segunda-feira, 20 de julho de 2020

O relato da infância de Jesus na teologia lucana



Na postagem anterior (2ª), refletimos sobre a questão a historicidade do Relato da Infância segundo Lucas (1–2). Percebemos que a pesquisa bíblica se centrou, durante muito tempo, na natureza do Relato da Infância, procurando comprovar sua historicidade em contraposição à total negação desse aspecto. A grande preocupação com as fontes empregadas por Lucas, para compor seu relato, acarretou na fragmentação Narrativa da Infância em busca das evidências históricas, causando um esvaziamento do sentido teológico ao se prender em demasia nos detalhes e esquecer a visão de conjunto.

Sem descuidar o aspecto histórico, importante para a superação de uma visão ingênua do Relato da Infância, o grande passo dado pela pesquisa bíblica aconteceu quando a mesma passou a centrar sua atenção ao aspecto teológico desse Relato.

Nessa perspectiva, refletiremos sobre o Relato da Infância (Lc 1–2) como cristologia pós-pascal, a partir de dois pontos importantes: a Narrativa da Infância no contexto da teologia lucana e a função que ocupa no Evangelho segundo Lucas[1].

A Narrativa da Infância faz parte da teologia lucana?

A partir da proposta de considerar a cristologia presente no Relato da Infância à luz da obra lucana em sua integralidade, o estudo se depara com a problemática da relação existente entre essa Narrativa e o Evangelho lucano.

Segundo Raymond E. Brown (1982, p. 246), Hans Conzelmann, o mais famoso analista moderno da teologia lucana, ignora praticamente a Narrativa da Infância por considerá-la diferente do pensamento do Evangelho e dos Atos dos Apóstolos, e inclusive contrária a estes. A postura de Conzelmann se faz perceber na sua obra clássica Die Mitte der Zeit (O Centro do Tempo), onde apresenta a teologia lucana a partir da análise do Evangelho, prescindindo do Relato da Infância[2]. A justificativa dada por alguns expoentes do pensamento de Conzelmann é que a figura de João Batista veiculada na Infância não corresponde àquela do restante da obra lucana.

Diante desse impasse, procuramos estudar a tese de Conzelmann e descobrimos que a controvérsia sobre a figura de João Batista não é o principal motivo pelo qual este autor descartou a Infância. Segundo ele a teologia da Infância não corresponde àquela explicitada no restante da obra. Através de uma teologia histórico-salvífica tripartida, Conzelmann define o Evangelho como tempo de salvação. Os atos e as palavras de Jesus constituem o typos ao qual o discípulo deve configurar-se. Desse modo, Conzelmann propõe fundamentar a missão da Igreja na atuação de Jesus. Esse autor define a arché de Jesus como o início do ministério na Galileia, seu ministério público (cf. At 1,1). Sua atuação se configura como imagem da salvação atemporal, que fundamenta a arché da Igreja.

Em suma, podemos dizer que o fundamento principal para a exclusão do Relato da Infância, ao tratar da teologia lucana, não é tanto a figura do Batista, embora esta esteja em função da delimitação das épocas, mas o sentido de arché, que Hans Conzelmann atribui ao ministério de Jesus na Galileia (CONZELMANN, 1974, p. 43)[3]. Nessa perspectiva, o Relato da Infância não se enquadra na teoria de Conzelmann. Mas será válido, em nome de uma tese, deixar de lado um relato que na tradição foi reconhecido como evangelho? O estudo da teologia lucana não poderia prescindir de uma parte da obra. Assim, alguns estudiosos tentaram compreender a teologia da Narrativa da Infância levando em consideração seu lugar no Evangelho.

A Narrativa da Infância como mini evangelho

O novo enfoque que os especialistas deram ao tentar recuperar o valor dos relatos da infância como teologia abriu novos horizontes na pesquisa bíblica sobre a infância. Muitos são os métodos empregados. Mas todos estão direcionados na tentativa de descobrir o papel que o Relato da Infância desempenha no interior do Evangelho.

