quarta-feira, 13 de abril de 2011

REFLEXÕES PARA A QUARESMA 04

Encontrar-se com Deus no Deserto (cont)

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

No Midbar (deserto) Deus faz ouvir sua palavra (dabar). Ele lança sua semente, mesmo que a terra seja apenas uma zona de transição entre a fertilidade e a esterilidade (Mt 13, 4-7) e não propriamente um campo fértil. Mas o duplo sentido de deserto nos dá o reverso dessa ação. A semente lançada no terreno árido é roubada pelo inimigo. “A todos os que ouvem a palavra do reino e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração” (Mt 13,19).

A tradição dos Rabinos afirma que destrói as palavras de Deus que as interpreta de forma incorreta. Quem as interpreta corretamente tem que coloca-las em prática. A parábola do semeador revela que não apenas habitamos no deserto, mas também que ele habita em nós. É o coração mesmo do ser humano o terreno impróprio para plantar porque é cheio de angústias, cuidados do mundo e fascinação das riquezas (Mt 13, 21-22). E Mateus denúncia que mesmo quando aparentemente somos um terreno bom, nem sempre a palavra de Deus produz fruto cem por cento (Mt 13, 23).

A Bíblia dedica um livro inteiro a esse tema. Deus habita no deserto e o ser humano tem um coração igual ao deserto, estéril, que destrói a semente (palavra) de Deus e não a faz frutificar. Esse livro da Bíblia chama-se BaMidbar, que quer dizer “No Deserto”. Infelizmente seu título foi mal traduzido e nós o conhecemos por livro dos “Números”.

Esse livro relata a queixa de Moisés porque embora o povo seja um verdadeiro deserto, Deus não desiste de conduzir Israel com a ajuda desse líder que não ver progresso na missão: “Concebi eu, porventura, todo este povo? Dei-o eu à luz, para que me digas: Carrega-o ao teu colo, como a ama leva a criança que mama, à terra que, sob juramento, prometeste a seus pais?” (Nm 11,12).

Essa passagem bíblica é a primeira menção da raiz hebraica ‘aman, no sentido de carregar, ser suporte, ter fé, ser fiel, crer, ter segurança. Da mesma raiz temos a palavra emunah - fielmente, verdadeiro, fidelidade, contínuo ou constante; emet - verdade, verdadeiro, certo ou correto; e por fim, a palavra amen. Essa raiz vem do nome de um rio perene: Amon. As perguntas de Moisés em Nm 11,12 mostram o quanto Deus é fiel, ele é o suporte do povo, Deus, e não Moisés, é quem carrega o povo como uma ama carrega a criança (‘aman). Agindo assim espera que o povo seja fiel, que o carregue no coração, que seja verdadeiro, constante, perene. Deus espera todo esse retorno que resumido significa amen. Mas o deserto que está dentro do povo é pior que o deserto no qual o povo está. Vem a chuva, que é a graça de Deus, e a terra do coração continua sem produzir.

Curiosamente o deserto é o lugar da palavra, pois quando as palavras em hebraico têm a mesma raiz em sua origem há uma relação direta. Se DABAR quer dizer palavra, então, MIDBAR, deserto, etimologicamente é “lugar da palavra”. Ali onde ninguém pode apoiar-se nas seguranças costumeiras, ali quando cessam os discursos, então é possível uma disposição para ouvir o que há no coração e para perguntar-se pela vontade de Deus. É possível descer ao coração e abrir-se à sua linguagem para encontrar a palavra que define o ser humano.

No deserto habita o Deus da palavra, Aquele que não pode ser visto, mas ouvido. A palavra mais importante do homem é o Amen, mesmo na fragilidade e limitação. A que é pronunciada por Deus é aman (carregar). O diálogo, a palavra de ambos, é emunah (fidelidade).

