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quinta-feira, 16 de julho de 2020

As tradições do êxodo e o novo Faraó



Estamos há vários meses em isolamento social em casa devido à pandemia do novo corona vírus que propagou rapidamente da China pelo mundo inteiro. E como se isso não fosse o suficiente, para nos fragilizar em questões sociais e psicológicas, ainda enfrentamos situações de cunho político. Algumas vezes, em casa, conversamos a respeito de como o povo de Deus, o povo da bíblia, também viveu situações parecidas com essa que estamos vivendo. A experiência da saída do Egito, a Páscoa, é algo profundamente forte e marcante que não deveria ser esquecida, mas recontada de geração a geração. Deus se revelou ao seu povo que clamava por libertação, pois estava escravizado no Egito. Deus ouviu o seu clamor e os libertou das pragas e da morte.

Na libertação, Moisés é enviado a interceder junto ao Faraó para que deixe o povo adorar a Deus no deserto, aquele, porém endurece o coração e não permite a saída dos escravos. As tradições do êxodo narram que Deus enviou, então, pragas como sinal de sua intervenção libertadora e que somente a última praga conseguiu pôr fim à dureza do Faraó. A praga da morte dos primogênitos assolou o  Egito e desestabilizou o Faraó. Mas, os hebreus haviam recebido a instrução para que marcassem a moldura de suas casas com sangue de animal e que “ninguém de vós saia de casa até o amanhecer” (Ex 12,22). Assim o povo foi preservado da praga e se salvou.

Os hebreus ficaram em casa! Hoje durante a pandemia, para a qual não existem remédio e vacina, devemos ter como exemplo o povo de Deus: ficar em casa isolados, para que o mal, a doença, a morte não nos atinjam.

Em situação semelhante à do povo de Deus, podemos analisar a figura do Faraó. Na atualidade, vivemos questões próprias da pós-modernidade como hedonismo, indiferentismo e o individualismo. O individualismo nos ajuda a fazer referência à figura do Faraó (o do Egito e o “nosso” de hoje). Por individualismo entendemos o que “é caracterizado pelo grande e absoluto valor que se atribui ao indivíduo ou sujeito colocado como centro da realidade na qual vive. O fim a ser atingido é o acúmulo de riquezas acima de todas as coisas e com a utilização de todos os meios possíveis" (Itinerário Catequético, CNBB, 2016)

Nesse aspecto analisamos o Faraó do Egito que não dá importância a Moisés e a Aarão, chama o povo de preguiçoso e cobra-lhe o trabalho sem a condição necessária para que seja realizado, aumentando a opressão. O “nosso” Faraó da atualidade diante da grave crise da pandemia no seu egocentrismo, autoritarismo e individualismo, não dá ouvidos aos milhares de Moisés que diariamente lutam para cuidar e interceder pela vida do povo que sofre, que é oprimido pela ausência do mínimo de condições de saúde, de sobrevivência em leitos de UTI os quais não são suficientes para tantas pessoas. O “nosso” Faraó nos diz que o povo não pode ficar em casa, tem que voltar a trabalhar, que o mais importante é a economia, o consumo. Diz que muitas pessoas morrerão, é o destino delas, mas que a pobreza, a miséria e o desemprego matarão muito mais. Enquanto a praga exterminadora do vírus assola a população, ele reabre comércio e serviços para tirar as pessoas de suas casas.

Devemos olhar para a história do povo de Deus e perceber a sua mensagem, atualiza-la, afinal passamos por situações semelhantes. O povo de Deus reconheceu a intervenção divina na sua libertação, Deus é que toma a iniciativa, que escuta, que desce para junto do povo e que o conhece. Não é diferente conosco. Precisamos reconhecer os sinais de Deus agindo hoje e o que ele nos pede para fazer. Hoje o que nos pede não é algo difícil de fazer, somente permanecer em casa, fazer o isolamento e o distanciamento necessários.

As tradições do êxodo narra que o final do Faraó do Egito foi desastroso. Para o “nosso” Faraó também aguardamos que o poder de Deus nos livre de suas mãos. Continuemos a clamar que Deus nos liberte dessa opressão.

A história do povo da bíblia nos anima a perseverar na nossa fé, a fazermos a experiência profunda com Deus, mesmo nos momentos de crises e sofrimentos. Deus caminha conosco e não nos abandona. Pedimos que nos ajude a sairmos desta pandemia melhores do que antes. Que sejamos pessoas que lutam pela vida, pelo bem comum e pela solidariedade. E enquanto não passa a praga exterminadora, Deus nos diz: “Ninguém de vós saia fora de sua casa.”




