segunda-feira, 19 de abril de 2021

Qual é o significado dos 153 peixes em Jo 21,11?

 

Na pesca milagrosa em Jo 21, Simão Pedro contou 153 grandes peixes capturados em sua rede. Existe algum significado simbólico por trás do número 153?
Simão Pedro subiu e puxou a rede para terra, cheia de grandes peixes, cento e cinquenta e três; e embora fossem tantos, a rede não se rompeu (Jo 21,11).

Há muito tempo tem-se suspeitado de um significado mais profundo para esse número de peixes. O significado enigmático que o número possa ter comunicado aos leitores do evangelho parece ter se perdido, mas isso não impede que intérpretes faça, especulações.
 
Comentando essa passagem do evangelho, São Jerônimo relacionou o milagre dos 153 peixes com o texto de Ez 47,10: 
Junto a ele se acharão pescadores; desde En-Gedi até En-Eglaim haverá lugar para se estenderem redes; o seu peixe, segundo as suas espécies, será como o peixe do Grande Mar, em grande número.

O profeta estava falando sobre um rio de vida que, na era messiânica, iria fluir do Templo de
Jerusalém em direção ao Mar Morto, tornando a água salgada em água doce. E os pescadores estariam ali junto dessa água da vida, de En-Gedi a En-Eglaim, com suas redes de pesca haveria muitos peixes.
 
Essa profecia parece impossível porque essa região está no deserto da Judeia. En-Gedi a En-Eglaim são oásis, embora haja água, não há condições para peixes.
 
São Jerônimo acreditava que o milagre representava os apóstolos trazendo pessoas de todas as nações para o reino de Deus. Afinal, os discípulos deviam ser “pescadores de homens” (Mt 4,19) e o “reino dos céus é como uma rede lançada ao mar, que apanha peixes de toda espécie” (Mt 13,47).
 
Os escribas judeus responsáveis ​​por copiar os textos bíblico contavam rotineiramente as palavras e letras de um pergaminho para verificar a qualidade das novas cópias. A relação numérica que os escribas tinham com o texto escrito resultou em um campo de exegese chamada de gematria (guematria).
 
Sabendo disso, Santo Agostinho observou que o número 153 é o número triangular 17. Um número triangular é encontrado assim:
1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 + 10 + 11 + 12 + 13 + 14 + 15 + 16 + 17 = 153
 
A especulação continuou nas eras seguintes com o objetivo de descobrir alguma relação entre o número 153 e os locais próximos ao Mar Morto, mencionados em Ez 47,10, onde os pescadores lançariam redes durante a Era Messiânica. 
 
O valor numérico para a palavra Gedi (גדי) no nome En-Gedi (עין גדי) tem a soma de 17.

ג = 3

ד = 4

י = 10


O valor numérico para a palavra Eglaim (עגלים) no nome En-Eglaim (עין עגלים) tem por soma 153.
 
 ע = 70

ג = 3

ל = 30

י = 10

ם = 40

 
Alguns especuladores foram mais além. Eles pegaram o texto hebraico de Ez 47 e começaram a contar as palavras que estavam grafadas ali e tiveram a surpresa de constatar que a palavra hebraica Gedi (גדי) é a centésima quinquagésima terceira palavra do texto hebraico de Ez 47.
 
Essas relações podem ser coincidência, mas o imaginário do rio da vida que flui de dentro dos Templo, em Ez 47, inspirou outras passagens importantes do evangelho segundo João:  
Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva (Jo 7,38, cf. Ez 47,1; Zc 14,8).
Mas um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e logo jorrou sangue e água (Jo 19,34).

 

 BIBLIOGRAFIA

EMERTON, J. A. The Hundred and Fifty-Three Fishes in John XXI.11. Journal of Theological Studies 9 (1958) 86-89.

GRIGSBY, Bruce. Gematria and John 21:11. Another Look at Ezekiel 47:10. Expository Times 95 (1983-84) 177-178.

 


Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).



quinta-feira, 18 de março de 2021

Ide a José, homem justo com um coração de Pai

 

A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo. Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”. Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia ordenado, e acolheu sua esposa (Mt 1,18-24).


Esse trecho do Evangelho conforme Mateus, que é proclamado na liturgia de 18 de dezembro, narra como José lidou com a gravidez inesperada de Maria, com a qual estava desposado. É um relato tenso sobre a forma como ele responde a uma mudança inesperada em sua vida e no futuro dele com Maria e a criança que vai nascer.

Lidar com decepções ou problemas que surgem inesperadamente, como um acidente, uma demissão, uma doença, a morte de um ente querido ou a notícia ruim, é algo muito difícil para qualquer ser humano. Nossos sonhos para o futuro podem ser alterados para sempre quando algum acontecimento inesperado invade nossas vidas.

