sexta-feira, 27 de junho de 2014

Profetas e Profetismo em Chave Histórica 01

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj* 
(Material Didático do Curso de Extensão na Faculdade Católica de Fortaleza)




1. Terminologia

O termo “profeta” provém do grego prophetes (προφήτης) e designa as pessoas que tem a missão de anunciar, comunicar, tornar pública uma mensagem.

Nabî (נביא) é usado mais de 300 vezes para o que chamamos profetas. Trata-se de uma forma passiva do verbo naba' (נבא), significando “o chamado”, isto é, aquele que recebeu uma vocação para ser porta-voz da palavra divina. A ação do profeta depende, fundamentalmente, de um impulso externo de origem divina, não é fruto de sua própria iniciativa. Esse termo tinha uma conotação negativa, por isso o primeiro a se identificar como profeta foi Jeremias (Jr 1,5). Amós recusa-se a ser enquadrado nesta categoria (Am 7,14).



Ro'eh (ראה), derivado do verbo ra'ah, significando “aquele que vê”. De acordo com 1Sm 9,9 “antigamente, em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia: Vinde, vamos ter com o vidente (ro'eh); porque ao profeta (nabî) de hoje, antigamente, se chamava vidente (ro'eh)”. Era alguém capaz de conhecer coisas ocultas e que era consultado a troco de algum dinheiro (1Sm 9,7-8). Exemplos: água amarga (Ex 15,23-25), as jumentas de Cis (1Sm 9,3-9); sopa envenenada (2Rs 4,38-41).

Chozeh (חוזה), aquele que tem visões (chazon, חזון) extáticas ou que as interpreta. Gad, na corte de Davi, é designado como “visionário de Davi” (2Sm 24,11). Sua função era aconselhar o rei a respeito de sonhos e visões.

Profetas da corte: atuam como conselheiros do rei, em cujo nome consultam a Deus a respeito de seus empreendimentos. Este tipo de profetismo, com muita facilidade, tornava-se corrupto, mais preocupado com o que podia agradar ao monarca e não com a autêntica vontade de Deus.

Profetas cultuais: atuavam nos santuários espalhados pelo país, a quem o povo consultava a exemplo dos oráculos da tradição grega (oráculo de Delfos). A associação do sacerdócio com o sacrifício é posterior, no final de um longo processo histórico. Nos primeiros tempos se acentuava mais as funções oraculares dos sacerdotes (1Sm 2,28). O povo ia a eles principalmente “para consultar a Deus” (Dt 33,8-10), ou seja, para saber a vontade divina para casos concretos.

O urim e o tumim eram os instrumentos usados na consulta (1Sm 23,6-12), eles eram guardados no peitoral preso ao efod (Ex 28,28-30). Também há o caso mencionado em Os 4,12 (significado incerto de 'ets (עץ) que pode ser madeira, pedaço de madeira, árvore, forca). O livro dos juízes menciona o “carvalho dos adivinhos” (Jz 9,37) e 1Cro 14,14-16 fala sobre os “passos do SENHOR sobre a copa da amoreira”.

Filhos de profetas (בני הנביאים) bene ha nebiim (1Rs 20,35; 2Rs 2,3.5.7.15; 4,1.38; 5,22; 6,1; 9,1. Am 7,14). Elias e Eliseu são apresentados em estreita relação com as comunidades de profetas.
Êxtase: Podia ser provocado por meio de música e dança (1Sm 10,5-6; 1Rs 18,26ss). O profeta com fama de louco: Os 9,7. Nem todo “maluco” é profeta: Jr 29,26.

Fórmula de mensageiro: típica da pregação profética e tirada da linguagem diplomática do Oriente Próximo – “Assim fala o SENHOR”, “Palavra do SENHOR”, “Oráculo do SENHOR”.
Querela jurídica (ריב, rib): os profetas apontavam os atos concretos onde o pacto fora rompido A denúncia fundava-se na invocação das cláusulas da Aliança (Os 4,1; Mq 6,1-2).

