quinta-feira, 25 de agosto de 2011

DOIS IRMÃOS

*Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Numa leitura superficial sobre Caim e Abel, Deus aparece como um sanguinário que provoca o primeiro assassinato. Mas a base desse texto é a crença de que a vida (vegetal, animal, humana) vinha de Deus e por isso se fazia oferenda em reconhecimento disso. Para a Escritura a oferenda não podia ser apenas para se evitar um castigo de Deus. No texto bíblico não parece que o Criador abençoe uma oferta de sangue em vez de vegetais. O que o texto diz é o seguinte: Caim: “trouxe do fruto da terra uma oferta” (Gn 4,3) e não as primícias. Ou seja, apenas cumpriu um ritual para assegurar a colheita do ano seguinte.

“Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura (em hebraico: lev = coração)" (Gn 4,4). Abel trouxe o melhor. O único sangue que aparece neste texto é o de Abel (v. 10). Esse texto quer falar de inveja, de ganância e de pessoas que usam a religião em função dos próprios interesses. Não há nenhuma referência a um Deus sanguinário, mas a um homem sanguinário. A tradição popular de Caim e Abel falava do difícil processo de sedentarização dos hebreus, principalmente por causa do Quenitas (Caim) que eram muito violentos.

Trata-se de um conflito entre povos. O pastor é nômade porque a vida dele está nos rebanhos ao qual ele deve acompanhar. O agricultor é sedentário porque toda a riqueza dele está na semente que depositou no solo e que ele defende a qualquer custo. Para o pastor a terra foi doada por Deus a todas as pessoas e quem não partilha a terra está sendo ambicioso.

Vejamos esse mito em três versões:

1) A versão do agricultor: Era uma vez os deuses sumérios Dumuzi, o pastor, que competiu com Enkimdu, agricultor, pelo amor de Inanna. Esta escolheu Dumuzi como marido. Por causa da ambição dela (desejo de trazer o mundo inferior sob seu domínio), Inanna decidiu descer ao mundo inferior, no qual ficou presa. E Enkimdu fez magias pelas quais Inanna foi estabelecida à vida. Entretanto havia uma lei no mundo inferior que ninguém poderia ser devolvido à superfície sem prover um substituto. E Dumuzi, o marido devia substituí-la. Só que Dumuzi não podia ser mantido lá para sempre e voltava a cada primavera. E assim Dumuzi passou a ser considerado Tammuz, responsável pela fertilidade do solo.

2) A versão do Pastor: Era uma vez Caim (EnKimdu) e Abel (Dumuzi) que competiam pelo amor do SENHOR. Parece que o problema não foi a oferta, mas o coração do ofertante. Naquele contexto era impossível conciliar pastores e agricultores, inimigos mortais, pois ovelhas invadiam as plantações, mas o autor bíblico teve a coragem de afirmar: “O pastor (Abel) e o agricultor (Caim) são irmãos”.

Essa narrativa bíblica parece ser do mesmo contexto de Is 56, quando se propõe uma abertura religiosa. Uma época em que os judeus já estão há bastante tempo no exílio da Babilônia. O mais importante para aqueles que estão no estrangeiro é ser luz para as nações e não guerrear com elas. Por isso o autor, do texto de Caim-Abel, no exílio, diz *somos irmãos*. Lembremos que a Babilônia foi acusada de ambiciosa e invejosa (2Rs 20,15). A Babilônia seria Caim e Judá seria Abel.

No processo histórico, o nomadismo veio antes da sedentarização, no entanto, a narrativa nos diz como o SENHOR castigou Caim: “serás fugitivo e errante pela terra. Então, disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará” (Gn 4,12-14).

Então:
a) Aquele que era sedentário se tornou nômade (errante). O inverso (proposital) do processo histórico. Deus estaria dizendo: Caim
(sedentário) seu castigo será viver a vida que você tirou do seu oponente (nômade). Pois, somente se colocando no lugar do outro é que poderá entendê-lo;

b) O texto dá uma dica clara sobre o contexto histórico, perguntemos: para quem “ser lançado para fora da terra” é um castigo insuportável? O judeu fora de Israel. Viver errante é viver no exílio, na diáspora. No final, tanto Abel, quanto Caim, são apenas duas faces da mesma moeda, ou da mesma pessoa.