A narrativa mateana sobre o nascimento de Jesus nos lembra que Deus está conosco, não importa o que aconteça.


QUEM É JOSÉ?

As narrativas sobre a infância de Jesus no Evangelho de Mateus se concentram mais em José do que em Maria. Isso porque o Evangelho de Mateus foi direcionado para cristãos de ascendência judaica. Mateus quer demonstrar que Jesus é o messias da linhagem de Davi, prometido pelos profetas na Sagrada Escritura.

Em hebraico José (Yoseph), derivado da raiz YSP (adicionar, acrescentar). Foi isto que Raquel disse quando lhe nasceu seu primeiro filho e décimo primeiro de Jacó: “que o Senhor me acrescente mais um filho” (Gn 30,24). Mas essa raiz também significa “agregar”, por isso, o nome José também pode significar “aquele que agrega”. Existem muitos paralelos entre o esposo de Maria e o patriarca filho de Raquel e Jacó, um dos doze patriarcas que formaram as doze tribos do povo de Israel. Por isso, o Papa Francisco destaca na Patris corde que “São José constitui a dobradiça que une o Antigo e o Novo Testamento” (1).


- Maria estava desposada com José e, antes de viverem juntos

O casamento judaico consiste de duas etapas: a primeira fase é a ketubá ou contrato de casamento que estipula as responsabilidades mútuas de esposo e esposa (Mt 1,18a, Lc 1,27a, Is 7,14). Depois disto o esposo vai preparar a residência para a nova família. Nessa ocasião o esposo dizia: “Vou preparar-te um lugar na propriedade de meu pai” (Jo 14,2). A etapa da coabitação é marcada pela cerimônia de kedushim (santificação) (Mt 1,18). O amigo do esposo prepara a cerimônia (Jo 2,9-11; 3,29). Ele avisa que o tempo da espera terminou (Mt 25,7). Duas procissões são formadas, uma com a esposa e outra com o esposo (1Mac 9,37-39; Ct 3,6-11; Mt 25,1-13). No encontro dos esposos há uma festa (Mt 22,1-14). Após a ketubá qualquer infidelidade dos esposos é considerada adultério. Essa é a situação suposta no relato mateano.

José se encontra numa situação terrível, seus sonhos de um casamento e de uma família felizes foram frustrados pela incrível notícia de que Maria estava grávida. É intenção do evangelista que sintamos as emoções e os pensamentos que devem ter dominado José até ele decidir o que fazer.

José viveu um dilema: sua esposa apareceu grávida e não era dele: não tinha evidências para provar a inocência ou culpa de Maria. Mateus nos informa que José ficou pensando até tomar uma decisão.


- era justo e não querendo denunciá-la

Em vez de expor publicamente Maria à desgraça, pois ela seria apedrejada como adúltera, José decidiu divorciar-se dela discretamente sem mencionar o motivo.

A bondade (justiça) de José permitiu a intervenção oportuna de Deus. José não foi considerado um homem justo porque ele era um observador rigoroso da Lei (Dt 22,23-24), mas por seu ajustamento em relação à vontade de Deus, por sua bondade.

A única opção para ele era se divorciar de Maria, escrevendo uma carta de divórcio (Dt 24,1) sem divulgar o motivo. No entanto, ele não fez isso imediatamente; mas estava ainda cogitando pôr em prática sua decisão.


- o anjo do Senhor lhe apareceu

O nome do anjo não é especificado, Mateus afirma que é o anjo do Senhor, que no Antigo Testamento é frequentemente um representante de Deus ou uma forma de falar no próprio Deus ao se comunicar com um ser humano. Alguns exemplos do aparecimento do anjo do Senhor são a Agar (Gn 16, 7-14), a Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,1), a Abraão no Monte Moriá (Gn 22,11-12.15), a Jacó (Gn 31,11;32,25), a Moisés (Ex 3, 2), a Josué (Js 5,13-15), a Gideão (Jz 6,22) e aos pais de Sansão (Jz 13,21-22). Novamente um eco da genealogia, José e Maria continuam a história do povo.

O anjo tranquiliza José dizendo que ele deve ir em frente e receber Maria como esposa, ou seja, deve desistir de divorciar-se dela. O anjo estava garantindo a José que ele poderia confiar em Maria.

Foi algo semelhante à interferência de Deus na vida de Abraão quando ele estava perto de sacrificar seu filho Isaque. Por isso Mateus colocou a genealogia de Jesus como introdução desse relato, ele quer que nos lembremos das histórias daqueles patriarcas e matriarcas. A história de José e de Maria é uma continuação das narrativas do povo da aliança.

O patriarca José, que viveu 700 anos antes, também era um homem casto e justo. Sua integridade moral é apresentada em Gn 39, quando ele vence o assédio da esposa de Potifar, seu amo. O patriarca José, sendo justo (bom) não se vingou de seus irmãos e nem os envergonhou publicamente quando eles foram ao Egito em busca de alimento. Em vez disso, ele os tratou bem e disse-lhes: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração” (Gn 50,20-21).