O ser humano é convidado a escutar a palavra chave sobre sua própria vida, ouvida dos lábios de Deus que fala no silêncio. Essa palavra é aquilo que define a humanidade aos olhos de Deus, e, portanto, é o que somos agora e o que estamos chamados a ser.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

quinta-feira, 31 de março de 2011

REFLEXÕES PARA A QUARESMA 03

Encontrar-se com Deus no Deserto (cont)

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

A dupla imagem de deserto que muda conforme as chuvas ou a seca favorece uma dupla teologia. Seu simbolismo tanto evoca a idéia de presença de Deus, quanto de tentação ou prova. Em seu aspecto de terra habitualmente sem água, sem vegetação nem habitantes é compreendido como lugar povoado por demônios (Lv 16,10; Lc 8,29; 11,24), sátiros (Lv 17,7) e animais maléficos (Is 13,21; 14,23; 30,6; 34,11-16; Sf 2,13-14). Quer dizer, nessa acepção, o deserto se opõe à terra habitada, da mesma forma que a maldição se opõe à bênção.

Então se pode dizer que na tradição bíblica, em seu conjunto, o deserto tem um duplo sentido que se complementa. Por um lado como lugar da eleição, mas também como meio de purificação, constituindo em ambos os aspectos uma preparação imediata para a entrada na Terra Prometida.

Em Dt 8,15 há uma descrição do deserto como lugar vasto e terrível, com serpentes de hálito abrasador e escorpiões, região árida, carente de água. Esse livro também resume as principais provas pelas quais o povo passou ali (Dt 6,14.16; 8,3). São semelhantes àquelas a que Jesus foi submetido, mas ao contrário deste, o relato bíblico constata que o povo não superou totalmente a prova, mas sucumbiu em várias claudicações.

Deus no deserto

Midbar, deserto, como já foi dito acima, vem de Dabar, palavra. Assim, o deserto tem outro atrativo que está relacionado às palavras. A linguagem é essencial para o ser humano, mas ali não se verbaliza muitas coisas e por isso se escuta. Tanto a Palavra de Deus, como a palavra da sedução, habitam no deserto. Se escutarmos a palavra de Deus, esta se tornará como a chuva, reverdeja tudo (Is 55,10-11). Se escutarmos a palavra da sedução, esta será semelhante ao siroco, vento quente (cf. Ex 10,13), que seca toda a vegetação.

Para Israel, em última instância, no deserto está a presença de Deus. Quando o povo no deserto faz a pergunta se “Está ou não YHWH no meio de nós?”, Deus responde a Moisés: “Eis que estarei ali diante de ti sobre a rocha em Horebe; ferirás a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá” (Ex 17, 6-7). A água da rocha é a resposta ao povo desconfiado que perguntava pela presença de Deus. A água que jorra generosa é a certeza de que Deus é Emmanuel, que está e estará sempre com o povo, saciando sua sede, de uma maneira total e integral, individual e comunitária. Os israelitas têm sede no deserto e somente Deus pode saciá-los, porque Ele nos fez para Si.

A necessidade da água era imediata, porém a confiança no Senhor deveria prevalecer sobre isso. Contudo o ser humano geralmente considera as necessidades básicas como prioritárias e se deixa levar pela imediatez. Basta, porém, fazer uma memória das vicissitudes para dar-se conta de que o Senhor há providenciado soluções, mesmo que não sejam da forma esperada espera, mas sempre conforme o seu projeto salvífico, que não é compreendido em grande parte e por isso é vital escutá-lo no deserto. Ali os caminhos sinuosos antes percebidos como absurdos e injustos posteriormente adquirem sentido e ainda que não sejam decifrados completamente, não serão considerados à margem da providencia de Deus.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

terça-feira, 15 de março de 2011

REFLEXÕES PARA A QUARESMA 02

Encontrar-se com Deus no Deserto (cont) 

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

Israel no Deserto

Segundo a narrativa bíblica, o nascimento e constituição do povo eleito aconteceram no deserto. Foi durante a estadia ali que Israel tomou propriamente a forma de povo. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó revelou-se ali sob o nome de YHWH e por meio de Moisés efetivou a estruturação inicial de seu povo no aspecto religioso, moral, social, político e civil. Essa narrativa torna-se um paradigma. Todas as vezes que o povo se vê forçado a encontrar consigo mesmo, para renovar sua vida e suas instituições, o fará sempre a partir de um retorno a esse momento fundante da fé de Israel.

