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domingo, 13 de maio de 2012

O PAPEL DA MÃE DE FAMÍLIA NA CEIA PASCAL JUDAICA – APONTAMENTOS PARA REFLEXÃO


Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj *

Antes de tudo, poderíamos nos perguntar sobre os motivos de uma reflexão sobre o papel da mãe de família em um retiro que tem por tema Maria e a Eucaristia. Primeiramente porque a ordem de Jesus aos seus seguidores “façam isso em meu memorial” deu-se na última ceia do Senhor a qual provavelmente foi uma celebração da páscoa judaica ou Séder de Pessach.
Os elementos indicativos de que a última ceia de Jesus com seus seguidores foi uma ceia pascal são os seguintes:
- “Veio o dia... no qual era preciso imolar a páscoa” (Lc 22,7);
- “Ide preparar a páscoa para que a comamos” (Lc 22,8);
- “E quando se fez noitinha” (Mt 26,20; Mc 14,17);
- “Aquele que imerge (o bocado) comigo na vasilha” (Mc 14,20);
- “Desejei ardentemente comer esta páscoa” (Lc 22,15);
- “O fruto da videira” (Lc 22,18);
- “E tendo cantado o hino saíram...” (Mt 26,30; Mc 14,26).
Esses versículos mencionam momentos da ceia pascal. A preparação do lugar e dos alimentos; alimentos tirados da mesma vasilha; o vinho chamado de “fruto da videira” em todas as orações da ceia e, por fim, o hino ou Sl 114 conhecido como Hallel.
Apesar desses fortes indícios de que a última ceia de Jesus foi um Séder de Pessach, os evangelhos não estão interessados em descrever os pormenores da refeição pascal, já que era conhecida de todos, pois era celebrada pelos judeus todos os anos e as primeiras comunidades cristãs eram formadas por judeus que aderiram a Jesus. O objetivo dos evangelistas é narrar os ensinamentos de Jesus por palavras e atos. Nesse sentido podemos indagar que detalhes ou elementos da ceia pascal não foram mencionados.
As ordenanças bíblicas de como se celebrar a páscoa judaica estão em Ex 12, 1-28. Ali se indica o dia e o mês em que deve se dar a celebração. Menciona a preparação a partir da separação do cordeiro ou cabrito, que deve ser de um ano, macho e sem defeito, o qual será imolado ao crepúsculo da tarde. Indica-se também que deverá ser assado ao forno e comido com pães sem fermento e ervas amargas. A refeição deve ser feita à noite e não se deixará nenhuma sobra do alimento. A celebração é em família, mas as famílias podem celebrar juntas de forma a consumir toda a carne. Se sobrar da carne deve ser queimada na manhã seguinte. Os comensais devem ter sandálias aos pés e cajado na mão como se fossem viajar às pressas. Há uma ordem, como estatuto perpétuo para que se celebre isto como memorial a cada ano. Também é ordenado que fosse ensinado aos filhos o significado dessa celebração.
Ao longo da história alguns elementos foram acrescentados. O cordeiro passou a ser imolado no Templo a partir de uma reforma religiosa[1], sendo que desde então não se poderia celebrar a páscoa a não ser em Jerusalém. Posteriormente aconteceu mais uma inovação por causa do crescente fluxo de peregrinos em Jerusalém, a imolação do cordeiro continuava sendo no Templo, mas a refeição tornava-se uma celebração doméstica por excelência[2].
Lucas menciona dois cálices de vinho (Lc 22,17 e 22,20) na última ceia de Jesus. O vinho não é citado na narrativa de Ex 12 e significa que foi acrescentado posteriormente conforme é testemunhado pela tradição judaica[3]. Tal acréscimo deu-se porque o Séder começava com a santificação, como acontecia em outras festas, portanto fez-se necessário uma taça de vinho sem a qual não se pronunciaria a bênção. Posteriormente outra taça passou a ser servida após a ação de graça como em outras ocasiões festivas. E, sendo o dia mais alegre do ano, duas novas taças foram acrescentadas para simbolizarem as quatro ações redentoras de Deus conforme Ex 6,6-7: libertar das cargas do Egito; livrar da servidão; resgatar com braço estendido e com grandes manifestações de julgamento; fazer de Israel seu povo e ser o Deus de Israel.
Sendo uma celebração doméstica por excelência, e para cumprir a ordem de Ex 12,26-27 que orienta responder aos filhos sobre o significado do rito, foram acrescentadas ao Séder várias perguntas a serem feitas pelo filho mais novo, ou a pessoa mais jovem dentre os comensais. Essas perguntas que visam explicar o rito devem ser feitas antes da leitura de Ex 12 e devem ser respondidas pelo pai, elas supõem uma festa realizada em família.
Muitas orações e bênçãos também foram acrescentadas ao longo do tempo, a maioria delas está presente no ritual da missa. Interessa-nos agora a oração inicial porque deve ser feita pela mãe de família.
Para dar início à celebração da Páscoa a mãe acendia as velas enquanto pronunciava a bênção:
Bendito sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que nos santificastes pelos teus mandamentos e nos ordenastes benignamente esta festa das luzes.
O papel da mãe de família na ceia pascal está relacionado com o papel que ela realiza na família. Essa afirmação pode parecer estranha aos dias atuais e soa como suspeita de machismo. No entanto, tratava-se apenas de uma cultura com papéis bem definidos para homens, mulheres, genitores, filhos, ancião etc. Os papéis eram distintos para que se pudesse perceber o valor de cada pessoa e função dentro do corpo social e familiar.
O papel da mulher estava relacionado com a casa, o clã. Somente pela presença de uma esposa a casa de um homem é santificada, portanto sua tarefa principal era a santificação do lar.
A mulher representava a sabedoria de Deus que organiza o universo. Ela mantém a unidade na diversidade porque Deus lhe deu o dom de ver os mínimos detalhes. A mulher é chamada de Eva, awah em hebraico, pois participa do mistério da criação ao trazer a Vida (ay). A criação é separação/distinção, por isso é a mulher quem separa os seis dias de trabalho do dia de shabath (sábado).
Na tardinha do sexto dia, 18 minutos antes do por do sol, a mãe de família ou, na ausência dela, uma das filhas ou qualquer mulher que esteja presente, após cobrir a cabeça, deve acender duas velas e recitar a bênção de Erev Shabath. Durante a primeira parte da bênção ela deve movimentar as mãos em torno das velas num movimento ondulante. A segunda parte da bênção deve ser pronunciada com as mãos cobrindo os olhos. Após dizer “Amém” deve descobrir os olhos e olhar para as velas. Isso faz lembrar o início da criação quando “Deus disse: ‘haja luz e houve luz’” (Gn 1,3). A partir daí começa o sábado, o dia santificado que santifica a vida dando-lhe sentido. A Páscoa judaica é sinal de vida plena, digna, liberta, é uma nova criação. Essa dimensão aparece nos gestos e palavras da mulher e na oração que dá início à Páscoa.
Sendo a refeição pascal uma festa essencialmente familiar, mesmo quando a imolação dos cordeiros foi centralizada no Templo, e sendo a última ceia de Jesus uma refeição pascal, o Senhor a teria celebrado exclusivamente com os Doze? Estando os apóstolos em Jerusalém para celebrar a Páscoa, onde estariam suas esposas e filhos senão em Jerusalém também? Ou as famílias dos apóstolos não teriam celebrado a Páscoa aquele ano? Os evangelhos mencionam a ida da família de Jesus a Jerusalém por ocasião da Páscoa. Teriam os parentes de Jesus deixado de celebrar a Páscoa aquele ano? Ou Jesus não teria dado importância à celebração familiar justamente naquele ano em que celebrou a sua última ceia? Como indica a Hagadá bíblica da Páscoa (Ex 12), várias famílias podiam se unir para celebrar juntas, isso era louvável porque nada do cordeiro podia sobrar para o dia seguinte (v.4 e 10). Haveria algum motivo que impedisse as famílias dos apóstolos, e de Jesus, de se unirem para celebrar a Páscoa aquele ano?
Louvemos a Jesus Cristo que ordenou à Igreja reunida na última ceia a que celebrasse o memorial de sua Paixão e Ressurreição, ordem que será cumprida até que ele venha.