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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Este é meu Filho amado, em quem me comprazo

Roteiro Homilético para o Batismo do Senhor - 12 de janeiro de 2014
Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

I. INTRODUÇÃO GERAL

A profecia de Isaías sobre o Servo de Deus é prefiguração da vida de Jesus, o Servo por excelência, totalmente consagrado a Deus para salvar o gênero humano. O evangelho substitui a expressão “meu servo”, da primeira leitura, pela proclamação “meu Filho amado” para indicar a natureza divina de Cristo. O Pai e o Espírito Santo garantem a identidade de Jesus como Filho de Deus e o apresentam aos seres humanos, destinatários da salvação. As palavras de Pedro, no discurso a Cornélio, fazem eco às palavras de Isaías e às do evangelho: Jesus foi ungido por Deus com o Espírito Santo (At 10,38). Em todos os textos bíblicos da liturgia de hoje se afirma que Jesus é totalmente guiado pelo Espírito Santo no cumprimento de sua missão.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 3,13-17): O Espírito de Deus veio sobre ele

Jesus é o Messias, Filho de Deus. João Batista é seu precursor. Da mesma forma, o batismo praticado por João é uma prefiguração do batismo cristão. O batismo de João convocava para o arrependimento e para a conversão. Jesus, sendo justo, não precisava ser batizado por João. No entanto, quis cumprir toda a justiça, ou seja, quis realizar integralmente a vontade do Pai: elevar o ser humano pecador à filiação divina. Com o mergulho nas águas do rio Jordão, o Filho de Deus solidarizou-se com a humanidade pecadora para resgatá-la do pecado e elevá-la à condição de filha de Deus. Em sentido inverso, cada batizado solidariza-se com a vida de Jesus e deve seguir o mesmo caminho de entrega total por amor. Uma entrega de si mesmo, que é o reflexo da entrega do Pai à humanidade para salvá-la do pecado, do egoísmo e do desamor. Na vivência do batismo se realiza a vocação humana do amor a Deus e do amor ao próximo

2. I leitura (Is 42,1-4.6-7): Sobre ele está o meu Espírito

O Servo de Deus, nesse texto de Isaías, é uma personificação de Israel, cuja missão era levar para as nações a justiça e o direito. Isso significa que o povo de Israel estava destinado a exteriorizar a justiça e o direito entesourados nas Sagradas Escrituras e fazer deles um patrimônio das demais nações da terra. Essa missão deveria ser realizada sem a utilização do poder tirânico, comum aos grandes impérios mundiais; a influência de Israel sobre as nações deveria libertá-las da cegueira espiritual e das trevas da idolatria. O Espírito de Deus, agindo no Servo (Israel), possibilitaria a efetivação dessa missão – ou seja, a transmissão das Sagradas Escrituras, até que estas fossem postas em prática por todas as nações. As Sagradas Escrituras seriam o caminho para que os povos chegassem até Deus.

A releitura cristã desse texto bíblico viu em Jesus o pleno cumprimento da vocação de Israel.

3. II leitura (At 10,34-38): Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder

Pedro começou seu discurso na casa de Cornélio (primeiro gentio convertido à fé cristã) reconhecendo as intervenções divinas que o levaram a entender claramente como a salvação foi destinada a todos os povos.