Ir Edmara Ferreira de Lima é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação em biblioteconomia pela UFC, é aluna do 1o. ano no bacharelado em teologia na Faculdade Católica de Fortaleza. Atividade para a matéria Introdução à Sagrada Escritura (Profa. Aíla Pinheiro, nj).

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O simbolismo do bezerro de ouro em Israel e nos tempos atuais


O episódio da adoração dos hebreus ao bezerro de ouro, narrado em Ex 32, deu-se enquanto Moisés orava no monte e representou uma grave infidelidade do povo à aliança feita com YHWH. O fato ocorreu durante a travessia do deserto rumo à terra prometida, após a saída do Egito. Certamente não era um período marcado por confortos e facilidades, e, se esse contexto não justifica, ao menos explica um pouco o que se passava no coração daquelas pessoas. Digo isso porque muitas vezes nós também, nas “travessias” da vida, passamos por grandes dificuldades e tribulações, que nos levam a nos confrontar com a nossa fidelidade ao Deus em quem depositamos nossa fé, de quem os mandamentos nos comprometemos a cumprir.

Diante das dificuldades, geralmente, determinadas “ofertas” de “facilidades” podem se manifestar, e que depois acabam custando “caro”. Assim foi a confecção do bezerro para ser adorado pelo povo, e tantos outros episódios de murmuração e infidelidade no deserto, como o das águas de Massa e Meriba e o da serpente de bronze.

O bezerro, o touro ou o boi tinham e ainda têm, para algumas culturas, como a do Antigo Egito, da Samaria e da Índia atual, a simbologia de força, virilidade e fertilidade, geralmente relacionadas à realeza do monarca. Diante da fome, da sede, dos cansaços, do calor e das incertezas do deserto, que se agravam na ausência do seu líder Moisés, a comunidade decide depositar as suas esperanças em ídolos feitos por mãos humanas, com ouro, que, embora seja precioso, é uma matéria perecível, por ser mera criatura do único e verdadeiro Deus, que poderia salvá-los e confortá-los com seu amor misericordioso, que escuta o clamor do seu povo e perdoa suas infidelidades.

Os tempos atuais, com suas tecnologias e inovações, embora nos tenham trazido fartura e conforto, diferentemente do povo no deserto, são marcados também pelo individualismo, secularismo, relativismo e tantas outras ideologias que tiveram como consequência um profundo vazio existencial, que praticamente se transformou numa espécie de epidemia. O homem encontrou cura para muitas doenças, aprendeu a controlar a natureza, a transportar-se e comunicar-se mais rápido, mas ainda não aprendeu o sentido de uma vida doada a Deus e aos irmãos.

É esse o contexto em que estamos inseridos e em que surgem as tecnologias digitais, que tanto nos têm trazido facilidades para nos comunicarmos, para acessarmos conhecimentos e para consumirmos novos serviços, sobretudo neste tempo de isolamento e pandemia. No entanto, essas facilidades tendem a ocultar o “deserto” em que se transformou o espírito de tantos homens e mulheres, que, em vez de utilizarem essas mídias como meios – conforme indica o próprio nome – para fins nobres, como a solidariedade e a partilha do conhecimento, prendem-se a tais tecnologias, como se fossem fins em si mesmos, o que resulta em dependências afetivas não só das pessoas com quem se comunicam, como das próprias plataformas que utilizam.

Assim como o ouro, as tecnologias também são criadas por Deus, que deu inteligência ao ser humano. E é desejo seu que utilizemos dos meios disponíveis na criação para aperfeiçoarmos a nossa vida e a de nossos semelhantes. Mesmo assim, por desígnios que muitas vezes não conseguimos compreender, Ele permite que enfrentemos tribulações, como as que o povo passou no deserto e os tantos males humanos, psíquicos, sociais e espirituais pelos quais passamos hoje. No entanto, não podemos nos fiar no ouro e na prata, nem mesmo na tecnologia, como a garantia de que nossos problemas serão resolvidos, assim como o povo confiou na suposta força trazida pelo bezerro. Não é nas criaturas, mas somente em Deus que devemos colocar a nossa confiança, acreditando no seu amor gratuito e generoso, que nos dá força para enfrentar todos os perigos, sem desprezar os meios que temos à nossa disposição para nos ajudar, mas também sem nos apegarmos a eles, de modo que nos afastem do Criador.




João Victor Melo Sales é aluno do 1o. ano no bacharelado em Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza. Atividade para a matéria Introdução à Sagrada Escritura (Profa. Aíla Pinheiro, nj).