ישוע אתא מרן
(Maran atha Yeshua)
Vem, Senhor Jesus! (Ap 22,20)

* Aíla L. Pinheiro de Andrade  é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.


[1] A partir do ano 621 a.C. na reforma de Josias (2Rs 23,22), conforme alguns estudiosos, ou na de Edras-Neemias em 515 a.C. (Esd 6,19-22), conforme outros.
[2] GIRAUDO, Cesare. Num só Corpo. Tratado mistagógico sobre a eucaristia, São Paulo: Loyola, 2003, p. 96.
[3] A HAGADÁ DE PESSACH. São Paulo: B’nai b’rith, 1977. MISHNÁ, Berachoth VI.

domingo, 5 de junho de 2011

O Espírito Santo e Maria

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

“Concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria” é uma das afirmações da profissão de fé cristã quando trata sobre a Encarnação.

Quando estávamos em preparação para o Jubileu da Encarnação, na expectativa do ano 2000, tivemos um ano dedicado a uma catequese sobre o Espírito Santo em 1998.

O enfoque da celebração do terceiro milênio foi o da concepção e nascimento de Jesus Cristo tornada possível pelo poder do Espírito Santo e pela cooperação da Virgem Maria. A concentração numa “reciclagem” catequética sobre o Espírito Santo deveria constituir também uma devoção mariana mais sólida, mais vinculada ao seu papel em relação a Jesus e em relação ao Espírito Santo.