Pedro deu-se conta de que Deus não faz distinção de pessoas. Esse foi um grande passo na compreensão humana da revelação divina. Que Deus ama todas as pessoas e deseja ser adorado por todas as gentes já estava claro para os seguidores de Jesus. Mas até aquele momento se pensava que, se um gentio quisesse seguir Jesus, deveria primeiramente converter-se ao judaísmo para depois ter acesso à salvação. O discurso na casa de Cornélio mostra que Pedro chegou à conclusão de que a mensagem e obra de Jesus estão destinadas a todos, sem exceção. Digna de destaque é a afirmação de que Deus ungiu Jesus “com o Espírito Santo e com poder”: isso significa a chegada do Reino de fraternidade e paz a todos os povos. Os milagres e exorcismos realizados sob a unção do Espírito do Cristo ressuscitado são sinais que atestam a instauração desse Reino na história.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O foco da homilia deve ser a vida cristã sob a ação do Espírito Santo, que nos faz filhos e filhas de Deus. Jesus disse a João: “Convém que cumpramos toda justiça” (Mt 3,15). No sentido bíblico, “justiça” significa “ajustar-se à vontade de Deus”. A justiça que Jesus deseja é o cumprimento perfeito da vontade do Pai. A condição indispensável ao cristão para viver o batismo é deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, buscando em tudo a vontade de Deus. A vivência do batismo cristão se efetiva principalmente na luta pela implantação da fraternidade universal, em que todos são filhos do mesmo Pai. Mas a luta do cristão será baseada na não violência: sem “esmagar a cana quebrada” nem “apagar a mecha que ainda fumega” (Is 42,3). Essa luta se dará pela proclamação das exigências de implantação da justiça e do direito. Agindo assim, o cristão estará ajustado à missão do Filho muito amado no qual o Pai se compraz.

Publicado originalmente na Revista Vida Pastoral, ano 54, número 293, novembro-dezembro de 2013.
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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

As nações se encaminham para a luz

Roteiro homilético para a Epifania do Senhor - 5 de janeiro de 2014

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

I. INTRODUÇÃO GERAL

Na liturgia sobre a Encarnação do Cristo o enfoque estava na humanidade dele; hoje celebramos a manifestação e o reconhecimento de sua origem divina. O que celebramos na liturgia é o que esperamos: que todos os povos reconheçam e adorem, em Jesus, o Deus de Israel. A primeira leitura anuncia a vocação das nações à fé no Deus vivo e verdadeiro. No evangelho, vemos em torno de Jesus os magos (sábios do Oriente), como representantes de todos os povos, para prestar-lhe homenagem e adoração. Na humildade do ambiente onde se encontra o menino, deve-se reconhecer a luz da salvação oferecida por Deus a todos os seres humanos. Também Paulo fala desse grandioso mistério que ele mesmo teve a missão de anunciar: os gentios são chamados a formar o mesmo corpo, isto é, a ser participantes da mesma promessa anteriormente destinada apenas a Israel. É na luz de Jesus que caminham os cristãos e é para essa luz que deve se encaminhar toda a humanidade.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 2,1-12): Vimos sua estrela e viemos adorá-lo

Epifania significa literalmente manifestação. Nesta solenidade, a liturgia nos apresenta a manifestação da universalidade da salvação realizada em Cristo. Jesus, o rei dos judeus, é adorado pelos magos (sábios do Oriente), representantes de todos os povos. Isso significa que a promessa feita primeiramente a Israel atinge agora a todos os que acolhem o Cristo.

Na época em que o Novo Testamentofoi escrito, os povos ainda eram politeístas (adoravam muitos deuses). Por isso se usava a metáfora de que as nações caminhavam nas trevas, enquanto Israel era orientado pela luz da Escritura.

Com a entrada de Jesus na história, a palavra de Deus incultura-se. O evangelho afirma que alguns sábios estrangeiros (do Oriente) viram a estrela e a seguiram. Isso significa que Deus se valeu da admiração que os astros exerciam sobre as nações politeístas e as guiou para o Cristo. Os sábios orientais enfrentaram um caminho desconhecido e encontraram o menino, a verdadeira luz, da qual a estrela era apenas um sinal. Os sábios se deixaram guiar e encontraram um menino muito mais humilde e também mais importante do que pensaram. Depois daquele encontro, eles percorreram outro caminho, não mais guiados por um corpo estelar, mas pela estrela de Davi, o Messias. Seguiram o caminho indicado por Deus, o caminho que é a verdade e a vida, o próprio Jesus.

