteiro Homilético para 21º Domingo do Tempo Comum


I. Introdução geral
Nas leituras de hoje está em foco a identidade de Jesus e de seu Pai. Como nos relacionamos com Deus? O que sabemos sobre ele? É um Deus castigador, preocupado em favorecer alguns em prejuízo de outros? Quem é Jesus? É alguém que barganha comigo, que quer o meu dinheiro em troca de milagres? É alguém que atende aos meus pedidos porque estou engajado na Igreja e que deixa pessoas de outras religiões morrerem por causa da fome, da guerra e da violência?

Hoje, mais do que antes, devemos perguntar quem é Jesus. E a resposta a essa pergunta não pode ser dada a partir de fórmulas decoradas. A resposta sobre a identidade de Jesus, e do Deus Uno e Trino, tem de ser uma resposta prática, não teórica. A minha vida deve dizer quem é Cristo para mim. Somente a vivência da fé, desde o mais íntimo do coração, até se traduzir em doação e serviço ao próximo, pode mostrar o que significa, para mim, Jesus como manifestação de Deus. Somente quando nos identificarmos com Jesus, termos para com o Pai a mesma atitude que ele teve e nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo é que poderemos compreender quem é Jesus.

II. Comentário dos textos bíblicos
1. Evangelho (Mt 16,13-20): eu te darei as chaves do Reino
O trecho do evangelho nos diz que Jesus se retirou com os discípulos para um território pagão. Com essa atitude, ele quer demonstrar a missão de Jesus estendida a todos os povos. É necessário que os discípulos saibam com clareza quem é Jesus e qual missão ele veio realizar, porque os discípulos serão os continuadores de Jesus.

A pergunta “quem dizem que eu sou?” trouxe uma diversidade de respostas da opinião popular que foram ouvidas pelos discípulos ao longo do ministério público de Jesus. As pessoas demonstram respeito e gratidão para com a pessoa de Jesus, mas compreendem a identidade dele a partir do Antigo Testamento, como um grande profeta, e não se dão conta da novidade que ele veio trazer.

Os discípulos, representados por Pedro, dão um passo além na interpretação da vida de Jesus. Ele é o Messias ou o Cristo, mas os discípulos têm ainda uma concepção nacionalista e triunfante sobre o Messias. À primeira vista, Pedro respondeu de maneira acertada à pergunta de Jesus, mas, assim como o povo, não percebe nenhuma novidade a respeito da forma como Jesus vive a messianidade. A resposta que Pedro deu é a resposta dos discípulos, que disseram o mesmo ao ver Jesus andar sobre as águas (Mt 14,33).

Aqui encontramos pela primeira vez nos evangelhos o termo “Igreja” para designar a comunidade cristã, porque a Igreja é alicerçada na pedra que é a confissão de fé feita por Pedro e pelos discípulos. Aqui surge a Igreja como comunidade que professa a fé em Jesus, o Cristo, o Filho de Deus.

Por isso Pedro recebe as chaves, quer dizer, recebe o serviço de agir como um pai que em tudo procura o bem dos filhos, um pai que age à maneira do Pai de Jesus. Dessa forma, sobre a base firme e irremovível da confissão de fé, sobre a qual se edifica a Igreja, Pedro recebe o encargo de cuidar da casa e fazer com que todos os povos sejam acolhidos nessa família espiritual de Jesus.

2. I leitura (Is 22,19-23): a chave da casa de Davi
A primeira leitura refere-se a um episódio da vida do palácio real no Reino de Judá. Um alto funcionário detentor “das chaves do palácio”, quer dizer, que tem encargo de administração, é substituído nas suas funções. Esse episódio mostra a função do mordomo do palácio: em seu poder estão as chaves do palácio real; ele decide a quem ajudar com os bens do soberano e define quem é atendido em audiência pelo rei. Mas aquele que possui “as chaves” do palácio foi demitido de suas funções, despojado das insígnias de sua autoridade (a túnica e a chave do palácio). Foi destituído de suas funções porque esqueceu que autoridade é serviço, que estava nessa função para que todos pudessem ficar bem, ter a partilha, os bens que supririam necessidades básicas e o acesso à justiça.

Essa leitura nos ajuda a entender a passagem do evangelho na qual Jesus dá a Pedro as chaves do reino de Deus.

3. II leitura (Rm 11,33-36): “Tudo é dele, por ele e para ele” (Rm 11,36)
Na segunda leitura, Paulo nos encanta com um belo hino de louvor, no qual o Apóstolo adora a Deus, reconhecendo quão misterioso é o projeto divino da salvação. Após refletir sobre o projeto salvífico, Paulo chega à conclusão de que os desígnios misteriosos de Deus ultrapassam a capacidade humana de compreensão. Deus é desconcertante, a lógica divina é completamente diferente da lógica humana. Nesse sentido é que o verdadeiro cristão é aquele que, mesmo sem entender o alcance do projeto de Deus, se abandona confiantemente em suas mãos.

Mas esse abandono confiante somente é possível quando conhecemos, por experiência de vida, que Deus é um Pai amoroso, quando não nos fechamos no orgulho e na autossuficiência e acolhemos, com gratidão, os seus dons. Sem termos experimentado um pouco que seja da identidade de Deus, não teremos coragem de nos abandonarmos em suas mãos para ter a vida e a morte que ele quiser para nós.

III. Pistas para reflexão
Ser cristão significa responder à pergunta de Jesus quanto à identidade dele. Uma resposta que não seja dada de maneira teórica, pois é insuficiente, mas uma resposta com atitudes de vida que ele exige de mim hoje.

A resposta correta acerca de “quem é Jesus” somente será possível quando eu descobrir em Jesus a presença de um Deus misericordioso e quando eu fizer com que as demais pessoas descubram, em meu modo de viver o cristianismo, a identidade de Jesus. Essa é a tarefa primordial do cristão.

A comunidade celebrante deve ser exortada a tomar cuidado com as noções de Deus que são apresentadas às pessoas – isso pode afastá-las mais que aproximá-las de Deus. Nossa grande tentação é fazer Deus parecido conosco, ranzinza como nós somos, justiceiro e vingativo como gostamos de ser. Deus não se encaixa em teorias ou padrões humanos, não age conforme nossa lógica. Ele é o Altíssimo que se abaixa até o pobre e o tira do monturo (Sl 113,7).

O cristão não é aquele que “sabe” tudo sobre Deus, mas aquele que sabe que jamais será desamparado por Deus e se entrega confiantemente nas mãos dele.

Publicado originalmente em: http://www.vidapastoral.com.br/roteiros/21o-domingo-do-tempo-comum-27-de-agosto/

* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).