O Espírito Santo é o guardião da esperança no coração humano, por isso houve uma especial atenção à virtude teologal da esperança em 1998. Nas Escrituras, Maria é a mulher dócil à voz do Espírito, a mulher que esperou contra toda esperança. Em Maria, a Igreja vê “um sinal da esperança segura” (LG 68), ela foi “plasmada pelo Espírito Santo e formada nova criatura” (LG 56). Enfim, a Igreja deve ser aquilo que Maria é. E enquanto peregrina neste mundo a Igreja tem Maria como um sinal “até que chegue o Dia do Senhor” (LG 68).

Há dois textos nas Sagradas Escrituras que tratam diretamente sobre o Espírito Santo e Maria:

a) Mt 1,18-20
As circunstâncias do nascimento de Jesus é uma ação do Espírito Santo sobre Maria (v.18), “o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (v.20). Há um testemunho do narrador (v.18) e um testemunho do céu (v.20) de que Maria está sob a ação do Espírito Santo para que Jesus venha a nascer. A justiça de José ou a inocência de Maria são aspectos secundários. O mais importante é a docilidade de ambos à ação do Espírito Santo. No caso de Maria há uma colaboração, ela corre risco de ser morta. O casal é um testemunho para a Igreja: deixar-se guiar e colaborar, mesmo que isso exija a morte ou a mudança de mente (conversão).

b) Lc 1,35
Primeiramente, menciona-se a descida do Espírito Santo sobre Maria. Isso nos remete a Ex 3,8 quando se afirma que Deus desceu para livrar o seu povo do faraó e para fazê-lo subir à terra prometida. Depois é dito que “o poder do Altíssimo” cobrirá Maria. Isso está vinculado com a criação, quando o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2). O Espírito cobrirá Maria com sua sombra, isto nos remete à nuvem (shekiná) no deserto cobrindo a Tenda do Encontro (Nm 9,15).

No evento de Pentecostes o Espírito Santo permanece Deus misterioso ou escondido (Is 45,15) e assim ele permanecerá ao longo de toda a história da Igreja e do mundo. Pode-se dizer que ele está escondido na sombra de Cristo. Ele é o Deus escondido que trabalha em silêncio e no interior. A narrativa sobre o Pentecostes em At 2,1-13 indica que quando se trata do Espírito Santo há somente a observação dos efeitos de sua presença e de sua ação em nós e no mundo. O mesmo efeito pode causar estupefação em uns (2,12) e zombaria em outros (2,13).

Na tradição religiosa de Israel, o Pentecostes era originalmente a festa dos primeiros frutos da colheita (Ex 34,22). O Antigo Testamento dá instruções detalhadas para a celebração do Pentecostes (Lv 23,15; Nm 28,26-31), que mais tarde tornou-se também a festa da renovação da aliança (2 Cr 15,10-3). A narrativa sobre Pentecostes em At 2,1-13 está vinculada ao relato sobre a comunidade dos reunida no Cenáculo onde todos unânimes “perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus” (At 1, 14). Uma leitura cuidadosa de Atos nos diz que havia homens e mulheres, e o momento do Pentecostes representado apenas pelos doze ou pelos doze e Maria omite um importante ensinamento sobre a manifestação do Espírito na Igreja. Isso significa que, no Novo Testamento, a festa da colheita torna-se a festa da “nova colheita” do Espírito Santo, o fruto da semente lançada por Cristo.

O texto da anunciação tem uma correlação com o texto sobre o Cenáculo e Pentecostes. Na anunciação Deus dá o seu Espírito a Maria a qual não é apenas a imagem (Abbild = reflexo) mas também a imagem típica (Urbild=protótipo) da Igreja. Em Pentecostes acontece com a Igreja o que aconteceu com Maria na anunciação e por isso a Igreja torna-se fecunda, gera o Cristo para as nações através do anúncio do evangelho em todos os idiomas.

Em 1974 o Papa Paulo VI escreveu um documento (Marialis Cultus (MC)) sobre a devoção a Maria, que continua a ser a norma para a devoção mariana entre os católicos. Depois de normatizar a devoção mariana em função de Cristo, o Papa destaca em dois números (MC 26 e 27) relaciona a mesma devoção em relação ao Espírito Santo. Isso significa primeiramente que não pode haver culto a Maria em si mesma.

No número 26 o Papa começa afirmando que “a intervenção santificadora do Espírito no caso da Virgem de Nazaré foi um momento culminante da sua ação na história de Salvação”. E, em seguida, lembra que Maria “se torna habitação permanente do mesmo Espírito”. Isto é, em Maria se diz o mesmo que se dizia para a arca da aliança [1].



“O mesmo verbo exprime a posição da nuvem sobre o tabernáculo e a do Altíssimo sobre Maria”. O tabernáculo fica cheio da glória, Maria fica cheia da presença do Filho de Deus.




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[1] MARTINS TERRA, João Evangelista. Releitura Judaica e cristã da Bíblia, São Paulo: Loyola, 1988, p. 24-25.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.