A narrativa de uma serie de atos salvíficos relevantes enfatizam a importância do deserto: a revelação do nome de YHWH, a conclusão da aliança do Sinai, o Decálogo e a Lei. Deus se faz presente na Arca da Aliança e na Tenda de reunião, guia o povo por meio da nuvem e coluna de fogo, o alimenta com o maná, e outros episódios. Esses atos são atualizados anualmente nas três festas principais da liturgia israelita: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. Nas quais se celebram respectivamente a saída do Egito (Ex 23,15); a promulgação da Lei no Sinai cinqüenta dias depois de cruzar o Mar (Ex 19,1) e a permanência em cabanas (Lv 23,43).

O lirismo mais belo e profundo dos profetas e salmistas brota sempre do retorno àquela experiência fundante que foi a providência de YHWH sobre seu povo no deserto. Para Oséias e Jeremias a recordação daquele tempo evoca a felicidade do primeiro amor, a intimidade do casamento, a fidelidade de Israel como resposta ao amor de YHWH, a ternura do pai para com seu filho (cf. Os 2,16-17; 9,10; 11,1; 13,4-5; Jr 2). Para Isaías a restauração de Israel é representada como um novo Êxodo e uma nova marcha através do deserto (cf. Is 32,15-16; 35,1-2; 40,3 e pass).

Esses atos salvíficos do deserto são também o tema de vários salmos e confissões de fé. A maior parte deles são hinos que tomam como motivos de louvor as intervenções salvíficas de YHWH em favor de seu povo (Sl 78; 105; 114; 135; 136; Jt 5,5-21; Ne 9,6-37).

O deserto estava calcado tão profundamente na consciência do povo que chegou a formar-se uma tradição, segundo a qual os tempos messiânicos se abririam repetindo aquelas experiências fundantes. Nesta perspectiva deve colocar-se a ida ao deserto: dos Assideus (cf. 1Mac 2,29-30) ou da comunidade dos Essênios1 para preparar os caminhos do Messias segundo a profecia de Is 40,3.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

terça-feira, 8 de março de 2011

REFLEXÕES PARA A QUARESMA 01

Encontrar-se com Deus no Deserto  

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

Moisés foi ao deserto e recebeu a revelação do nome de Deus e a missão de libertar os escravos hebreus do Egito (Ex 3,7-10). O povo libertado das mãos do faraó teve que passar pelo deserto antes de entrar na terra prometida (Dt 2,7). Foi ali também que o profeta Elias, na luta contra a idolatria em Israel, fez a experiência com o Deus que se revela na brisa suave e não no vento furioso (1Rs 19,1-13). Os evangelhos são unânimes em afirmar que João Batista veio do deserto (Mc 1,4 // Mt 3,1 // Lc 3,2 e Jo 1,23) e para lá Jesus foi conduzido pelo Espírito (Mc 1,12 // Mt 4,1 // Lc 4,1) antes de começar o anúncio do Reino de Deus. E, quando o cristianismo entrou em crise, depois que foi assumido como religião oficial do império romano, foi para o deserto que os primeiros monges se dirigiram.
Por que o deserto tornou-se vital para quem quer um recomeço? Por que é uma baliza tão constante na marcação dos momentos mais importantes da história da salvação? Por que Jesus teve que fazer essa experiência de deserto? Como resgatar o significado mais profundo do deserto para o cristão de hoje?