3) A versão de Jesus: Era uma vez um homem que tinha dois filhos (Lc 15,11). O mais novo "se mandou pelo mundo", e gastou tudo numa vida dissoluta. Depois que a "grana" acabou e os “amigos” sumiram, ele voltou para casa, confiando no amor de seu pai. Este ficou feliz, mandou matar o novilho cevado (o melhor) para o filho. Será que tem alguma coisa a ver com Abel também ter dado o que tinha de melhor? Mas, o filho mais velho, voltando do campo (Lc 15,25, era agricultor) ficou indignado: “nunca mataste um cabrito pra mim?” (Lc 15, 29) (inveja e ambição). E acusou o irmão de gastar o patrimônio da família com prostitutas (Lc 15,30). Exagero muito comum aos judeus mais rigorosos, acusar os judeus da Diáspora e os gentios em geral de idólatras (= prostituição). A primeira parte da parábola apenas afirma que o filho mais novo foi dissoluto, que os amigos só duraram enquanto a grana durou e que ele sofreu muito. Mesmo assim o pai quer bem aos dois por igual.

A parábola do Filho pródigo deve ser estudada no contexto das outras duas parábolas dos perdidos: a ovelha e a moeda. O contexto é de um debate entre Jesus e alguns escribas Lc 14. O evangelista quer mostrar que Jesus contou algumas parábolas para explicar seus argumentos aos opositores. Jesus aproxima-se dos pecadores porque esta é a vontade do Pai Criador. Esta vontade já estava expressa na releitura bíblica dos mitos antigos e nas Escrituras dos Judeus.

O texto de Caim e Abel é um mashal para dizer aos judeus da época que os babilônicos ou qualquer outro adversário deve ser considerado irmão. É verdade que há violência entre as pessoas, mas Deus nos fez irmãos e não inimigos eternos como afirmava o mito antigo.

Bem, os três textos falam de conflitos e discórdias. O texto de Gn não é apenas a versão pastoril. O SENHOR ama Caim e ama Abel, só que a ferta de Caim não valeu, pois não veio do coração. Não adianta só cumprir um ritual. O filho mais velho do texto de Lc também cumpre tudo (Lc 15,29) e não ama, nem uma vez pronuncia a palavra PAI.

Os dois textos bíblicos dizem: somos irmãos. Deus não quer guerra entre pastores e agricultores, eles não são inimigos, são irmãos. IRMÃO, palavra mais repetida no texto de Caim e Abel. Deus não quer guerra entre as etnias, nações e religiões. Jesus não quer a discórdia entre seu seguidores e o povo a que ele pertence (Lc 15,1-2).


* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O tesouro do Reino: discernir e preferir (Mt 13,44-52)

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*  

Roteiro Homilético para o 17º Domingo do Tempo Comum – ano A

Evangelho
O trecho do evangelho de hoje traz mais uma série de parábolas sobre o Reino dos céus (ou de Deus).

Primeiramente, o Reino é comparado a um tesouro escondido em um campo e encontrado por um homem (v.44). Algumas coisas são afirmadas sobre esse personagem:
- ele encontrou o tesouro
- ele o escondeu novamente
- ele ficou muito feliz (transbordando de alegria)
- ele vendeu tudo que tinha porque preferiu o tesouro
- ele não podia comprar o tesouro, mas apenas o campo onde o encontrou

A estranheza nesse texto do evangelho é a atitude desonesta do homem. Conforme a Torah (o Pentateuco), ele tinha o dever de informar a descoberta para o dono do campo. Esse elemento que choca o nosso senso ético tem o propósito de chamar a nossa atenção para o significado espiritual. As parábolas fazem uma comparação entre a realidade espiritual e a realidade material. O elemento estranho serve para assegurar que a realidade do Reino é incomparável, está muito além do que podemos imaginar. Essa transação comercial não seria possível naquela época nas condições descritas pela parábola. O elemento estranho serve para implodir a estorinha depois de narrada, para que fiquemos apenas com o ensinamento.

E qual é o ensinamento da parábola? Que quando alguém encontra o Reino, mesmo sem o ter procurado, fica tão feliz a ponto de preferi-lo a qualquer coisa. Tudo se torna relativo em comparação com o Reino. Mas quem olha de fora, sem ter feito a experiência com Jesus, não entende os motivos da renúncia e do desprendimento, o Reino permanece invisível para quem não o encontrou. Ensina também que ninguém tem mérito para possuir o Reino, ele nos é dado por Jesus, nós não podemos comprá-lo, mas apenas renunciar a tudo por ele.

A segunda parábola (v. 45-46) está na mesma linha de reflexão que a primeira. A diferença principal é que a pérola de grande valor foi encontrada por alguém que se esforçava em procurá-la (grego: zetéo). Encontrar o Reino é resposta a uma busca insistente pelo Bem, pela Verdade e pelos demais valores que são alvos dos anseios humanos.