O evangelho afirma que os mestres (ou sábios) judeus tinham conhecimento até do local onde deveria nascer o Messias descendente de Davi. Mas, apesar de serem os primeiros destinatários das promessas de Deus, aqueles mestres de Jerusalém não acolheram a luz verdadeira que é Jesus. Foi necessário que sábios estrangeiros viessem do Oriente para lhes anunciar (orientar sobre) a chegada do Messias de Israel, quando, ao contrário, Israel é que deveria orientar as nações para Deus.

2. I leitura (Is 60,1-6): As nações caminharão na tua luz

Quando o povo de Israel foi expulso da Terra Prometida e se dispersou pelo mundo, sentia-se mergulhado nas trevas das nações politeístas e violentas. Mas, apesar dessas circunstâncias, o profeta vê um final glorioso: quando tudo parecer desmoronar e dissolver-se na escuridão, a glória de Deus será refletida por meio de Israel e iluminará as nações, que começarão a andar na luz do amanhecer de um novo tempo.

O profeta está convencido de que os judeus retornarão para a Terra Prometida e de que as nações nas quais eles estavam dispersos verão a glória de Deus refletida no povo de Israel e então também elas se encaminharão para Jerusalém. Israel será como um oceano de luz para as nações antes imersas nas trevas do politeísmo.

3. II leitura (Ef 3,2-3a.5-6): Em Cristo, os gentios participam da promessa

Paulo afirma ter recebido um encargo sagrado (v. 3): foi-lhe conferida a graça de proclamar o evangelho aos gentios, ou seja, aos não judeus.

O apóstolo insiste que sua atividade missionária entre os gentios não foi uma decisão pessoal. Dar a conhecer o evangelho a todas as nações foi um ato poderoso de Deus em seu plano eterno de salvação da humanidade. Coube a Paulo a docilidade e a fidelidade ao chamado divino.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O enfoque da liturgia de hoje não está na devoção aos magos, mas sim na manifestação da divindade de Jesus e no apelo à missão.

Quem vê a luz da estrela deve pôr-se a caminho. Solicitude e prontidão são as atitudes dos magos e do apóstolo Paulo, que servem de exemplo aos cristãos de nosso tempo.

No hoje de nossa existência, faz-se necessário reconhecer a luz de Cristo numa sociedade dividida na pluralidade de tantas luzes que apontam para várias direções, mas nem sempre refletem a luz inextinguível que é o Cristo.

Para que as pessoas de hoje possam adorar o Deus vivo e verdadeiro, é necessário que os cristãos saiam do comodismo e individualismo e, por meio da missão e do testemunho de vida, façam brilhar para o mundo a “estrela de Davi”, o Filho de Deus.

Publicado originalmente na Revista Vida Pastoral, ano 54, número 293, novembro-dezembro de 2013.
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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Feliz quem ama o Senhor e anda em seus caminhos!

Roteiro Homilético para Domingo da Sagrada Família - 29 de dezembro de 2013

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia de hoje põe em relevo o fato de que o Filho inseriu-se na humanidade, numa família, ele não é um mito. Ele fez o mesmo caminho de cada ser humano, pertenceu a um lar, a uma pátria e a uma cultura. Os percalços vividos pela família de Jesus não são muito diferentes dos que são experimentados por muitas pessoas ainda hoje. A família é a base dos valores, as atitudes de José e de Maria se tornam modelo de vida para os pais e mães hoje, animando-os a percorrer sua trajetória em atenção à vontade de Deus. Os demais textos são um desdobramento do quarto mandamento da Lei de Deus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 2,13-15.19-23): Quem ama o Senhor lhe obedece

O evangelho de hoje narra a fuga de José, Maria e o menino Jesus para o Egito. Revela-nos a importância da obediência e da colaboração humana para que se realizem os desígnios de Deus para a salvação humana. Em Jesus, a figura do povo de Israel é recapitulada e levada à plenitude. O que acontece a ele refere-se ao seu povo.