Era função do patriarca agregar, proteger, conduzir e cuidar da tribo. Temos aí novamente um paralelo entre o José do Antigo Testamento e o esposo de Maria. Inclusive o Papa Francisco destaca na Patris corde esse aspecto do papel que ambos exercem em relação ao cuidado. Diz o Papa que a confiança do povo em São José está contida na expressão “Ide ter com José; fazei o que ele vos disser (Gn 41, 55), uma referência às palavras do faraó do Egito quando o povo pedia pão em tempos de carestia e este lhe indicava que deveriam se dirigir àquele poderia suprir suas necessidades (1).


- em sonhos

Numerosas vezes na Bíblia, Deus se comunica com as pessoas por meio de sonhos. A Bíblia dá importância aos sonhos e à interpretação dos sonhos. O patriarca José também recebeu mensagens de Deus através de sonhos e também tinha o dom de interpretá-los. O sonho no qual seus irmãos se curvavam diante dele se tornou realidade. Sua interpretação do sonho de Faraó salvou o Egito e sua família de sete anos de fome.

O Evangelho conforme Mateus relata quatro sonhos de José, o esposo de Maria. O primeiro está no trecho que estamos refletindo (Mt 1, 20). O segundo está relatado logo depois que os magos partiram: o anjo do Senhor avisou a José para ir ao Egito (Mt 2, 13). O terceiro é narrado logo depois da morte de Herodes Magno quando o anjo diz a José para sair do Egito (Mt 2,19-20). No quarto sonho, José é avisado para não ir habitar na região da Judeia, mas da Galileia (Mt 2,23).


- Filho de Davi

A saudação do anjo chama a atenção: “José, filho de Davi”. O anjo enfatiza que José era da linhagem do Rei Davi, personagem mais destacado pela genealogia. Com essa saudação, o anjo preparou José para a parte seguinte da mensagem que iria transmitir. O povo da aliança estava esperando o messias que seria descendente do rei Davi conforme a profecia de 2 Sm 7, 12-16.

A expressão “Filho de Davi” foi usada várias vezes em referência a Jesus por pessoas que pediam sua misericórdia. Por exemplo, a mulher cananeia que pedia a cura de sua filha atormentada por um espírito impuro (Mt 15,22) e dois cegos pedindo a cura (Mt 20,30). O uso de “filho de Davi” pelo anjo ao saudar José significa que há uma conexão ancestral com Davi, de cuja linha o libertador viria.


- Não tenhas medo

José e Maria viviam numa época em uma sociedade que estava profundamente focada em
ideias de honra familiar. E se a esposa tivesse sido infiel aos compromissos do matrimônio, o esposo tinha o dever legal de assumir uma posição moralmente elevada e se mostrar livre da vergonha pública. E todos, legal e socialmente, ficariam do seu lado. Marcado por aquele contexto, José estava com medo do que as pessoas diriam a respeito dele. A vergonha pública, a má reputação o seguiria pelo resto de sua vida. Além disso, como ele poderia amar uma criança sabendo que não era seu pai? Todos esses receios devem ter passado pela cabeça de José.

Há outro agravante, porém. Aquela época era um tempo de terror. Um dos personagens principais daquele contexto era o rei Herodes Magno, um homem extremamente violento que não admitia nenhum questionamento a respeito da opressão que o império romano exercia sobre os povos. Qualquer atitude que fosse classificada como rebelião era combatida com grandes torturas e morte na cruz. Havia a pax romana que proibia qualquer desacordo entre as pessoas. As pessoas viviam aterrorizadas e se refugiavam nas promessas de Deus que enviaria um libertador nacional semelhante a Davi que combateu os filisteus ou a Moisés que venceu o faraó do Egito.

Mas o anjo disse a José que não deveria ter medo porque o que nela foi concebido procedia do Espírito Santo. Deus estava cumprindo suas promessas, o libertador estava chegando através de Maria.


- tu lhe darás o nome de Jesus

O nome Jesus significa literalmente “YHWH (o Senhor) é a salvação”. O anjo estava dizendo a José que o menino que iria nascer é Deus trazendo a salvação prometida. Não apenas uma libertação nacional contra o império romano e o poder de Herodes. De uma forma que José, e nem nós ainda conseguimos entender completamente, esse menino é Deus vindo fazer morada conosco como um de nós.

Portanto, o anjo esclareceu a missão de Jesus para José. Jesus, em hebraico é Yeshua', o mesmo que Josué, no Antigo Testamento, que conduziu os israelitas através do rio Jordão para a terra prometida derrotando os cananeus. Jesus salvaria o povo da escravidão do pecado e os conduziria através batismo à nova Jerusalém, a realidade celeste. Portanto, a libertação prometida por meio do redentor não era do imperador romano, como os líderes judeus contemporâneos esperavam do messias, mas de um inimigo maior que poderia impedir o povo de chegar a Deus.