Um detalhe importante e não narrado, mas suposto, é que a formação da pérola se dá somente quando a ostra é ferida. Quando um corpo estranho (geralmente um grão de areia) consegue penetrar na concha, a ostra o isola para se defender. A pérola é consequência dessa defesa, é a lágrima da ostra ferida. O que começou como um desastre para a ostra pode se transformar na jóia mais bonita.

A terceira é a parábola da rede (v. 47-50). O termo grego “sagéne” é dado para um equipamento de pesca semelhante a uma draga no fundo do lago arrastada pelo barco e que recolhe todo tipo de coisa.

O ensinamento é o mesmo da parábola do joio. Até que chegue o final dos tempos, os bons e os maus devem conviver. Os que buscam o Reino devem ter misericórdia para com aqueles que não o buscam ainda. A rede está varrendo o fundo desse lago e ninguém escapa dela. Alguns ainda estão no início do processo de amadurecimento, outros já fizeram grandes renúncias. Mas estamos todos juntos, na mesma rede.

Não nos assustemos com a menção da fornalha (v.50), não devemos entendê-la de forma literal, ainda se trata de uma comparação e com o objetivo de retomar a parábola do joio (v. 42). A fornalha é onde se purifica o metal como o ouro e a prata dos quais se retiram as impurezas. É verdade que a purificação dói, mas também é verdade que ela nos torna valiosos, dignos da vocação que recebemos.

“Compreendestes tudo isto? Sim, Senhor, responderam eles” (v. 51).

Se compreendermos que o Reino exige escolhas e que devemos tomar decisões difíceis por causa dele. Que a felicidade do Reino não vem em curto prazo. Que uma lágrima pode se tornar uma pérola de grande valor. Se compreendermos que Jesus foi o primeiro a renunciar seus privilégios para se encarnar em nosso meio. Se entendermos que o tipo de morte que ele sofreu era o pior que poderia acontecer a um ser humano. Se compreendermos que ele não fez tudo isso apenas pelos bons, mas principalmente pelos piores pecadores. Enfim, se compreendermos tudo isso, não intelectualmente, mas com o coração e a vida, é sinal de que já somo doutores no evangelho, somos escribas instruídos do Reino. Saberemos tirar do velho depósito da primeira fase da revelação (Antigo Testamento) a novidade da Palavra de Deus sempre atual.


* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral. 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O crescimento do Reino e a Misericórdia de Deus (Mt 13, 24-43)


16º Domingo do Tempo Comum - Ano A





O texto de Mt 13,1-23 apresenta o Reino de Deus como uma semeadura. Os relatos que vêm em seguida (Mt 13, 24-43) desenvolvem mais profundamente esse tema por meio de outras parábolas. O texto começa com parábola do joio plantado no trigal (v. 24-30). O mundo é um campo misto, onde o trigo e o joio crescem; e é impossível separar o trigo do joio, enquanto estivermos neste mundo, uma vez que estão bem misturados.

Jesus nos pede paciência. Ele nos ensina, com a própria vida, que somos capazes de existir e de dar frutos em um mundo plural, numa época em que o bem e o mal estão entrelaçados. Portanto, não devemos transformar o mundo num campo de batalha, cada um querendo eliminar seu adversário. Certamente existe o joio, mas não é possível traçar uma linha no chão e dizer “deste lado está o bem e do lado de lá está o mal”. O joio está tão misturado com o trigo, que até mesmo no interior e nas ações das pessoas mais religiosas o joio está presente. Somente no fim dos tempos Cristo poderá separar o joio do trigo.

Por enquanto, permanece o mundo paradoxal. Essa ideia é completada pelas parábolas que vêm em seguida: a da menor semente (v. 31-32) e a do fermento nas três medidas de farinha (v. 33). Primeiramente, Jesus mostrou uma oposição entre duas sementes e entre dois semeadores; agora, destaca o contraste entre o tamanho da semente e o tamanho da hortaliça e entre a pequena medida de fermento e a quantidade da massa. As oposições convivem no mundo. Os servos do dono da casa querem antecipar o juízo dentro da história, destruindo o joio à força. Esta é a tentação de nosso momento histórico, queremos eliminar as oposições pela força da violência contra o outro que temos por adversário ou desafeto.

Cristo, ao contrário, não entende o mundo como um campo de batalha e deixa a sua semente crescer e amadurecer no meio do joio. Um mundo onde só existe o trigo é outro tipo de mundo, no qual se vive plenamente o amor, e o Cristo o chamava de Reino de Deus. Se formos intolerantes com as pessoas, isso mostra que o joio está em nós, porque não estamos produzindo frutos de amor, mas de violência velada e sutil. E violência é fruto do joio semeado no coração.