Segundo Heinz Schürmann (1983, p. 99), determinar a função de Lc 12 no interior do Evangelho ajuda na compreensão teológica dessa narrativa. Muitas são as denominações dadas a esse bloco: prelúdio, pré-história, preâmbulo, introdução etc. Mas qual a função desses dois primeiros capítulos no Evangelho lucano? Por que Lucas antepôs ao relato do ministério de Jesus a narrativa de sua concepção e nascimento?

Segundo Rinaldo Fabris (1992, p. 27), o interesse central da Narrativa da Infância é “querigmático”, visa anunciar Jesus Cristo aos que abraçaram a fé. O vértice desse anúncio é a mensagem contida em Lc 2,11: “hoje nasceu para vós um Salvador, o Cristo Senhor”. Os hinos têm o objetivo de fazer a comunidade refletir no que foi narrado e interiorizar a mensagem que transparece nos acontecimentos. Esses relatos antecipam a “boa nova” da presença salvífica de Deus em Jesus Cristo, e, por isso, constituem um prelúdio do Evangelho (Ibid.).

François Bovon (1995, p. 71) também concorda que os dois primeiros capítulos do Evangelho se configuram como preâmbulo. A vida e o destino do Messias são preanunciados nesses dois primeiros capítulos.

Robert J. Karris (1997, p. 885) afirma que a infância deve ser vista como introdução ao Evangelho, pois nele apoiam-se os principais temas lucanos, sobretudo aquele da fidelidade de Deus à promessa[4].

Segundo Raymond E. Brown (1982, p. 245), Lc 12 apresenta-se como transição entre os tempos de Israel e de Jesus. Nesse sentido, ele procura corrigir a concepção de Hans Conzelmann, que não considera esse trecho parte integrante da teologia lucana, por se tratar de pré-história de Jesus, e não de sua atuação pública[5].

Muito mais que uma introdução ao Evangelho ou transição entre os tempos salvíficos, a Narrativa da Infância deve ser vista como um mini evangelho, pois a cristologia lucana, desenvolvida ao longo de Lucas-Atos, e a temática da universalidade da salvação estão condensadas nessas primeiras páginas do Evangelho, de modo que o leitor possa ver antecipadamente a imagem de Jesus, Messias e Filho de Deus e sua função de Salvador no projeto histórico-salvífico.

Robert J. Karris (1997, p. 885) afirma que “esta introdução é evangelho enquanto propõe suscitar nos leitores uma confissão de fé mais intensa em Deus como Deus fiel e digno de confiança, e em Jesus como Cristo e Salvador, Filho de Deus”.

Em seu conjunto, Lc 12 antecipa o esquema literário-teológico do Evangelho de Lucas. A peregrinação Nazaré-Jerusalém que aparece no Relato da Infância antecede o ministério de Jesus. Este tem seu início programático em Nazaré, mas depois, Jerusalém polarizará a atenção do leitor, como lugar onde se cumpre a Páscoa e de onde começa a vida da Igreja, ponto de partida para sua abertura aos gentios (ESCUDERO FREIRE, 1978, p. 40-41).

Com o Relato da Infância, a “vinda” de Jesus, que era associada à sua atuação ministerial, é pensada desde sua origem em Deus, como realização das promessas veterotestamentárias (SCHÜRMANN, 1983, p. 99). Toda a revelação cristológica desenvolvida ao longo do Evangelho está presente, em germe, na Narrativa da Infância[6]. Nesta, há um crescendo em torno à revelação da figura de Jesus como Salvador enviado por Deus. A compreensão de quem é Jesus, revelada aos discípulos durante sua caminhada até Jerusalém, encontra na Narrativa da Infância, sua antecipação profética. Deste modo, a narrativa encontra seu ápice no episódio de Jesus aos doze anos, no Templo, sinal profético de sua missão realizada em Jerusalém. Nesse sentido, a Narrativa da Infância pode ser considerada um mini evangelho (FABRIS, 1992, p. 13).