O pai era o único que tinha o direito de nomear o menino Jesus no dia da circuncisão, o rito de iniciação à fé judaica. José lhe deu o nome de Jesus conforme as instruções do anjo e, dessa forma, o reconheceu como o filho legal. De acordo com o conceito da época, nomear um filho era reivindicar o filho como seu. A paternidade de Jesus pertence a Deus, o Pai, que designou o nome de Jesus para seu filho e pediu a seu pai adotivo José e sua mãe Maria que usassem esse nome no momento de sua circuncisão.


- para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta

Mateus está se referindo ao texto do profeta Isaías em 7,14. Um destaque deve ser dado ao
termo Emmanuel, que é um título e não um nome. No livro de Isaías há várias nomeações semelhantes para o messias: “o seu nome será: “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5). Estes, incluindo “Emanuel”, não foram dados como nomes literais, mas como o título que especifica as características do Messias.


- quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia ordenado

O relato de Mateus está enfatizando que a história da salvação depende da obediência de José em meio a sua decepção, medo e incertezas. Três vezes no relato mateano sobre a infância de Jesus, José é visitado por um anjo que lhe diz para fazer algo e três vezes ele faz exatamente o que lhe foi dito para fazer. Ele é um personagem silencioso, não o ouvimos falar, ele é um homem de ação e faz o que precisa ser feito. Todos podemos nos beneficiar com o seu exemplo.


AS VIRTUDES DE JOSÉ

Podemos concluir nossa reflexão elencando algumas virtudes de José que transparecem no texto de Mateus. Elas são muito necessárias para nossa época:


- José era paciente

José foi paciente ao resolver o problema com Maria. Embora tivesse cogitado se divorciar em segredo, ele pensou muito a respeito. Uma reação imediata de José poderia ter levado Maria correr risco de morte e ele poderia ter perdido sua vocação como pai adotivo de Jesus. A ação imediata é boa em situações de emergência. Porém, quando há um conflito dentro de si ou na relação com os outros, a paciência por um tempo oportuno, com a confiança em Deus, nos ajudarão a uma melhor solução. Esperar um tempo razoável pode ser benéfico para obter ajuda de Deus ou de outras pessoas para resolver os problemas.


- José era um homem justo

Esse é o principal título que as Escrituras dão a José, além daquele com o qual o anjo o saudou “filho de Davi”.

Os anseios de José por um casamento feliz foram interrompidos pela notícia de que Maria estava grávida. O texto mateano destaca que José era “justo” no sentido de que ele se adequa ao que Deus espera do ser humano. Por isso, José decidiu encerrar o casamento discretamente. Este foi um ato nobre de sua parte, pois colocou em primeiro lugar salvar a honra da família de Maria e a vida dela em vez de cumprir rigorosamente a Lei. Isso é visto como algo justo pelo autor do evangelho. 
 
Aquele que prefere outro, aquele que mostra honra ao invés de “direitos” é o tipo de pessoa que precisamos nos tornar. José é justo porque seu agir é semelhante ao agir de Deus. José é uma pessoa segundo o coração de Deus. Ele era realmente um homem de Deus.


- José era atento

Não devemos esticar a passagem fazendo o texto dizer o que não era intenção do autor. No entanto, Mateus diz que José “pensava nisso”. Temos Maria como alguém que “meditava essas coisas em seu coração”. Mas, aqui, vemos que José também era um homem atento, um homem que refletia sobre os acontecimentos que estavam acima de sua compreensão e que o deixavam sem entender o agir de Deus. Não podemos entender a complexidade do agir de Deus a nosso respeito, não somos capazes disso, é preciso dar atenção aos acontecimentos com profundidade para discernirmos que decisão devemos tomar para fazer a vontade de Deus. É necessário ser uma pessoa atenta, meditar sobre como aplicar a Palavra de Deus às situações; considerar o leque de possibilidade de escolhas que Deus coloca diante de nós e considerar as consequências de cada alternativa de ação. Quantos de nós se orgulham da rapidez com que agem na vida? No trabalho, no lazer, nos relacionamentos, nas decisões...


PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

1. Se você calçasse as sandálias de José, como você teria reagido às notícias de Maria sobre a gravidez?

2. Você já teve uma experiência em que alguém lhe pediu para acreditar em algo que parecia “difícil de acreditar?” Como você reagiu a isto?

3. O que a decisão inicial de José nos diz sobre seu caráter?

4. Depois que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, o que as ações de José revelaram sobre sua fé? 
 
 
 
Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas) e Palavra Viva e Eficaz (Paulus).

