segunda-feira, 9 de julho de 2012

CHAMADOS E ENVIADOS PARA PROCLAMAR A CONVERSÃO


15º DOMINGO COMUM – B (15 de julho)

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj *

(Texto publicado originalmente em Revista Vida Pastoral ano 53 - número 285, julho-agosto de 2012).




I. INTRODUÇÃO GERAL
Deus, com absoluta liberdade, chama todos e cada um em particular. Isso significa que ele não faz acepção de pessoas, mas todos são vocacionados à filiação divina, suprema vocação humana, embora haja distintas missões, conforme os desígnios de Deus. Para o exercício do anúncio do evangelho, algumas coisas são exigidas dos enviados e dos destinatários. Dos primeiros se exige que renunciem aos interesses egoístas e se dediquem com afinco à proclamação do reino, mesmo que o missionário se torne malquisto ou rejeitado. Exemplo disso é Amós, que não falou palavras agradáveis e não buscou os próprios interesses. Dos destinatários da missão se requer a acolhida ao missionário como enviado de Deus e a docilidade à palavra divina por ele proclamada.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mc 6,7-13): Chamou os Doze e os enviou dois a dois
Esse trecho do Evangelho de Marcos nos insere no âmago da vocação da Igreja, que é ser missionária.
A comunidade, representada pelos Doze, é formada pelos discípulos seguidores de Jesus, que participam da vida e missão de seu mestre. São seguidores porque foram convocados por Jesus para segui-lo e a ele responderam afirmativamente. Isso significa que a vocação cristã não se fundamenta em méritos pessoais, mas unicamente no amor e na gratuidade de Deus, por meio de Jesus, e no consentimento humano.
Uma vez chamados, os discípulos são enviados a serviço da transformação deste mundo em um reino de fraternidade e paz. Jesus os envia com o mesmo poder e autoridade porque o discípulo participa da missão do Mestre, assumindo seu estilo de vida e seu destino. Esse poder e autoridade estão a serviço do anúncio do reino, não são para benefício próprio. O poder sobre os espíritos impuros ou sobre enfermidades significa que o reino de Deus se expande enquanto o reino da morte e do pecado cede espaço. Não há nenhum poder mágico, mas a ação de Deus que destrói o poder das trevas quando a luz de Cristo é levada aos povos.
O envio de dois em dois é muito importante, por causa do apoio mútuo e da deliberação a respeito da melhor forma de evangelizar em cada local, ressaltando assim o sentido da vida em comunidade. Isso também mostra que os discípulos estavam de acordo a respeito do conteúdo da mensagem, o que evitava possíveis desconfianças nos ouvintes, pois naquela época havia muitos charlatães prometendo felicidade em troca de benefícios.
A missão dos Doze exige empenho, que se traduz principalmente em despojamento: não lhes é permitido levar nada do que geralmente se levava numa viagem, para que a provisão viesse de quem os acolhesse. Não se preocupando em levar pão, não cobravam nada para poder comprá-lo. Apenas sandálias foram permitidas, porque teriam longo caminho a trilhar. Além das sandálias, um só bastão para se defender das feras. Por conta da urgência do anúncio, não deviam perder tempo com quem rejeitasse a mensagem. Dessa forma, o anúncio chegaria com rapidez e eficácia àqueles que o acolhessem com fé.

2. I leitura (Am 7,12-15): Vai, profetiza para meu povo
Na primeira leitura, o sacerdote Amasias pensa que o profeta Amós usa a religião para ganhar dinheiro. O sacerdote se sente incomodado com as profecias de Amós e tenta persuadi-lo a ir embora, aconselhando-o a ganhar dinheiro em outro lugar, pois ali é Betel, santuário real, e as críticas do profeta não são nada agradáveis ao rei. Amós informa que não pertence a nenhum grupo de “profetas”, como eram chamados os conselheiros dos reis. Ele não usa a religião para ganhar dinheiro, mas tem sua própria profissão.
Amós não profetizava por decisão pessoal, ele apenas correspondeu ao chamado de Deus. Não deu a si mesmo essa tarefa e, aliás, ela não era nada lucrativa para ele; ao contrário, ao criticar o rei, o profeta poderia receber grandes represálias. O que Amós estava fazendo nada mais era que obedecendo a uma ordem de Deus, que o chamou e o enviou a profetizar para que Israel voltasse ao caminho que os antepassados haviam percorrido com o Senhor durante toda a história da salvação. A mensagem podia até não ser agradável, mas visava ao arrependimento e à conversão.