O deserto

O deserto tem sido um tema amplamente explorado como recurso literário e teológico. Nos relatos bíblicos, o termo hebraico mais freqüente para designá-lo é Midbar, que em sua origem remonta ao verbo falar (Dabar). Também evoca o significado de “conduzir” “apascentar”, pois tanto os caravaneiros quanto os pastores realizam suas atividades através da voz ou grito, (cf. Is 40,3a, Jo 10,3-4;).
Outras palavras para designar o deserto são: ’Arabá, “ermo” cuja significação fundamental coincide com a de Midbar (cf. Is 35,1.6; 40,3; 41,19; 51,3); Horbah, que denota “ruína”, “desolação”. Yésimón, que quer dizer etimologicamente “devastação”. O profeta Jeremias, escrevendo da cidade de Anatot — com o deserto de Judá à vista — descreve o que significa um deserto enquanto terra totalmente estéril, qualificandoo de “terra onde não se semeia... terra de areais e barrancos, terra árida e tenebrosa, terra por onde ninguém transita e onde não se habita” (Jr 2,2.6).
Entretanto, todas as vezes que encontramos o vocábulo “deserto” em nossas edições da Bíblia, não é exatamente dessa descrição de Jeremias que se trata. Muitas vezes, está-se falando de deserto enquanto zona de transição entre uma terra fértil e outra árida. O termo português mais adequado seria “estepe” e é este significado que usaremos neste artigo daqui em diante.
Na estação que segue às chuvas torrenciais, essa faixa de terra semifértil se reveste de arbustos reverdejantes e relva salpicada de infinitas flores de cores variadas. Não é um absurdo, portanto, os profetas afirmarem que nos tempos messiânicos, o deserto se tornará fértil, será um pasto para o rebanho.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

NÃO VOS PREOCUPEIS COM O DIA DE AMANHÃ

Aíla L. Pinheiro de Andrade*

Roteiro Homilético para 8º Domingo do Tempo Comum

I. INTRODUÇÃO GERAL

Muitas vezes o povo de Israel, durante períodos de sofrimento, duvidou da presença de Deus (Ex 17,7c; Is 49,14). Mas a primeira leitura nos assegura, por meio do profeta, que o amor de Deus pelo povo é maior que o amor de uma mãe pelo filho (Is 49,15). Deus jamais abandona a criatura que foi chamada à vida por amor. Contudo, com muita facili- dade as pessoas duvidam do amor e da assis- tência de Deus. Por isso, no evangelho, Jesus, o revelador por excelência do amor de Deus, garante-nos: Não vos preocupeis, vosso Pai cuida de vós (Mt 6,25). A segunda leitura nos diz que Deus manifestará as intenções dos corações (1Cor 4,5). Geralmente, o que angustia os corações é motivado pelas ambições, pelo hiperativismo e por outros interesses que tomam o tempo das pessoas e lhes dificultam um encontro pessoal com o Deus de amor.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 6,24-34): Buscai primeiro o reino de Deus

“Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). No idioma original, em vez de “dinheiro” está escrito “Mamon”, o deus das riquezas. O termo “Mamon” significa “te- souro”, “aquilo em que se põe a confiança”, “aquilo em que alguém se apoia”, “coisa que serve de alicerce”. Dessa forma, o dinheiro ou Mamon é um senhor tirânico que exige total atenção, que ocupa a mente de seu servidor, que lhe causa a preocupação de perdê-lo.
Para melhor compreender o que Jesus está querendo nos dizer na liturgia de hoje, tomemos um exemplo: imaginemos que alguém está se afogando e encontra uma tábua em que se pode apoiar. Essa tábua será de extrema importância para o náufrago, que acredita perecer sem esse apoio. Agora imaginemos que alguém ordene ao náufrago que solte a tábua. Certamente o náufrago recusará e lutará para não soltar seu apoio. É isso que significa Mamon, um apoio ao qual se dá total confiança e sem o qual se acredita não ser possível viver.
Muitas pessoas têm uma relação assim com os bens materiais. Não confiam em Deus porque confiam apenas neles. Por isso, não se pode servir a Deus e ao dinheiro (Ma- mon). E, quanto mais riqueza, mais fácil se torna cair na tentação de servir a Mamon. Contudo, o que Jesus ressalta é que todos os seus discípulos necessitam estar em vi- gilância para não idolatrar o dinheiro, seja ele muito ou pouco. O serviço ao dinheiro (Mamon) não se define pela quantidade dos bens, mas pela relação que se tem com eles. Jesus denuncia esse perigo e exortou seus discípulos a se dedicar primeiramente à construção do Reino, sendo tudo o mais secundário.