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O endemoniado geraseno (Mc 5,1-20)


Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito e conforme a tradição acredita-se que tenha surgido em Roma. Os estudos modernos o situam por volta do ano 65d.C.

É um evangelho querigmático, ou seja, traz o primeiro anúncio da boa-nova que produziu grande impacto na vida das pessoas no primeiro século de nossa era. Em Marcos vemos Jesus manifestando seu poder nos exorcismos, na palavra anunciada com autoridade, no anúncio da chegada do Reino de Deus. Jesus se denomina o Filho do Homem e o Servo Sofredor que deve dar sua vida pela salvação da humanidade, uma interpretação dos Cânticos do Servo no livro de Isaías, especialmente o capítulo 53.
É consenso entre os estudiosos que o Evangelho conforme Marcos está dividido em duas partes:

1ª parte Mc 1,1- 8,26 – “Quem é esse Jesus?” Trata sobre a identidade do taumaturgo que realiza milagres, que proclama a palavra como quem tem autoridade (1,28), que expulsa demônios e que é uma figura enigmática para seus ouvintes.

2ª parte: Mc 8,27-16,20 “O messias ‘diferente’”. Após a realização dos grandes feitos, de Jesus, fica claro para os leitores que ele é o messias. No entanto Jesus afirma não ser aquele tipo de messias esperado pelo o povo, pelos fariseus, escribas e pela sua família e até mesmo pelos seus discípulos.

O trecho que vamos refletir, sobre o endemoniado geraseno (Mc 5,1-20), está localizado na primeira parte, sobre a identidade de Jesus. Não há dúvidas de que esse é um dos mais desconcertantes e escandalosos de todos os relatos de milagres e exorcismos presentes nos evangelhos. O que dizer de um demônio que tenta passar a perna em Jesus e acaba sendo ele o enganado?

Nesse relato temos a estrutura clássica de um exorcismo:
1. encontro entre Jesus e o possesso,
2. Resistência do demônio,
3. ordem de sair dada por Jesus,
4. saída do demônio,
5. reação dos que testemunharam o exorcismo.

Trata-se de um exorcismo realizado em terras pagãs. Como todo exorcismo significa a vitória de Jesus sobre Satanás. Temos esse mesmo relato com algumas modificações também em Lc 8,26-39 e em Mt 8,28-34.

Em Marcos temos uma obra dramática sobre um homem possuído por um espírito impuro numa região pagã, do outro lado do Mar da Galileia. Alguns elementos no texto nos revelam que o território era pagão:
→Ele habitava nos sepulcros (v.2.3.5), lugar considerado impuro e impróprio para se morar pelos judeus.
→ Identifica o Deus de Israel como Deus altíssimo, a forma habitual utilizada pelos pagãos.
→O nome do espírito impuro é legião, termo militar que indica um destacamento de aproximadamente 6.000 soldados romanos.
→Temos ainda a presença dos porcos, que aos judeus era proibida a criação e a ingestão desse animal por ser considerado impuro segundo as normas da tradição judaica (Lv 11,7; Dt 14,8).
→ do outro lado do Mar, na região conhecida como Decápole, que era uma confederação de dez cidades numa região não judia, habitada por povos sírio e gregos na margem do Mar da Galileia.

Todos esses elementos nos revelam que esse é um caso especial de exorcismo em favor de um pagão que se transformou em modelo da atividade libertadora de Jesus em terras pagãs.

Além dessa passagem temos no evangelho de Marcos outros episódios que revelam essa abertura da salvação aos pagãos: a cura da filha da mulher siro-fenícia (7,24-30) e a cura do surdo-gago (7,31-37). Pode ser uma releitura marcana de algumas passagens do Antigo Testamento nas quais aparece uma visão universalista da salvação como em Is 65,3-5; Sl 107,10-15, que se aplicam bem à passagem sobre o endemoniado geraseno.

A atividade de Jesus como exorcista é um sinal da chegada do Reino de Deus (Mt 12,28). Ele tem poder para libertar um homem atormentado que vivia as margens da sociedade devolvendo-lhe a saúde física e psíquica. Nessa passagem constatamos que o poder de Jesus, atravessa as fronteiras pagãs e é manifestado em todo aquele que crê na boa-nova.

Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia.
Aquele homem após ser libertado do espírito impuro que o possuía, está agora sentado (posição do discípulo), vestido e em pleno uso da sua razão. Ele pede a Jesus para estar com ele, estar com Jesus era o que caracterizava o discípulo (Mc 3,14), pois o reconhece como seu salvador. No entanto ainda não era o momento de admitir entre os seus discípulos um pagão e nem andar com um recém curado como prova de seu poder.