3. II leitura (Ef 1,3-14): Em Cristo, Deus nos chamou a ser seus filhos
A segunda leitura de hoje nos apresenta a vocação humana, ou seja, o plano divino da salvação para os seres humanos: abençoados em Cristo, escolhidos nele antes da criação do mundo e designados para serem filhos de Deus. Esse grandioso desígnio de salvação se realiza mediante Cristo na oferta de sua própria vida, que nos redime do pecado e nos confere a sua graça. Mas isso não excluiu a colaboração humana; ao contrário, exige fé e empenho pessoal para viver em santidade. Além disso, essa sublime vocação humana demanda o anúncio da “palavra da verdade”, isto é, o “evangelho da salvação”.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
– Os vocacionados à missão recebem a instrução de nada levar na viagem a não ser o estritamente necessário, pois Deus cuidará do sustento deles por meio da hospitalidade oferecida aonde forem. A hospitalidade era um costume e até mesmo uma lei universal na sociedade antiga. Lendas folclóricas asseguravam que os deuses se disfarçavam de seres humanos para testar a hospitalidade das pessoas e, caso não fossem acolhidos, podiam-se esperar severos castigos. A sociedade moderna não oferece as mesmas condições e os mesmos costumes da sociedade antiga, contudo permanece a orientação de Jesus a respeito do desprendimento que cada vocacionado deve ter.
– É bom ressaltar o exemplo de Amós, que tinha liberdade para dizer o que Deus lhe ordenava, pois, se não dependia da religião para o próprio sustento, não sentia a imposição de dizer somente as palavras que agradassem aos ouvintes. Também Paulo é exemplo de abandono nas mãos de Deus.
– Pode-se enfocar o exemplo do apóstolo Paulo, que reconhecia as próprias fraquezas e limitações, consciente de que a missão só podia ser levada a termo porque Deus o fortalecia e o capacitava.
– Deve-se destacar também o papel da comunidade no êxito da missão. A hospitalidade dada aos missionários na Antiguidade pode ser atualizada na sociedade moderna em diversos atos que promovam o desenvolvimento da missão.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade  é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

sábado, 7 de julho de 2012

ENVIADOS POR DEUS E REJEITADOS PELOS SEUS

Roteiro Homilético para o XIV Domingo Comum – B (8 de julho)
Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj *

(Texto publicado originalmente em Revista Vida Pastoral ano 53 - número 285, julho-agosto de 2012).

I. INTRODUÇÃO GERAL
O tema da liturgia de hoje é a rejeição à palavra de Deus. No evangelho, os contemporâneos de Jesus não lhe dão crédito porque não conseguem ver nele nada mais que um carpinteiro. Mas isso não é fato pontual, já havia incredulidade no tempo dos profetas. A primeira leitura menciona a falta de fé dos contemporâneos de Ezequiel, porque têm um coração insensível. O profeta é orientado a insistir na proclamação da palavra de Deus mesmo que seus contemporâneos não queiram ouvi-la. Assim também agiu Paulo, que, em vez de desanimar com as dificuldades, continuou com o anúncio do evangelho e nos ensinou a dizer: “quando sou fraco, então é que sou forte”.