O Egito, em muitos textos bíblicos, é visto de forma negativa por remeter às nações que oprimiram Israel. No entanto, durante séculos o Egito havia sido um lugar de refúgio para os judeus que fugiam de risco de morte (cf. 1Rs 11,40; Jr 43,7). Daí se entende o porquê da fuga da sagrada família para lá.

Existe uma relação notável entre a ida e a saída do Egito da parte de Israel e da parte de Jesus. Quando Mateus cita de Oseias 11,1 a frase “Do Egito chamei o meu filho”, o faz indicando a nação de Israel que era conhecida como “filho de Deus” (cf. Ex 4,22; Jr 31,9). O texto refere-se a Israel, agora representado por Jesus que repete o êxodo. A vida de Jesus é a vida do povo, portanto Jesus realiza a vocação de Israel ao repetir-lhes os passos: Israel desceu ao Egito para evitar a ameaça da fome, e Jesus foi levado por seus pais para evitar a ameaça de Herodes. O Egito foi refúgio provisório para Israel e o foi também para Jesus; Moisés fugiu do Egito para escapar da ira do faraó e regressou só quando morreu esse faraó que o conhecia (Ex 4,19). Jesus fugiu da Palestina e regressou depois da morte do rei que tinha ameaçado sua vida.

Em ambos os casos, Deus deu ordens para sair do Egito e para voltar à terra prometida. Israel desceu ao Egito quando era uma nação muito jovem, e Jesus desceu quando era um menino. Deus escolheu Moisés para libertar Israel da escravidão do Egito e assim salvar o povo, levando-o à terra prometida. Da mesma forma, aconteceu com Jesus, Deus o chamou do Egito para salvar os homens de seus pecados e conduzi-los ao reino de Deus.

Em todos esses passos, Deus guiou Israel e a família de Jesus pelos caminhos que o próprio Deus escolheu. Tanto os hebreus, no tempo de Moisés, quanto a família de Jesus permitiram que Deus os conduzisse pelo caminho. É um testemunho concreto de que a salvação se torna eficaz na medida de quem colabora com a ação de Deus mediante a obediência aos seus desígnios.

2. I Leitura (Eclo 3,3-7.14-17a): Quem ama o Senhor honra pai e mãe

A fidelidade para com o Deus da aliança exige o amor ao próximo. Isso implica numerosas exigências éticas. Entre elas, o livro do Eclesiástico dá referência ao amor que deve ser dispensado ao pai e à mãe.

O texto que foi proclamado hoje é um comentário ao mandamento de Ex 20,12. Não há desculpa alguma para o não cumprimento dessa norma. Na época em que o livro do Eclesiástico foi escrito, as motivações para se seguir uma norma se davam através de um elenco de recompensas e de castigos decorrentes do cumprimento ou não do mandamento. Por isso, o texto exorta que Deus não atenderá as orações de quem não cuidar dos próprios pais. Da mesma forma, enumera as vantagens para aqueles que dão especial atenção ao pai e à mãe.

A recompensa para quem honrasse pai e mãe seria uma vida longa e próspera, porque naquela época as pessoas ainda não tinham clareza sobre a ressurreição dos mortos, portanto, a longevidade e a prosperidade eram o que de melhor poderia acontecer com uma pessoa.

Para o cristão, esse elenco de bênçãos e castigos não é necessário. Cristo nos deu o exemplo quando decidiu nascer numa família, e nós nos sentimos motivados pela ação do Espírito Santo a configurar nossa vida à vida de Cristo.

3. II Leitura (Cl 3,12-21): O amor é o vínculo da perfeição

O texto da segunda leitura faz uma descrição da vida na comunidade cristã dos primórdios.

O emprego dos termos “eleito, santo, amado”, que antigamente se referiam a Israel, sublinha o fato de que os cristãos estavam conscientes de formar uma nova comunidade como povo de Deus, e isso devia se refletir em suas mútuas relações.