A reação dos habitantes daquele lugar após a manifestação do poder de Jesus sobre os demônios é a mesma dos judeus. Ficam assombrados e pedem que ele vá embora. Eles não reconheceram a libertação operada pelo Senhor e até o temem por esse ato. Embora eles tivessem sido libertados do domínio dos demônios, pois era uma legião que estava aprisionando aquele homem.

A morte da manada de porcos significava que toda aquela região estava livre do poder de Satanás. Jesus saiu vitorioso sobre a legião, mas não foi aceito pelos homens. Por isso, pede ao homem que fique entre os seus e anuncie todas as maravilhas operadas por Deus em seu favor. Ele se tornará de agora em diante testemunha e mensageiro, na terra pagã, da vitória sobre os demônios e que o Deus de Israel é um Deus misericordioso para com todos e que as promessas feitas aos antepassados de Israel serão agora cumpridas (Is 56,6; 66,18). A salvação não é exclusivamente para Israel, é primeiramente para o povo da aliança (Mt 10,5), mas deve ser estendida a todos (At 10).

Aqui parece haver uma oposição na postura de Jesus que sempre após as curas ordenava silenciar o acontecido. Ali em plena Decápole não havia risco de uma compreensão equivocada acerca do seu messianismo. Ir com Jesus poderia significar adotar os costumes judaicos. Ir para sua casa e anunciar o que o Senhor realizou era permanecer na sua cultura com seus costumes, mas, testemunhando a libertação oferecida por Jesus para aqueles que desejavam um novo modo de viver.



Ir. Luciene Lima Gonçalves é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, mestra em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP (2020). É especialista em Estudos Bíblicos pela Faculdade Católica de Fortaleza (2015) Graduada em Filosofia (ITEP) e Teologia pelo Instituto de Ciências Religiosas - ICRE (2007)

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Bíblia e Contemplação

O sentido etimológico da palavra contemplação é o ato de fixar o olhar em algo, em alguém, ou em si mesmo, com encantamento. Também pode ser o olhar atento ou embevecido. O ato de contemplar faz parte da cultura humana desde a antiguidade. Na Grécia, os grandes filósofos buscavam na contemplação da natureza a razão ou compreensão a respeito de tudo. Dessa atitude surgiram os grandes questionamentos sobre a existência dos seres e o sentido da vida. E as três perguntas essenciais ao ser humano: de onde viemos, quem somos e para onde iremos? Essas questões são, ainda hoje, pertinentes. As ciências humanas especificamente a filosofia, buscam encontrar respostas para essas questões. Contudo, para o cristão, por mais que a filosofia encontre respostas, ela não oferece sentido primeiro para a vida, porque este somente é possível dentro de um relacionamento amoroso com Deus. O cristão procura na sua fé o sentido de sua existência. Portanto, é precisamente na Sagrada Escritura que ele irá encontrar as respostas para guiar sua caminhada existencial.

É, pois, numa atitude de contemplação, não no sentido apenas de “olhar mais atentamente”, mas, no “mergulhar” nessa Palavra, que é Reveladora de Deus. (Sl 119,16), que o cristão, diferente do filósofo, vai olhar mais atentamente para a Escritura buscando perceber nela a Voz de Deus que lhe interpela. Contemplar segundo a experiência cristã significa saborear as coisas divinas, deixar-se conduzir por Deus (Sl 119,16; Sl 27,4;Sl 62,3; Sl 63,2).

As origens da contemplação na Igreja
A espiritualidade cristã encontra na contemplação uma forma de intimidade profunda e amorosa com o Deus vivo, mediante a fé. Essa experiência de Deus está presente na Igreja desde os seus primórdios. Os primeiros cristãos buscaram encontrar na Sagrada Escritura, através de uma leitura orante da Palavra, o alimento de sua fé, esperança e caridade. Essa forma de oração tornou-se conhecida como Lectio Divina. Essa expressão vem de Orígenes, o qual dizia que devemos ser como Rebeca: todos os dias voltar à fonte, que é a Escritura. E o que não conseguirmos por esforço próprio, devemos pedir em oração 
pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas
A Lectio divina é uma forma de oração que nos dispõe para o dom da contemplação. Não é o único modo de oração, mas, uma forma bastante eficaz e muito difundida na Igreja. A Lectio divina se tornou a espinha dorsal da vida religiosa. Desde o monaquismo do deserto a Palavra de Deus que era ouvida, lida, meditada e rezada, inspirou o surgimento e a organização das regras de Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento. A sistematização da Lectio Divina em quatro degraus aconteceu no séc. XII. É atribuída a Guigo, um monge cartuxo, que escreveu a obra A escada dos monges, livro que apresenta quatro degraus espirituais: a leitura, meditação, a oração e a contemplação. São poucos os degraus, mas para o monge, atinge uma altura imensa, inacreditável, uma vez que liga céu e terra. A contemplação é, pois, a elevação da mente sobre si mesma que, suspensa em Deus, saboreia as alegrias da doçura eterna. Os mosteiros, naquela época, eram considerados centros de aprendizado e de espiritualidade para leigos e religiosos. Por meio deles, a comunidade mantinha contato com esse modo de oração que alimentava e fortalecia sua fé.