II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mc 6,1-6): O profeta é desprezado na própria terra
Passando novamente por sua própria terra, Jesus encontrou dificuldade para operar milagres por causa da falta de fé. Ele se dirigiu à sinagoga no dia de sábado, como todo judeu adulto, e tomou a palavra para ensinar. Não se tratava de qualquer instrução, pois o lugar e o dia faziam disso um ensino oficial e litúrgico.
O ensino de Jesus causa duas reações contrárias: admiração e recusa. Essa disposição para com Jesus marca todo o Evangelho de Marcos, tendo como principais protagonistas dessa recusa os líderes religiosos de seu próprio povo, Israel.
A admiração diante do ensinamento de Jesus estava relacionada com sua autoridade, que não vinha de sua profissão. Ele não tinha a profissão de Rabino (mestre), mas de artesão da madeira. O fato de ser carpinteiro não era desonra, pois se tratava de profissão bem considerada. Essa afirmação apenas prova que os seus compatriotas o conheciam bem e se admiravam que fosse sábio e fizesse milagres, quando o normal seria apenas trabalhar com a madeira. O objetivo aqui é mostrar que a sabedoria e o poder de Jesus não vêm das pessoas, não se adquirem como uma profissão, mas vêm de Deus.
Em seguida, a admiração inicial transformou-se em hostilidade, sinal da incredulidade ante as obras de Jesus. O episódio retrata que os galileus estavam marcados pelo preconceito: admiravam as obras de Jesus, mas não o acolheram. Essa falta de acolhimento o impossibilitou de fazer milagres em sua própria terra, uma vez que os milagres significavam o avanço do reino de Deus e o retrocesso do antirreino, e isso só era possível onde havia fé em Jesus como Messias/Cristo. O preconceito fechou os corações, e os galileus não perceberam a ação de Deus em Jesus.

2. I leitura (Ez 2,2-5): O profeta anuncia, quer escutem, quer não
O texto diz que o sopro de Deus entrou em Ezequiel: isso significa que agora ele é inspirado e movido pelo dom da profecia e o que vai anunciar é palavra de Deus. O Espírito põe o profeta de pé, em atitude de prontidão, para anunciar ao povo a profecia que vai receber.
Ezequiel é enviado aos filhos de Israel. Algo fora do comum acontece no v. 3: em vez de Israel ser chamado “povo de Deus”, como geralmente acontece na Bíblia, é chamado de “nação rebelde”, literalmente “gentio rebelde”. Na Bíblia, “gentio” está sempre em oposição a Israel, que é sempre referido como “o povo”. Isso significa que, quando Israel rejeita a palavra de Deus, se torna igual aos gentios.
A rebeldia dos contemporâneos de Ezequiel vinha de longa data, as gerações passadas se comportaram da mesma forma. As perspectivas da recepção da profecia por parte dos destinatários não são nada animadoras para Ezequiel, pois eles têm a face endurecida e o coração obstinado. Quer escutem, quer não, saberão que “houve um profeta entre eles”. Essa expressão significa que Deus é misericordioso e os advertiu, e que eles já não têm desculpas para o erro.

3. II leitura (2Cor 12,7-10): Prefiro gloriar-me de minhas fraquezas
Paulo afirma que tem um “espinho na carne”; de maneira geral, essa expressão significa algo que provoca grande angústia. Uma alusão a Ez 28,24, quando se refere aos povos vizinhos (e inimigos) de Israel como espinhos e abrolhos. Com a expressão “espinho na carne”, o apóstolo pode estar se referindo, entre outras coisas, às angústias que tinha suportado com a oposição à sua pessoa, e à sua autoridade, por parte dos coríntios. A rebeldia da comunidade de Corinto contra Paulo foi tão dolorosa que o compeliu a escrever uma “carta entre lágrimas”: “foi levado por grande aflição e angústias de coração que vos escrevi, em meio a muitas lágrimas” (2Cor 2,4).
A expressão “mensageiro de satanás” é equivalente a “espinho na carne” e significa que, mesmo sofrendo rejeição por parte dos coríntios, o apóstolo não desanimou da missão de exortá-los a viver conforme o evangelho. Paulo aceitou as angústias como uma motivação para exercer a humildade e vencer o orgulho. O apóstolo deixou que Deus se utilizasse da fraqueza humana para mostrar a grandeza do agir divino.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A homilia deve levar a comunidade a refletir sobre as graves consequências da rejeição à palavra de Deus. Ainda hoje Deus nos fala por meio de pessoas humildes e modestas. Às vezes a palavra que nos é anunciada questiona nosso agir, e por isso é muito mais fácil rejeitá-la que sair do nosso estado de comodismo ou de pecado. Não raro nos tornamos um espinho na carne, não raro provocamos grandes angústias a quem somente deseja o bem da comunidade e a vivência mais autêntica da mensagem de Jesus.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade  é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