Nesse mini evangelho, Lucas propõe mostrar que a salvação destinada a todas as nações, e não só aos judeus, faz parte do desígnio salvífico de Deus desde a sua origem. Essa temática, que aparecerá no Evangelho e será extensamente desenvolvida nos Atos dos Apóstolos, está presente nos discursos programáticos, de Jesus na Sinagoga de Nazaré e de Pedro na casa de Cornélio. E, de modo prefigurativo, na Narrativa da Infância, onde Jesus é designado “luz para iluminar as nações” (Lc 2,32) e, por isso, “deve estar nas coisas de seu Pai” (Lc 2,49).

Referências

BOVON, François. El evangelio según San Lucas: Lc 1-9. Salamana: Sigueme, 1995.

BROWN, Raymond E. El nacimiento del Mesías: comentario a los relatos de la infancia. Madrid: Cristiandad, 1982.

CONZELMANN, Hans. El centro del tiempo: la teología de Lucas. Madrid: Fax, 1974.

ESCUDERO FREIRE, Carlos. Devolver el evangelio a los pobres: a proposito de Lc 1-2. Salamanca: Siegueme, 1978.

FABRIS, Rinaldo. O Evangelho de Lucas. In: FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. São Paulo: Loyola, 1992.

GEORGE, Augustin. Leitura do evangelho segundo Lucas. São Paulo: Paulinas, 1982.

KARRIS, Robert J. Il vangelo secondo Luca. In: BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. (Ed.). Nuovo grande commentario bíblico. Brescia: Queriniana, 1997.

PERROT, Charles. As narrativas da infância de Jesus: Mateus 1–2, Lucas 1–2. São Paulo: Paulinas, 1982.

SCHÜRMANN, Heinz. Commentario teológico del nuovo testamento: il vangelo di Luca. Brescia: Paideia, 1983.



[i] O artigo é uma síntese do primeiro capítulo (A infância de Jesus em questão, p. 12-31) da Dissertação de Mestrado “O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52”, defendida junto à Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE / 2008 e orientada pelo prof. Dr. Johan Konings, com o apoio da CAPES – PROEX. A dissertação está disponível em: <https://www.faculdadejesuita.edu.br/dissertacoes-teologia-437/-o-cristo-pos-pascal-na-narrativa-da-infancia-um-estudo-de-lc-2-41-52--04092017-224410>. Foi apresentado em conferência no II Colóquio de Literatura, História e Ciências da Religião, Fortaleza-Ce, outubro de 2013.

[ii] Conzelmann ( 1974, p. 171) parece negar a autenticidade dos dois primeiros capítulos de Lucas ao tratar da questão do Reino de Deus, na seção dedicada à escatologia: “De qualquer forma, pode-se objetar que a autenticidade dos dois primeiros capítulos é questionável (razão pela qual também deixamos entre as perguntas suas teologumena peculiares)” [tradução nossa]. No entanto, isso parece que está em contradição com sua postura inicial ao falar que seu trabalho engloba a obra lucana em seu estado atual (cf. ibid., 21). Em várias partes da sua obra o autor fala da infância como “pré-história” e até postula a pertença da mesma ao elenco original do Evangelho (cf. ibid., p. 38, n.1). Inclusive na p. 114, n. 169, Conzelmann parece reconhecer a existência da relação entre a pré-história e a Paixão (Lc 2,7 e 22,11; 2,14 e 19,38; 2,38 e 23,51).

[iii] Dentro do processo histórico-salvífico, João marca a incisão entre duas épocas dessa história contínua, tal como nos descreve Lc 16,16.

[iv] Os principais temas são apresentados por J. NAVONE (Themes of St. Luke [Roma 1979]). Segundo Karris, já são anunciados na Narrativa da Infância: o banquete, a conversão, a fé, a paternidade, a graça, a oração, o profeta, a salvação, o espírito, a tentação, o hoje, o universalismo, o caminho, o testemunho.