Os quatro passos da leitura orante
Lectio (leitura) – é a leitura feita com a disposição de escutar com fé a Palavra de Deus, é a leitura espiritual, é deixar-se conduzir pelo Espírito Santo. É predominante uma atitude de escuta.
Meditatio (meditação) - Após ouvir a palavra divina, temos o desejo intenso de uma maior aproximação, desejo de acolher essa palavra de amor em nossa vida, refletindo como melhor respondê-la.
Oratio (oração) – é o colóquio de amor entre Deus e o orante, é o falar com Deus. A palavra tendo penetrado no coração, dilata-o, toca-o de tal forma que o atrai para o Amor ardente de Deus.
Contemplatio (contemplação) - esse é o momento em que o orante sente-se inteiramente de Deus. Como o apóstolo Paulo disse já não sou eu quem vivo mais "é Cristo que vive em mim". Deixar Deus ser Deus em nós, agir em nós, porque por Ele "nos movermos e existirmos".
 
Através da leitura orante buscamos experimentar o que a própria Escritura nos diz
a Palavra está muito perto de ti na tua boca e no teu coração, para que a ponha em prática (Dt 30,4).
Ela está na boca pela leitura; no coração pela meditação e pela oração; na prática pela contemplação.
O objetivo da Lectio divina é o mesmo contido na Escritura
comunicar a sabedoria que leva à salvação pela fé em Jesus Cristo (2Tm 3,5).
A leitura orante é um modo de orar com a Bíblia de forma tão simples e fácil que nos conduz à contemplação, não se entende como foi esquecida por tanto tempo na Igreja. Como tinha sido praticada pelas ordens monásticas, os cristãos em geral não têm conhecimento dela. Esse esquecimento se deve ao fato de que houve um período da história da Igreja em que a leitura da Bíblia não era estimulada. Foi o período da história chamado pela Igreja de Contrarreforma ou Reforma Católica. A Lectio divina veio a ser estimulada a partir do Concílio Vaticano II, o qual trouxe ares de renovação a todos os setores da Igreja. Na oração de abertura do Concílio percebemos o desejo de reacender o fogo do amor divino em todos os fieis. A recomendação da Dei Verbum de que a Escritura deveria ser lida com espírito orante nos mostra seu retorno às fontes da oração cristã, a Lectio divina (DV.25): 
Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e o homem, pois ‘a Ele falamos quando rezamos; a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos.
Com a redescoberta ou retorno à leitura orante da Bíblia temos também a volta da prática da contemplação. A experiência contemplativa parece ser um privilégio reservado apenas a uma elite cristã, os monges. No entanto, há muitos leigos que praticam esse modo de orar com a Palavra,  inclusive, há grupos em várias igrejas que promovem a Lectio divina. A contemplação é a meta final da Lectio divina, é um descanso em Deus, um olhar amoroso é cume ou síntese da oração. Para Santo Agostinho, através da leitura da Bíblia, Deus nos devolve o olhar da contemplação e nos ajuda a decifrar o mundo e a transformá-lo para que seja novamente Revelação de Deus, teofania. O cristão contemplativo não só medita a palavra, mas a realiza, não só a ouve, mas a coloca em prática. Não separa o dizer e o fazer. Como primeiro degrau é a leitura com a disposição de escutar, o silêncio torna-se indispensável para se conseguir progredir nos degraus da contemplação.

O silêncio como atitude fundamental da vida contemplativa
 Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o Único Iahweh! Portanto amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! (Dt.6,4ss).
O texto acima é conhecido como credo de Israel, ou Shemá, aquilo que resume a fé e a atitude do fiel diante de Deus: a escuta da Palavra do Deus Único de Israel. O verbo Shemá em hebraico significa: ouvir, prestar atenção, dar ouvidos, entender, examinar, discernir. O Deus de Israel convida o seu povo e cada um de nós hoje a ter uma atitude silenciosa diante de sua presença santa. Estar em silêncio significa fazer calar em nós todas as vozes e ruídos interiores que podem nos impedir de ouvir a voz do Senhor e de conhecer sua vontade, atrapalhando nossa relação com Ele. A atitude de silêncio é entrega total de si mesmo, renúncia, abandono nas mãos do Pai, confiança plena em um Deus que nos acolhe em seus braços, como uma mãe que acalenta o filho e o ama. Silenciar diante de Deus significa deixar-se conduzir por seu amor inefável sabendo que, na sua presença, só resta ao ser humano calar-se diante do Mistério Divino, como fez Jó (42,5s).