domingo, 13 de maio de 2012

O PAPEL DA MÃE DE FAMÍLIA NA CEIA PASCAL JUDAICA – APONTAMENTOS PARA REFLEXÃO


Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj *

Antes de tudo, poderíamos nos perguntar sobre os motivos de uma reflexão sobre o papel da mãe de família em um retiro que tem por tema Maria e a Eucaristia. Primeiramente porque a ordem de Jesus aos seus seguidores “façam isso em meu memorial” deu-se na última ceia do Senhor a qual provavelmente foi uma celebração da páscoa judaica ou Séder de Pessach.
Os elementos indicativos de que a última ceia de Jesus com seus seguidores foi uma ceia pascal são os seguintes:
- “Veio o dia... no qual era preciso imolar a páscoa” (Lc 22,7);
- “Ide preparar a páscoa para que a comamos” (Lc 22,8);
- “E quando se fez noitinha” (Mt 26,20; Mc 14,17);
- “Aquele que imerge (o bocado) comigo na vasilha” (Mc 14,20);
- “Desejei ardentemente comer esta páscoa” (Lc 22,15);
- “O fruto da videira” (Lc 22,18);
- “E tendo cantado o hino saíram...” (Mt 26,30; Mc 14,26).
Esses versículos mencionam momentos da ceia pascal. A preparação do lugar e dos alimentos; alimentos tirados da mesma vasilha; o vinho chamado de “fruto da videira” em todas as orações da ceia e, por fim, o hino ou Sl 114 conhecido como Hallel.
Apesar desses fortes indícios de que a última ceia de Jesus foi um Séder de Pessach, os evangelhos não estão interessados em descrever os pormenores da refeição pascal, já que era conhecida de todos, pois era celebrada pelos judeus todos os anos e as primeiras comunidades cristãs eram formadas por judeus que aderiram a Jesus. O objetivo dos evangelistas é narrar os ensinamentos de Jesus por palavras e atos. Nesse sentido podemos indagar que detalhes ou elementos da ceia pascal não foram mencionados.
As ordenanças bíblicas de como se celebrar a páscoa judaica estão em Ex 12, 1-28. Ali se indica o dia e o mês em que deve se dar a celebração. Menciona a preparação a partir da separação do cordeiro ou cabrito, que deve ser de um ano, macho e sem defeito, o qual será imolado ao crepúsculo da tarde. Indica-se também que deverá ser assado ao forno e comido com pães sem fermento e ervas amargas. A refeição deve ser feita à noite e não se deixará nenhuma sobra do alimento. A celebração é em família, mas as famílias podem celebrar juntas de forma a consumir toda a carne. Se sobrar da carne deve ser queimada na manhã seguinte. Os comensais devem ter sandálias aos pés e cajado na mão como se fossem viajar às pressas. Há uma ordem, como estatuto perpétuo para que se celebre isto como memorial a cada ano. Também é ordenado que fosse ensinado aos filhos o significado dessa celebração.
Ao longo da história alguns elementos foram acrescentados. O cordeiro passou a ser imolado no Templo a partir de uma reforma religiosa[1], sendo que desde então não se poderia celebrar a páscoa a não ser em Jerusalém. Posteriormente aconteceu mais uma inovação por causa do crescente fluxo de peregrinos em Jerusalém, a imolação do cordeiro continuava sendo no Templo, mas a refeição tornava-se uma celebração doméstica por excelência[2].
Lucas menciona dois cálices de vinho (Lc 22,17 e 22,20) na última ceia de Jesus. O vinho não é citado na narrativa de Ex 12 e significa que foi acrescentado posteriormente conforme é testemunhado pela tradição judaica[3]. Tal acréscimo deu-se porque o Séder começava com a santificação, como acontecia em outras festas, portanto fez-se necessário uma taça de vinho sem a qual não se pronunciaria a bênção. Posteriormente outra taça passou a ser servida após a ação de graça como em outras ocasiões festivas. E, sendo o dia mais alegre do ano, duas novas taças foram acrescentadas para simbolizarem as quatro ações redentoras de Deus conforme Ex 6,6-7: libertar das cargas do Egito; livrar da servidão; resgatar com braço estendido e com grandes manifestações de julgamento; fazer de Israel seu povo e ser o Deus de Israel.