[v] O autor conserva a divisão tripartida da história segundo Conzelmann, mas os três períodos são assim dispostos: 1) a Lei e os Profetas (AT); 2) o relato evangélico do ministério, que começa com João Batista; 3) o relato do período pós-pentecostal do livro dos Atos. Entre 1 e 2 há um relato de transição, o da infância (Lc 1–2); e entre 2 e 3 há outro relato de transição, o da ascensão de Jesus e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes de At 1–2. Segundo Brown, embora Lc 16,16 exclua João Batista da época de Jesus, o versículo confirma as duas primeiras divisões propostas por ele (cf. nota 23, p. 247).

[vi] Augustin George (1982, p. 15) afirma que o assunto principal de Lucas é a revelação de Deus em Jesus Cristo. Esta revelação é apresentada ordenadamente na narrativa, nas diversas partes do relato. O bloco 1,5–4,13 apresenta o mistério de Jesus numa série de palavras divinas; Charles Perrot (1982, p. 34) afirma que esses dois capítulos são um prólogo cristológico, uma confissão de fé feita à luz do acontecimento pascal.

 

 



Ir. Márcia Eloi Rodrigues é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Atualmente leciona Sagrada Escritura no Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina-MG.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

As tradições do êxodo e o novo Faraó



Estamos há vários meses em isolamento social em casa devido à pandemia do novo corona vírus que propagou rapidamente da China pelo mundo inteiro. E como se isso não fosse o suficiente, para nos fragilizar em questões sociais e psicológicas, ainda enfrentamos situações de cunho político. Algumas vezes, em casa, conversamos a respeito de como o povo de Deus, o povo da bíblia, também viveu situações parecidas com essa que estamos vivendo. A experiência da saída do Egito, a Páscoa, é algo profundamente forte e marcante que não deveria ser esquecida, mas recontada de geração a geração. Deus se revelou ao seu povo que clamava por libertação, pois estava escravizado no Egito. Deus ouviu o seu clamor e os libertou das pragas e da morte.

Na libertação, Moisés é enviado a interceder junto ao Faraó para que deixe o povo adorar a Deus no deserto, aquele, porém endurece o coração e não permite a saída dos escravos. As tradições do êxodo narram que Deus enviou, então, pragas como sinal de sua intervenção libertadora e que somente a última praga conseguiu pôr fim à dureza do Faraó. A praga da morte dos primogênitos assolou o  Egito e desestabilizou o Faraó. Mas, os hebreus haviam recebido a instrução para que marcassem a moldura de suas casas com sangue de animal e que “ninguém de vós saia de casa até o amanhecer” (Ex 12,22). Assim o povo foi preservado da praga e se salvou.

Os hebreus ficaram em casa! Hoje durante a pandemia, para a qual não existem remédio e vacina, devemos ter como exemplo o povo de Deus: ficar em casa isolados, para que o mal, a doença, a morte não nos atinjam.

Em situação semelhante à do povo de Deus, podemos analisar a figura do Faraó. Na atualidade, vivemos questões próprias da pós-modernidade como hedonismo, indiferentismo e o individualismo. O individualismo nos ajuda a fazer referência à figura do Faraó (o do Egito e o “nosso” de hoje). Por individualismo entendemos o que “é caracterizado pelo grande e absoluto valor que se atribui ao indivíduo ou sujeito colocado como centro da realidade na qual vive. O fim a ser atingido é o acúmulo de riquezas acima de todas as coisas e com a utilização de todos os meios possíveis" (Itinerário Catequético, CNBB, 2016)

Nesse aspecto analisamos o Faraó do Egito que não dá importância a Moisés e a Aarão, chama o povo de preguiçoso e cobra-lhe o trabalho sem a condição necessária para que seja realizado, aumentando a opressão. O “nosso” Faraó da atualidade diante da grave crise da pandemia no seu egocentrismo, autoritarismo e individualismo, não dá ouvidos aos milhares de Moisés que diariamente lutam para cuidar e interceder pela vida do povo que sofre, que é oprimido pela ausência do mínimo de condições de saúde, de sobrevivência em leitos de UTI os quais não são suficientes para tantas pessoas. O “nosso” Faraó nos diz que o povo não pode ficar em casa, tem que voltar a trabalhar, que o mais importante é a economia, o consumo. Diz que muitas pessoas morrerão, é o destino delas, mas que a pobreza, a miséria e o desemprego matarão muito mais. Enquanto a praga exterminadora do vírus assola a população, ele reabre comércio e serviços para tirar as pessoas de suas casas.