Segue-se uma lista de virtudes que destacam a transformação interna necessária para se adquirir um novo comportamento, uma vida nova configurada à de Cristo, com humildade, mansidão, paciência etc.

A expressão “uns aos outros”, repetida duas vezes (v. 13.16), sublinha que as responsabilidades são mútuas. A obediência ao Senhor será demonstrada através do modo como as responsabilidades comunitárias e familiares são assumidas por todos como testemunho para o mundo. O elenco das regras familiares acentua muito mais as responsabilidades que os direitos de cada um. Isso é um testemunho para nossa época, na qual as pessoas geralmente colocam a exigência dos direitos em primeiro lugar, seja no ambiente eclesial ou familiar.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O presidente da celebração deverá destacar alguns problemas da família na atualidade sem, contudo, cair no sermão moralista e ofensivo. Não se trata de mencionar assuntos polêmicos, mas de orientar as famílias nas luzes do Espírito Santo. Destacar que Jesus está empenhado em resgatar o valor da família, pois ele mesmo quis pertencer a uma.

Publicado originalmente na Revista Vida Pastoral, ano 54, número 293, novembro-dezembro de 2013.
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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Povo que andava nas trevas viu uma grande luz


Roteiro Homilético para o Natal do Senhor - 25 de dezembro

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

I. INTRODUÇÃO GERAL

As profecias descreveram o Messias prometido com várias linguagens e títulos. Essa promessa alimentou a fé de Israel durante vários séculos. Hoje, nessa festa da luz, a esperança que animou o povo da aliança tornou-se realidade. A luz das nações, o Filho de Deus, manifestou-se na humildade, não veio como um guerreiro poderoso, mas na fragilidade de um recém-nascido. Hoje a fé cristã celebra sua primeira vinda enquanto esperamos sua manifestação gloriosa, quando o dia eterno chegar.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Lc 2,1-14): Um filho nos foi dado

A promessa feita ao povo de Israel agora se realiza. E é em Belém, cidade de Davi, que se desencadeia a história da salvação. A imagem do Salvador deitado numa manjedoura tem um sentido profundamente teológico. Na manjedoura como na cruz o enfoque é o despojamento de Jesus, o fato de ele estar à mercê da acolhida ou da rejeição por parte das pessoas.

Outro fato importante é o lugar de seu nascimento. É estranho que não houvesse lugar para José e Maria (v. 7), já que no Oriente a hospitalidade é sagrada, principalmente para uma mulher que dava sinais da proximidade do parto. Por isso, a frase “não havia lugar para eles” deve ter um valor teológico, a saber, a sombra da cruz se projeta sobre os primeiros dias de sua vida, também não tinha onde ser sepultado.

Se, por um lado, não tem lugar para nascer, por outro, é acolhido pelos pastores, acontecimento que é o cume teológico desta seção (v. 11). A promessa divina tinha sido feita aos pastores como Abraão, Jacó, Moisés, Davi etc. Agora Deus estava cumprindo sua promessa e, por isso, o anúncio aos pastores tem caráter de evangelho que quer dizer “boa notícia”.

O sinal (v.12), dado pelos anjos aos destinatários da boa-nova, não é o fato de o Menino estar envolto em faixas, pois isso acontecia com todo recém-nascido (cf. Ez 16,4) para que ficasse aquecido e protegido de doenças. O sinal é que o menino está em uma manjedoura, ou seja, há aqui uma alusão à Eucaristia (pão do céu). Esse sentido pode ser reforçado pelo nome da cidade, Belém, em hebraico Baith-lehem, casa do pão. Dessa forma, o “sinal” não é para que encontrem o Menino, mas uma garantia da comunicação sobrenatural a respeito dele (cf. Ex 3,12).