2. I leitura (Is 49,14-15): Eu jamais te esquecerei

As Sagradas Escrituras afirmam que “o Altíssimo cuida” (Sb 5,15). O ser humano deve viver na confiança de que Deus vela por ele. Deus guarda seus filhos em tudo e sempre. Como Pai-Mãe amoroso, ele sabe de tudo aquilo de seus filhos necessitam e não os esquece um só momento.
É verdade que existem sofrimentos e pro- vações pelos quais passa toda a humanidade. Não há nenhuma pessoa que passe uma vida inteira sem experimentar algum tipo de sofrimento. Nesses momentos, é difícil perceber o amor e o cuidado de Deus. Mas também são esses momentos que mais exi- gem a fidelidade a Deus e a confiança nele. É necessário olhar para além da dificuldade a fim de ver o amor de Deus, apesar de tudo parecer afirmar o contrário. Às vezes, não é possível encontrar nenhuma explicação para o sofrimento. Mesmo assim, nunca deverí- amos desconfiar do amor de Deus. O amor verdadeiro não tem explicação, simplesmente acontece. Temos de dar lugar ao mistério e abandonar a arrogância de pensar que tudo tem uma explicação ou que necessitamos de explicação como condição para o amor.

3. II leitura (1Cor 4,1-5): Somos servidores de Cristo

Muitas vezes, nas nossas comunidades, nos chateamos porque não temos reconheci- mento por nossas atividades. Nesse texto da primeira carta aos Coríntios, Paulo exorta os cristãos, falando a respeito de suas preocu- pações. A vida cristã não terá como centro as ambições, o hiperativismo, a busca de reconhecimento ou qualquer outra coisa que desvie a atenção do realmente importante: o amor de Deus.
É na lógica do amor e da gratuidade que Paulo afirma serem os cristãos “ministros de Cristo e administradores de Deus”. O amor que recebemos do Pai é pura gratuidade. Quando se é fiel ao que se recebe de Deus, as vãs preocupações se dissipam, deixando lugar para a ação dele na vida da comuni- dade. Quando se serve por amor, não há preocupação com o julgamento humano. Espera-se o julgamento de Deus, que conhe- ce os corações e, no devido tempo, manifes- tará a consistência das intenções humanas. Para quem ama, o louvor devido a Deus é simplesmente vislumbrar a realização da sua obra e alegrar-se com isso.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O futuro a Deus pertence! Preocupar-se demasiadamente com o amanhã é a grande tentação de não confiar que Deus sustenta seus filhos. Mas isso não significa ficar de braços cruzados, esperando as coisas caírem do céu. Significa crer que Deus cuida de seus filhos em todas as situações da vida, embora muitas vezes não seja notado. Quando não percebe- mos a presença de Deus, somos tentados a pôr total confiança nos bens materiais ou em certas pessoas. No entanto, bens e pessoas passam, pois são finitos. Somente o infinito pode dar sentido à vida humana. E o amor de Deus é eterno, infinito, perene. É esse amor que nos consola nos momentos difíceis da vida. É ele que nos impulsiona a servir a Deus na pessoa do irmão, mesmo quando não há reconheci- mento do nosso trabalho.


* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.