Devemos olhar para a história do povo de Deus e perceber a sua mensagem, atualiza-la, afinal passamos por situações semelhantes. O povo de Deus reconheceu a intervenção divina na sua libertação, Deus é que toma a iniciativa, que escuta, que desce para junto do povo e que o conhece. Não é diferente conosco. Precisamos reconhecer os sinais de Deus agindo hoje e o que ele nos pede para fazer. Hoje o que nos pede não é algo difícil de fazer, somente permanecer em casa, fazer o isolamento e o distanciamento necessários.

As tradições do êxodo narra que o final do Faraó do Egito foi desastroso. Para o “nosso” Faraó também aguardamos que o poder de Deus nos livre de suas mãos. Continuemos a clamar que Deus nos liberte dessa opressão.

A história do povo da bíblia nos anima a perseverar na nossa fé, a fazermos a experiência profunda com Deus, mesmo nos momentos de crises e sofrimentos. Deus caminha conosco e não nos abandona. Pedimos que nos ajude a sairmos desta pandemia melhores do que antes. Que sejamos pessoas que lutam pela vida, pelo bem comum e pela solidariedade. E enquanto não passa a praga exterminadora, Deus nos diz: “Ninguém de vós saia fora de sua casa.




Ir Edmara Ferreira de Lima é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação em biblioteconomia pela UFC, é aluna do 1o. ano no bacharelado em teologia na Faculdade Católica de Fortaleza. Atividade para a matéria Introdução à Sagrada Escritura (Profa. Aíla Pinheiro, nj).

terça-feira, 14 de julho de 2020

A historicidade da Narrativa da Infância: da negação à sua valorização



Na postagem anterior, refletimos brevemente sobre o processo de elaboração da cristologia na comunidade primitiva com o objetivo de responder à questão da inserção das narrativas da Infância (Mt 1–2; Lc 1–2) nos respectivos Evangelhos. Percebemos que a Narrativa da Infância faz parte de um momento posterior no desenvolvimento da cristologia e sua inserção nos Evangelhos se compreende melhor dentro desse processo. Veremos, agora, a discussão entre os autores modernos a respeito da historicidade do Relato da Infância segundo Lucas (1–2). Esse tema é importante, pois nos ajuda a compreender o Relato da Infância como Teologia, e não como histórias factuais da infância de Jesus (historicismo).

A historicidade da Narrativa da Infância[i]

A reflexão sobre o processo de compreensão da fé cristológica explica o motivo da adição dos relatos da infância de Mateus e de Lucas nos respectivos Evangelhos, se comparados com Marcos, o primeiro Evangelho. A retrospectiva da vida de Jesus desde sua infância, realizada pela comunidade cristã, deve-se a necessidade de clareza quanto à identidade do salvador. Não há, portanto, um interesse de narrar fatos históricos sobre a infância de Jesus em Nazaré.

Essa perspectiva, no entanto, parecia não ser tão clara para alguns estudiosos do século passado. Entre 1905 e 1930, deu-se início a uma discussão entre aqueles que defendiam e os que negavam haver qualquer base histórica nos relatos da infância. Os primeiros expoentes[ii] da crítica independente viram no Relato da Infância uma construção devocional sem bases históricas precisas (BROWN, 1982, p 67; SPINETOLI, 1967, p. 67). A inspiração desse relato não seria baseada na realidade, mas em modelos preexistentes na literatura extrabíblica, nas lendas gregas, egípcias, asiáticas e até indianas (SPINETOLI, 1967, p. 67).