Sendo uma celebração doméstica por excelência, e para cumprir a ordem de Ex 12,26-27 que orienta responder aos filhos sobre o significado do rito, foram acrescentadas ao Séder várias perguntas a serem feitas pelo filho mais novo, ou a pessoa mais jovem dentre os comensais. Essas perguntas que visam explicar o rito devem ser feitas antes da leitura de Ex 12 e devem ser respondidas pelo pai, elas supõem uma festa realizada em família.
Muitas orações e bênçãos também foram acrescentadas ao longo do tempo, a maioria delas está presente no ritual da missa. Interessa-nos agora a oração inicial porque deve ser feita pela mãe de família.
Para dar início à celebração da Páscoa a mãe acendia as velas enquanto pronunciava a bênção:
Bendito sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que nos santificastes pelos teus mandamentos e nos ordenastes benignamente esta festa das luzes.
O papel da mãe de família na ceia pascal está relacionado com o papel que ela realiza na família. Essa afirmação pode parecer estranha aos dias atuais e soa como suspeita de machismo. No entanto, tratava-se apenas de uma cultura com papéis bem definidos para homens, mulheres, genitores, filhos, ancião etc. Os papéis eram distintos para que se pudesse perceber o valor de cada pessoa e função dentro do corpo social e familiar.
O papel da mulher estava relacionado com a casa, o clã. Somente pela presença de uma esposa a casa de um homem é santificada, portanto sua tarefa principal era a santificação do lar.
A mulher representava a sabedoria de Deus que organiza o universo. Ela mantém a unidade na diversidade porque Deus lhe deu o dom de ver os mínimos detalhes. A mulher é chamada de Eva, awah em hebraico, pois participa do mistério da criação ao trazer a Vida (ay). A criação é separação/distinção, por isso é a mulher quem separa os seis dias de trabalho do dia de shabath (sábado).
Na tardinha do sexto dia, 18 minutos antes do por do sol, a mãe de família ou, na ausência dela, uma das filhas ou qualquer mulher que esteja presente, após cobrir a cabeça, deve acender duas velas e recitar a bênção de Erev Shabath. Durante a primeira parte da bênção ela deve movimentar as mãos em torno das velas num movimento ondulante. A segunda parte da bênção deve ser pronunciada com as mãos cobrindo os olhos. Após dizer “Amém” deve descobrir os olhos e olhar para as velas. Isso faz lembrar o início da criação quando “Deus disse: ‘haja luz e houve luz’” (Gn 1,3). A partir daí começa o sábado, o dia santificado que santifica a vida dando-lhe sentido. A Páscoa judaica é sinal de vida plena, digna, liberta, é uma nova criação. Essa dimensão aparece nos gestos e palavras da mulher e na oração que dá início à Páscoa.
Sendo a refeição pascal uma festa essencialmente familiar, mesmo quando a imolação dos cordeiros foi centralizada no Templo, e sendo a última ceia de Jesus uma refeição pascal, o Senhor a teria celebrado exclusivamente com os Doze? Estando os apóstolos em Jerusalém para celebrar a Páscoa, onde estariam suas esposas e filhos senão em Jerusalém também? Ou as famílias dos apóstolos não teriam celebrado a Páscoa aquele ano? Os evangelhos mencionam a ida da família de Jesus a Jerusalém por ocasião da Páscoa. Teriam os parentes de Jesus deixado de celebrar a Páscoa aquele ano? Ou Jesus não teria dado importância à celebração familiar justamente naquele ano em que celebrou a sua última ceia? Como indica a Hagadá bíblica da Páscoa (Ex 12), várias famílias podiam se unir para celebrar juntas, isso era louvável porque nada do cordeiro podia sobrar para o dia seguinte (v.4 e 10). Haveria algum motivo que impedisse as famílias dos apóstolos, e de Jesus, de se unirem para celebrar a Páscoa aquele ano?
Louvemos a Jesus Cristo que ordenou à Igreja reunida na última ceia a que celebrasse o memorial de sua Paixão e Ressurreição, ordem que será cumprida até que ele venha.