E como fica a luta por justiça? Ela deve permanecer. Devemos estar atentos para que o joio não seja semeado e não contamine o campo inteiro. O que Jesus nos proíbe é fazer justiça com as próprias mãos, é disseminar o ódio e a violência. Jesus espera que sejamos o bom trigo e não o joio.

Os cristãos são muitos, mas os que verdadeiramente seguem Jesus constituem um pequeno número, são como a mostarda e o fermento, mas, como a força do trigo é o amor, esses poucos e verdadeiros cristãos fazem com que este mundo caminhe para uma plenitude. Enquanto não chega o fim dos tempos, devemos agir como Deus age.

Para o livro da Sabedoria (Sb 12,13.16-19), Deus é o Senhor absoluto de todas as criaturas e não há outro Deus: essa é a afirmação bíblica do monoteísmo. Apesar de sua onipotência, ele prefere agir com misericórdia em relação às suas criaturas. O domínio de Deus sobre as criaturas estende o amor dele sobre todos os seres, com especial atenção ao ser humano, mais digno de misericórdia porque é o único que peca. Isso não significa que Deus não seja justo, mas que nele se harmonizam misericórdia e justiça.

O modo como Deus age em relação aos incrédulos e aos pecadores leva o autor do livro da Sabedoria a concluir que Israel deve agir para com todos os povos, igualmente, com misericórdia, a exemplo de Deus, misericordioso e compassivo. Ao levar a sério o monoteísmo, Israel teve uma lição de humanismo, teve de ir além da lei do “olho por olho”. Isso preparou o povo para a revelação do Novo Testamento sobre o amor aos inimigos. O texto do livro da Sabedoria também sugere que a salvação é para todos os povos, e isso prepara o anúncio da salvação universal feita pela Igreja primitiva.

Salvação que não é obra humana, afirma o texto de Rm 8,26-27. A salvação é dom de Deus e vem a nós por intermédio de Jesus Cristo. O nosso empenho consiste é na santificação, pelo Espírito Santo. A santificação é realizada ao longo de nossa existência numa configuração de nossa vida ao modo como Cristo viveu, ou seja, fazendo a vontade de Deus.

Mas é difícil ajustarmo-nos à vontade divina; em muitos momentos da vida não conseguimos nem discerni-la. Não sabemos sequer o que pedir a Deus, e muitas vezes, sem saber, insistimos com ele para que nos conceda algo que poderá ser prejudicial a nós ou aos outros. Somos como bebês que tentam se comunicar sem ainda poder articular palavras compreensíveis, que fazem sons sem sentido como reação às palavras, olhares e carinhos dos adultos. O Espírito Santo, em nós, faz a mediação, transmitindo ao Pai o que não conseguimos expressar devido à nossa pequenez, à nossa fragilidade.

O Espírito Santo se faz solidário a nós, não tira a nossa fraqueza, mas nos ajuda em nossa debilidade. Sem a ajuda do Espírito Santo, não saberíamos sequer o que dizer a Deus em nossas orações. Mesmo quando pensamos que sabemos o que devemos pedir, podemos estar totalmente equivocados. O dom do Espírito Santo é a prova de que Deus cuida de nós em todos os sentidos.

Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Semeador saiu a semear (Mt 13,1-23)


Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

Roteiro Homilético para 15º Domingo do Tempo Comum

Evangelho
As leituras de hoje destacam os diversos modos de recepção da Palavra de Deus. O trecho do evangelho começa com a parábola do semeador (v. 3-9), destacando diversos tipos de solo onde a semente cai por acaso. A primeira parte, das sementes que foram lançadas, caiu à beira do caminho, quer dizer, onde o solo não tinha sido arado, dessa forma não pode penetrar na terra, ficando exposta aos pássaros que facilmente se alimentaram dela.

Outra parte da semente caiu onde o solo era duro e rochoso com pouca terra, de forma que as raízes não puderam penetrar embaixo da terra para sugar a umidade, isto fez com que as raízes não tivessem forças suficientes para a planta se apoiar e murchasse rapidamente sob o forte calor do sol.

Algumas sementes, continua o texto, caíram na parte do campo onde espinheiros não tinham sido totalmente tirados e destruídos. Os espinheiros cresceram junto com as plantas geradas pela semente. Eles se multiplicaram em quantidade e tamanho, sugaram os nutrientes da terra e impediram a planta de crescer, sufocando-a.

A última parte, por fim, caiu em solo apropriado para o plantio, mesmo assim a produção não foi totalmente cem por cento, conforme se esperava.