Após os primeiros ardores a crítica liberal reviu sua posição e, abandonando as posições radicais, começou a ver, nos relatos da infância, problemas reais em torno da historicidade e do gênero literário dessas narrativas e dos evangelhos em geral (Ibid., p. 68).

Por outro lado, os católicos ignoraram por muito tempo as questões da historicidade e do gênero literário apegando-se a um conceito positivista de história (Ibid., p. 68, n. 3)[iii]. Esta postura foi mudada após uma primeira polêmica, e, sobretudo depois da Encíclica Divino Afflante Spiritu” de Pio XII, os católicos passaram a olhar a Narrativa da Infância com maior objetividade, e o centro de interesse passou a ser a estrutura e o estrato bíblico de tal relato (Ibid., p. 69).

Uma vez superado o conceito positivista de história, pois há muito que os críticos deixaram de ler os evangelhos como “vidas de Jesus”, manteve-se o interesse histórico do evangelho, numa outra perspectiva. Sem preconizar a história literal, alguns estudiosos defendem a historicidade substancial de Lc 1–2, baseando-se na autoridade das fontes lucanas, como é entendida por eles no prólogo ao evangelho (Lc 1,1-4). Estão certos de que os dois primeiros capítulos não são obra de piedosa invenção lucana (BROWN, 1982, p. 71).

Com base na existência desse substrato histórico, Andre Feuillet, por exemplo, no seu estudo de 1974, opina que os fatos narrados em Lc 1–2 seriam recordações conservadas e meditadas pelos discípulos do Batista e por Maria, a mãe de Jesus (FEUILLET apud LEONARDI, 1975, p. 113). O evangelista Lucas não seria o responsável por quase todos os detalhes da história da infância, mas tampouco estaria transmitindo um ensinamento destituído de valor histórico (LEONARDI, 1975, p. 113).

Como foi dito acima, a historicidade do Relato da Infância parece atestada pela autoridade das fontes lucanas. No prólogo (Lc 1,1-4), o autor afirma escrever sobre o que tinha visto e recebido das testemunhas oculares, que ele pesquisara desde o princípio. Ele pretende oferecer um relato ordenado. Estas afirmações deixam margem para pensar numa narrativa baseada em fontes históricas, pois, como dizem alguns, Lucas advertiria o leitor se começasse sua obra narrando dois capítulos de lendas ou parábolas (Ibid., p. 114)[iv]. Segundo este raciocínio, o prólogo atesta que Lucas teria empregado fontes históricas com extremo cuidado e que, por isso, o Relato da Infância é histórico, baseado em fontes fidedignas (BROWN, 1982, p. 243).

Na tentativa de evidenciar o substrato histórico do Relato da Infância, alguns estudiosos intentam elencar as fontes às quais Lucas teve acesso. As conclusões a que chegaram são as mais variadas possíveis e, por vezes, fantasiosas. Vejamos alguns desses casos.

O estudo de Andre Feuillet, referido acima, faz um confronto entre as tradições joaninas, presentes no Apocalipse, e as cenas cristológicas e mariológicas de Lc 1–2 e conclui que há relações convincentes. Segundo ele, Lucas teve acesso a esses acontecimentos através de João, que por sua vez, os recebeu de Maria, durante o período em que a acolheu em sua casa.

Eugênio Cywinski (1998, p. 96), em seu artigo, descreve os possíveis contatos que Lucas teve para redigir sua narrativa[v]. O autor pergunta pela probabilidade de Lucas ter recebido diretamente de Maria algumas informações. Afirma a possível influência por parte de João, a quem fora confiada Maria, alegando a afinidade entre o terceiro e o quarto evangelhos. Discorre sobre a estadia de Lucas com Paulo durante o cativeiro, onde Lucas teve dois anos de liberdade para movimentar-se e pesquisar sobre a infância de Jesus. Esteve em Nazaré, onde consultou algum arquivo. Relacionou-se com membros da família de Jesus. Essas seriam, para o autor, as principais fontes de informação que Lucas teve acesso. A hipótese do contato com João é, contudo, rejeitada no monumental estudo de Raymond E. Brown (1982, p. 242-243)[vi].