ישוע אתא מרן
(Maran atha Yeshua)
Vem, Senhor Jesus! (Ap 22,20)

* Aíla L. Pinheiro de Andrade  é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.


[1] A partir do ano 621 a.C. na reforma de Josias (2Rs 23,22), conforme alguns estudiosos, ou na de Edras-Neemias em 515 a.C. (Esd 6,19-22), conforme outros.
[2] GIRAUDO, Cesare. Num só Corpo. Tratado mistagógico sobre a eucaristia, São Paulo: Loyola, 2003, p. 96.
[3] A HAGADÁ DE PESSACH. São Paulo: B’nai b’rith, 1977. MISHNÁ, Berachoth VI.

sábado, 28 de abril de 2012

A Theotókos



Sentido Teológico
 
Falar do sentido teológico da afirmação dogmática sobre a Mãe de Deus exige, ao menos, a consideração de dois dados. O primeiro deles é a nomenclatura, pois somente o resgate do sentido mais original do termo Qeoto,koj ilumina muito a questão. Este significa, especificamente, “aquela que pariu um que é Deus”. Em latim se diz “Deípara”. Isso diz muito mais que nossa simples traduçãoMãe de Deus”. Esta última, carrega duas dificuldades, pode se distanciar do centro da afirmação e, por sua ambiguidade, pode obscurecer o sentido.
A segunda dificuldade vem do distanciamento histórico: o Concílio de Éfeso (431), no qual se afirmou a Qeoto,koj. O tema de fundo, no Concílio, não era Maria, como não foi em tempo algum, nem mesmo na Reforma como julgam alguns. A questão girava em torno do Filho. Em Nicéia (325) se afirmou a divindade do Filho, em Constantinopla I (381) a divindade do Espírito Santo. Em Éfeso a questão decisiva era salvaguardar a unidade do Filho: Deus e homem.
Era importante afirmar sua humanidade. Em relação à Maria a pergunta principal é: Maria é mãe do Cristo Jesus (Cristoto,koj) ou mãe de Deus (M,h,thr tou/ qeou/)? A dificuldade que os Pais tentavam dirimir era a compreensão errônea que levava a colocar Maria numa posição de deusa ou semideusa.
Afirmar a “mãe de Deus” poderia insinuar uma anterioridade em Maria, por isso, alguns defendiam o uso do termo Cristoto,koj para referir-se a ela. Contudo, afirmar a Cristoto,koj era arriscado demais, pois poderia levar a uma nova forma de heresia cristológica: uma divisão entre o homem e o divino em Jesus. Assim se afirmou a Qeoto,koj. Maria é Mãe de Deus enquanto mãe de Jesus Cristo, Filho de Deus.
Em última instância, o que estava em jogo era nossa salvação em Jesus Cristo, pois segundo o antigo axioma patrístico “o que não foi assumido não foi redimido”. Paulo nos diz queEle veio ao mundo nascido de mulher” (Gl 4,4) e assim assegura a Encarnação do Verbo. Ele assume a nossa humanidade e, dessa forma, nos redime.
Coube à Maria essa participação mais direta na Encarnação. Aqui reside a importância de Maria na história da nossa salvação: ela colaborou com Deus, é a serva fiel que fez, a exemplo de Jesus, a vontade do Pai. Maria não é mãe meramente biológica, pelo ato físico de parir. Ela torna-se mãe ao acolher a vida do Cristo em seu corpo. “Ela gerou Cristo antes com a que com o corpo”.
 