Em seguida temos a pergunta dos discípulos sobre o motivo pelo qual Jesus fala às multidões parábolas (v. 10). Jesus responde que os mistérios do reino são revelados somente para quem é discípulo dele. Dizia isto porque as parábolas eram um ensinamento enigmático, ao contrário do que se pensa, quase ninguém as compreendia. As pessoas da multidão tinham uma idéia diferente sobre o reino de Deus, elas pensavam que se tratava do domínio político de Israel sobre as outras nações. Por isso, nem mesmo os discípulos entendiam as parábolas e Jesus tinha que explica-las quando estava a sós com eles.

As multidões eram interesseiras, buscavam Jesus apenas porque queriam a solução imediata de seus problemas e, portanto, queriam obrigar Jesus a ser rei. Para elas as parábolas continuavam sendo um enigma, somente quem tinha se despojado de tudo para seguir Jesus poderia entender o enigma das parábolas quando Jesus as explicava.

Quem permanece na multidão egoísta e não passa para o grupo dos despojado (os discípulos) merece a crítica que o profeta Isaías havia feito aos seus contemporâneos rebeldes (Is 6,9; Mt 13, 14-15). Quem fez a travessia de um grupo a outro, ou seja, quem converteu o coração, merece uma bem-aventurança, pois vivem um momento privilegiado da história da salvação, graça que muitos desejaram presenciar e não lhes foi concedida.

Depois disto temos a explicação da parábola. A semente representa a palavra de Deus comunicada de várias maneiras às pessoas. Jesus é o caminho, nele Deus se revela plenamente ao ser humano; em Jesus temos acesso ao Pai. À margem do caminho, ou seja, sem uma adesão a Jesus, a palavra de Deus não é compreendida de forma profunda, não tem consistência na vida das pessoas e o maligno, representado pelos pássaros, facilmente a arrebata dos corações. É necessário estar no caminho que é Jesus, no caminho da cruz-ressurreição para que a palavra de Deus produza frutos de santidade. Somente o verdadeiro discípulo pode compreender isto, a multidão interesseira não quer saber da cruz, querem apenas “se dar bem”.

Outro tipo de pessoa que recebe a palavra do reino é aquele ouve o evangelho como algo novo e agradável, deixando-o encantado com a vida da igreja e cheio de zelo para com ela, até mesmo que com certo fanatismo. Mas seu engajamento na construção do reino de Deus não tem raízes profundas. Esse tipo de pessoa é como afirma o dito popular “é fogo de palha”, dura pouco, e sob qualquer dificuldade se escandaliza. Se é para louvar e cantar ou ter um pouco de destaque pode-se contar com esse tipo de pessoa, mas se há alguma exigência de compromisso, por menor que seja, então já não há disponibilidade.

O terceiro tipo de pessoa que recebe a palavra de Deus é constituído por aqueles que são fascinados pelas riquezas e se rendem a tudo que o mundo oferece como receita mágica de felicidade. Sucumbe à tentação para ser desonesto, enganar, tirar vantagem dos outros, oprimir etc. A palavra é sufocada por diversas vozes que impedem a consciência de ouvir os apelos de Jesus. Nesse estado de espírito, os bons sentimentos e pensamentos não têm força para resistir a vozes tão fortes.

O último tipo de pessoa é como a semente que cai em solo bom, ou seja, quando o coração se submete à influência da palavra tal e qual a semente em um campo amplo sem nada que a sufoque e sem que os raios do sol a sequem. Quando o coração retira sua seiva vital da experiência pessoal com Cristo ressuscitado. Um coração assim é como um solo no qual a palavra se desenvolve e se fortalece exuberante sob os raios da manhã e o orvalho da noite. Mesmo nestas condições, algumas pessoas não produzem totalmente os frutos esperados por Deus, frutos de santidade, justiça, paz e fraternidade.

Então, todas as sementes eram boas, todas tinham um potencial para produzir cem por cento, o problema era o solo. Isto nos leva a perguntar sobre os motivos pelos quais o semeador desperdiçou suas sementes em solos ruins. Mas, com a afirmação de que “parte da semente caiu” em tal lugar, a parábola quer dizer que não era intenção do semeador plantar em solo ruim, o semeador esperava que todas as sementes caíssem em solo bom e que produzissem cem por cento. Contudo, o semeador sabia que algumas sementes não iriam atingir seu pleno potencial, mas isto não o impediu de realizar a semeadura. Isto significa que mesmo correndo o risco de desperdiçar a semente (a palavra) o semeador deve sempre semear, o evangelizador deve sempre evangelizar.


* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.