Segundo Ortensio da Spinetoli (1967, p. 102), o Relato da Infância contém episódios que foram elaborados por Lucas, com base em fontes históricas, que ele dispôs livremente e redigiu conforme sua intenção teológica. A Narrativa da Infância é composta por vários estratos superpostos e, por isso, torna-se difícil delinear o que é fato histórico e o que é artifício literário. O autor afirma ser preciso traçar uma linha entre o artifício literário, a realidade objetiva e a realidade bíblica, que são os três estratos que apoiam atualmente a obra (Ibid., p. 92).

A valorização dos substratos históricos da Narrativa da Infância é defendida por esses estudiosos como crítica àqueles que negam totalmente esses substratos ao tratar o relato como lenda edificante (BROWN, 1982, p. 19)[vii]. Evidentemente, não se pode negar certo grau de historicidade nos relatos da infância, assim como não se nega a historicidade nos Evangelhos. Como os estudiosos deixaram de ver nesses escritos uma biografia de Jesus sem, contudo, negar a base histórica dos relatos, essa postura também se reflete no Relato da Infância.

Por outro lado, a grande preocupação pelas fontes históricas da infância, veiculada por certos especialistas, acaba fragmentando a narrativa em busca das evidências históricas, causando um esvaziamento do sentido teológico, pois perdem a visão de conjunto atendo-se apenas aos detalhes.

A investigação bíblica dos últimos 20-30 anos revelou-se mais frutífera ao buscar recuperar o valor do Relato da Infância como teologia. Sem descuidar dos temas das fontes, da historicidade e do gênero literário, procurou-se perceber o sentido da Narrativa da Infância no interior do Evangelho já concluído, para captar a mensagem transmitida através desse relato (Ibid., p. 32).

Veremos, na próxima postagem, a discussão dos estudiosos modernos a respeito da teologia da Narrativa da Infância segundo Lucas, levando em consideração seu lugar no Evangelho lucano.

Referências

BROWN, Raymond E. El nacimiento del Mesías: comentario a los relatos de la infancia. Madrid: Cristiandad, 1982.

RODRIGUES, Márcia E. O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52. 2008. 121 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) – Faculdade Jesuíta de filosofia e Teologia, Belo Horizonte, 2008.

SPINETOLI, Ortensio. Introduzione ai vangeli dell’infanzia. Brescia: Paidéia, 1967.

LEONARDI, Giovanni. L’infanzia di Gesù nei Vangeli di Matteo e Luca. Padova: Edizioni Messaggero, 1975.

CYWINSKI, Eugênio. Historicidade do evangelho da infância segundo Lucas. Revista de cultura bíblica, São Paulo, v. 21, n. 85-86, p. 96, 1998.



[i] O artigo é uma síntese do primeiro capítulo (A infância de Jesus em questão, p. 12-31) da Dissertação de Mestrado “O Cristo pós-pascal na Narrativa da Infância segundo Lc 2,41-52”, defendida junto à Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE / 2008 e orientada pelo prof. Dr. Johan Konings, com o apoio da CAPES – PROEX. A dissertação está disponível em: <https://www.faculdadejesuita.edu.br/dissertacoes-teologia-437/-o-cristo-pos-pascal-na-narrativa-da-infancia-um-estudo-de-lc-2-41-52--04092017-224410>. Foi apresentado em conferência no II Colóquio de Literatura, História e Ciências da Religião, Fortaleza-Ce, outubro de 2013.

[ii] David F. Strauss, Wilhelm Wrede e Charles Guignebert encontraram na Narrativa da Infância apoio para as hipóteses radicais sobre a origem dessa narrativa como mitos.

[iii] Entre 1905 e 1930, estudiosos como Iosepho Knabenbauer, Marie J. Lagrange, Joseph Huby, Friedrich Hauck, Emile Osty, Herausgegeben von J. Zahn, Alfred Plummer, John M. Creed, Adolf Schlatter e Karl Bornhäuser se atinham ao sentido óbvio das narrativas da infância sem entrar em questões de forma.