 
Sentido Espiritual
 
Para refletir sobre o sentido espiritual evocamos uma afirmação de Karl Rahner que diz de forma brilhante quem é Maria: “Maria é a concreta realização do perfeito cristão. Maria é como nós. Jesus Cristo é outrossim um como nós. Mas ele também é Deus. Maria é que é inteiramente uma entre nós. O que ela é nós devemos ser. É por isso que Maria é-nos tão familiar. É por isso que nós a amamos.”
O que se dá corporalmente em Maria se dá espiritualmente em todo ser humano que acolhe a vontade de Deus. Todo aquele que faz a vontade de Deus, gera Deus para o mundo. Nesse sentido todo aquele que faz a vontade de Deus é “mãe de Deus”.
O testemunho do evangelista João é emblemático para revelar quem é Maria e sua função na Igreja: ela é mãe da Igreja porque é a primeira “cristã”. É a primeira a fazer a vontade do Pai como nos ensinou Jesus, por isso, ela pôde dizer em Caná “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
Ao da cruz foi dada como mãe ao discípulo amado. Maria em João nunca é nomeada, é sempre a mãe de Jesus. O discípulo também não é nomeado e somos chamados a nos identificar ora com Maria ora com o discípulo. Maria ao da cruz, segundo a interpretação mais comum nos é dada por mãe e esta é a ideia mais presente no imaginário cristão católico. Maria é claramente mãe de todo cristão.
Como filhos, somos chamados ainda, a seguir sua orientação maternal, que não é outra senão, o “Fazei tudo que Ele vos disser”. Essa “orientação mariana”, a coloca em seu legítimo lugar: está sempre referida ao Cristo e não o contrário.
Cirilo de Alexandria, em seu discurso sobre a Theotókos em Éfeso, deixa o Cristo em seu legítimo lugar, no centro de nossa e Maria referida a este. Vejamos um pequeno trecho em que Cirilo louva Maria: “...Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem veio ao mundo o vencedor da morte e o destruidor do inferno! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem veio ao mundo o autor da criação e o restaurador das criaturas, o Rei dos céus! Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem floresceu e refulgiu o brilho da ressurreição!...”

É sendo fiel ao testemunho da Escritura e à Tradição que seremos verdadeiramente marianos, ou seja, cristãos autênticos porque, como ela, faremos a vontade do Pai como nos revelou Jesus Cristo




Ir. Rita Maria Gomes possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde lecionou Sagrada Escritura. Atualmente é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Páscoa Cristã

Márcia Elói Rodrigues*, nj


 

 

A Páscoa, que significa "passagem", é primeiramente a festa judaica em que se comemora o Êxodo (a



libertação dos hebreus da escravidão egípcia). Essa festa, para nós cristãos, ganhou um novo sentido: passagem da morte para a vida.
Nós cristãos comemoramos a passagem da morte de Cristo, causada pelo pecado humano, para a vida em comunhão definitiva com Deus. Nossa páscoa cristã está associada à morte e ressurreição de Jesus Cristo que, na última Ceia, com seus discípulos, realizou o sinal profético de sua entrega ao Pai pelos seus. Nos sinais do pão e do vinho, Jesus celebrou prefigurativamente o dom da Nova e Eterna Aliança, selada no seu corpo e sangue, entregues por amor.
Em Jesus, temos acesso à realidade divina, encontramos nossa finalidade humana: somos filhos de Deus no Filho unigênito. Isto quer dizer que, em Jesus, por ele e com ele, foi dissipado o abismo que havia entre o ser humano e Deus. Nosso acesso ao Pai está aberto para sempre, para todo aquele que acolhe o Cristo como "caminho, verdade e vida" (Jo 14,6). Isto é, seguindo o Cristo na sua opção fundamental pelo amor do Pai, vivido na radicalidade do amor ao próximo, nosso irmão. Nesse seguimento, chegaremos à meta humana desejada por Deus: amar até as últimas consequências.
O que nós celebramos nessa festa pascal não pe a morte de Jesus, acontecida num passado longínquo, na qual apenas relembramos. Celebramos sua vida, morte e ressurreição, evento único e irrepetível na história, mas presente a nós na liturgia, memorial desse mistério de amor.
Na liturgia somos reapresentados a esse evento, ou seja, vamos até ele, participamos da última Ceia, caminhamos com Jesus até o Calvário, e o encontramos na manhã da ressurreição. Na liturgia nos fazemos presentes a esse evento, fundador de nossa fé, de nossa existência como Igreja, de nossa esperança na vida que vence a morte, no perdão que apaga o ódio e a violência.
Celebrar a Páscoa significa que acolhemos em nossa vida concreta as consequências da entrega de Jesus Cristo ao Pai por amor. Que consequências? Somos filhos de Deus, chamados a viver na intimidade da casa paterna. E porque somos filhos, não podemos viver nossa existência de outro modo senão amando nosso Pai e nossos irmãos na doação incondicional de nossa vida no altar do amor. Isso, meus irmãos, é o que celebramos na Páscoa.



Márcia Elói Rodrigues é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, onde também fez mestrado em teologia bíblica