A narrativa termina com um hino de glória (v. 14). Esse cântico significa que o anúncio da boa notícia encontra um eco no céu. A liturgia celeste se une à comunidade cristã para celebrar esse mistério. A paz, a que se refere o hino, é uma das expressões mais usadas para se falar da salvação esperada no tempo do Messias (cf. Is 9,5-6). O cântico manifesta que a humanidade é amada por Deus e por isso o Salvador nos foi dado, Jesus é o dom do Pai.

2. I Leitura (Is 9,1-6): Um menino nos nasceu

Zabulom e Nefitali foram as primeiras cidades do Reino de Israel a ser atingidas pela invasão do grande império estrangeiro que deportou parte de suas populações. Por isso, as profecias afirmavam que Deus devolveria a essas cidades sua antiga glória. As trevas que pairavam sobre aquela região seriam dissipadas quando um rei futuro introduzisse uma etapa definitiva de justiça e paz.

A esse rei ideal foram atribuídas a sabedoria de Salomão, a honra de Davi e religiosidade dos patriarcas e de Moisés. Ele seria a condensação das virtudes de seu povo. Um grande acento foi posto na sua sabedoria, critério exigido dos governantes de Israel, garantia de bem-estar para a comunidade. As expectativas messiânicas apontavam para um rei davídico ideal e, por isso, a igreja primitiva viu no início do ministério de Jesus na Galileia, região onde ficavam aquelas cidades, a realização das antigas profecias.

3. II Leitura (Tt 2,11-14): A manifestação do Salvador

Esse texto é o coração da Carta a Tito e corresponde à tática de fundamentar a práxis cristã nos alicerces sólidos da fé. Em primeiro lugar, está o amor de Deus que comunicou a graça da salvação para todos os seres humanos. Em seguida sublinha a esperança da manifestação gloriosa de Cristo. Finalmente, recorda a redenção dos pecados através da oferta de Cristo. Por todos esses fatores, estamos capacitados para toda a boa obra que nos configura a Cristo e nos põe a caminho da vida eterna.

O autor da carta vê a salvação como fruto de uma manifestação da graça de Deus (v.11). Essa manifestação é a vitória de Cristo, a ressurreição, e nos ensina a viver de acordo com o dom da vida plena, renunciando a todos os “valores” da morte.

Ensina também a esperar a manifestação gloriosa do “grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (v.13). As expressões “grande Deus” e “nosso Salvador” eram próprias dos cultos aos deuses e aos imperadores romanos. Aqui elas são direcionadas a Cristo mostrando a fé da comunidade cristã como contestação ao império romano.

O v. 14 dá um conteúdo prático, mais que pedagógico, à redenção trazida por Cristo. Ele se entregou por nós e com isso nos salvou da iniquidade, purificando para si um povo escolhido e zeloso nas boas obras.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O nascimento de Jesus nos ensina, primeiramente, a grande benevolência de Deus, que envia seu Filho ao mundo como dom. É importante resgatar esse aspecto nos tempos atuais, pois as pessoas quase não experimentam mais o valor da gratuidade. Vive-se numa corrida desenfreada pelo bem-estar pessoal, em que as relações são baseadas na troca e não na gratuidade da entrega de si.

Outro ensinamento importante que nos trazem as leituras desta liturgia é o desapego, a renúncia. O nosso Salvador nasceu numa manjedoura e morreu numa cruz. Isso expressa o modo integral como viveu sua vida. Não procurou honrarias nem benefícios próprios. Não se apegou à sua condição de Filho de Deus, mas viveu a total entrega de si, de sua vida, sem esperar das pessoas reconhecimento algum. Viveu à mercê da acolhida ou da rejeição das pessoas. Viveu livremente sua entrega de vida, sua doação ao outro.

A encarnação de Jesus Cristo vem nos ensinar que a vida humana é puro dom de Deus. E como tal, deve ser recebida e vivida como entrega de si. Somente dessa forma podemos curar o mundo do egoísmo, grande mal que desfigura o ser humano.

Publicado originalmente na Revista Vida Pastoral, ano 54, número 293, novembro-dezembro de 2013.
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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).