[iv] O autor apresenta três perspectivas de gênero literário da Narrativa da Infância: histórico, histórico-artístico e histórico-artístico-midráxico.

[v] O autor pergunta pelas fontes de informação de Lucas. Contudo, o artigo não define a perspectiva de Lucas como histórica, apenas procura pelo substrato histórico por baixo da narrativa.

[vi] O autor refuta a tese que explica a origem do relato da infância a partir da relação de Lucas com o quarto Evangelho. Brown afirma que essa tese é baseada em pura conjectura, uma vez que a cena de Jo 19,27 é altamente simbólica.

[vii] “As frequentes aparições angélicas, a concepção virginal, a estrela maravilhosa que guia os magos desde o Oriente e um menino dotado de prodigiosa sabedoria são, para muitos, temas claramente legendários” [tradução nossa].



Ir. Márcia Eloi Rodrigues é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Atualmente leciona Sagrada Escritura no Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina-MG.


sábado, 11 de julho de 2020

A interpretação das Sagradas Escrituras numa sociedade adoentada

Medos, inseguranças, explorações mais diversas e tantas formas de sofrimento que se espalham pelo mundo não são de forma alguma segredos para ninguém. As palavras do Papa Francisco em sua homilia na benção Urbi et orbi, por ocasião da pandemia do novo corona vírus, deveria nos inquietar e nos levar a meditar: “Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente.”[1]

A sociedade atual encontra-se adoentada de diferentes formas, porém uma manifestação dessa condição pode ser percebida naqueles que, devido às mais variadas experiências e realidades, acabaram por desenvolver algum tipo de mazela psicológica. A depressão e ansiedade são patologias que nos últimos anos têm se espalhado rapidamente e é uma tarefa nossa discernir como nos fazer próximos de quem sofre. Diante disso surge uma nova pergunta, como ajudar?

Por causa de nossa adesão ao projeto de Jesus, um caminho que pode ser tomado é iluminar nosso agir a partir das Sagradas Escrituras. Nessa perspectiva a correta interpretação dos textos bíblicos pode ser um modo muito útil de aproximação daquele que sofre, suscitando-lhe a perseverança na fé como canal de superação de condições que, muitas vezes, são obscuras.

Sabemos que a interpretação dos textos sagrados requer método e estudo acurado. Numa analogia podemos compará-la ao trabalho de garimpo através do qual se procura o ouro no meio do refugo. Uma precaução que sempre deve ser tomada no trato com as Escrituras se refere ao modo como fazemos o uso da linguagem, sobretudo, na divulgação da mensagem “garimpada”. Pois, sem os devidos cuidados, ao invés de suscitarmos esperança na pessoa que sofre, podemos contribuir para que ela perda o sentido da vida e condená-la a uma fatídica condição de esvaziamento existencial.

Também devemos levar em conta que as Sagradas Escrituras não podem ser tomadas como um oráculo no mais grotesco misticismo de quem vai à bíblia com a pergunta “o que Deus tem para mim hoje”. Em vez disto, é necessário considerar que a experiência de Israel com seu Deus, conforme foi relatada pelos autores sagrados, pode nos impelir a uma nova postura diante da vida e levar as pessoas a se libertarem das correntes que as aprisionam aos mais diversos sofrimentos, evitando muitos suicídios, que é outro mau da sociedade atual.

Numa palavra, uma adequada interpretação das Escrituras pode mudar uma situação, principalmente quando quem interpreta, ao contemplar o rosto do outro, não é movido por julgamentos e preconceitos, mas está imbuído de caridade, de compaixão e de cuidado.



[1] Texto completo disponível em http://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2020/documents/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.html acessado em 17/06/2020.



Tiago dos Santos Alves é aluno do 1o. ano do bacharelado em Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza. Atividade para a matéria Introdução à Sagrada Escritura (Profa. Aíla Pinheiro, nj).