A contemplação cristã
Contemplar a Deus é experimentá-lo na realidade de nossa vida. É experimentar a presença do Deus de Jesus, Misericordioso e Libertador, sabendo que estamos em suas mãos. Essa experiência nos é apresentada por Jesus nos Evangelhos. É pela leitura, meditação, oração que nos aproximamos e nos tornamos íntimos da Palavra de Deus, do Pai de Jesus e nos tornamos filhos no Filho. A contemplação cristã tem sua singularidade, ela é diferente da forma de contemplação humana ou religiosa, pois se refere a Cristo e a seu seguimento. Ser um cristão contemplativo significa seguir a Cristo e participar de sua contemplação ao Pai. Outro fator característico da contemplação cristã é que ela não é fruto do esforço humano através de exercícios de concentração como nas religiões orientais, mas, da ação do Espírito Santo orando em nós (Rm 8,26s).

A contemplação cristã não é etérea, incorpórea, ela é encarnada e comprometida, alimenta-se da vida, da ação e da fraternidade vivida em comunidade. A experiência do Deus de Jesus nos leva a destruir os falsos deuses, os ídolos que habitam em nós, é uma experiência purificadora, como foi para o povo de Israel em sua caminhada com Deus. Significa um caminho irreversível de morte do homem velho, egoísta, idólatra, para um renascer do homem novo que vive pelo Espírito. Quando a Palavra divina se encarna em nós, de tal forma que nos identificamos com ela pela contemplação, quando nos alimentamos com o livro que é doce na boca (Ez 3,3), ela chega até as entranhas. Tendo como Maria a palavra nas entranhas, escutando com os ouvidos e recebendo com o coração (Ez 3,10).

Contemplação e engajamento
O cristão mesmo quando reza sozinho, no lugar mais isolado, ele nunca está só. Quando ele ora, ora como Igreja, faz parte de um todo. Quanto mais cristão, mais contemplativo e quanto mais contemplativo mais comprometido e solidário com seus irmãos. Thomas Merton afirma:
A contemplação está fora de questão para os que não tentam cultivar a compaixão pelos outros
O evangelista João também nos fala das consequências da união com Deus: 
Nisto conhecemos o Amor: ele deu sua vida por nós. E nos também devemos dar a nossa vida pelos irmãos.(IJo 3,16)
Não pode haver diferença entre o Deus experimentado, amado em si mesmo e por si mesmo e o Deus que experimentamos na pessoa do irmão necessitado da nossa presença fraterna. Jesus que subia ao monte para orar e estar a sós com o Pai, contemplá-lo é o mesmo que se entrega ao serviço do Reino de Deus intensamente. (Mc 1,35ss). Na Ascensão, após Jesus ser elevado, os seus discípulos olhavam atentamente para o céu, quando surgiram dois homens vestidos de branco e perguntam: 
 Homens da Galiléia por que estais aí a olhar a para o céu? (At 1,11). 
Assim, todo cristão, após ter experimentado o Cristo Ressuscitado não pode ficar paralisado pela experiência, mas deve ir até os povoados e aldeias anunciando com a vida a salvação que já está em nosso meio.

Conclusão
Nos dias de hoje, temos necessidade de um tempo de silêncio dedicado a oração, de encontro com o Senhor, quando mergulharemos na sua Palavra e nos alimentaremos de sua presença. Esse tempo nos revigorará, nos preparando para todas as adversidades que nos esperam. Como cristãos, todos os dias precisamos responder com nosso testemunho as interrogações daqueles que clamam por Deus, que necessitam encontrá-lo através de nós. É nessa contemplação, nesse mergulhar em Deus e retornar a superfície de nossa existência, que traremos conosco o olhar amoroso de Deus por seus filhos.

Bibliografia

GALILEA, Segundo. O Caminho da espiritualidade: visão atual da renovação cristã. São Paulo: Paulinas, 1985.

GALILEA, Segundo. Contemplação e engajamento. São Paulo: Paulinas, 1976.

Hall, Thelma. Lectio Divina. São Paulo: Loyola, 2001.

A leitura orante da Bíblia. Coleção: Tua Palavra é vida. São Paulo: Loyola, 1990.

PASCUAL, Rafael. Contemplação. In: Dicionário Teológico da vida consagrada. São Paulo: Paulus. 1994. p. 296-299.

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA.In: Compêndio do Vaticano II: Decretos, Declarações. Petrópolis: Vozes, 1996.

TERRA. João. Lectio Divina. Revista de Cultura Bíblica, n. 55, São Paulo: Loyola, 1990. p.96-102.
 

Ir. Luciene Lima Gonçalves, membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, é doutoranda em Ciências das Religiões pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP. Mestra em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP (2020).  É especialista em Estudos Bíblicos pela Faculdade Católica de Fortaleza (2015) Graduada em Teologia pelo Instituto de Ciências Religiosas - ICRE (2007). E-mail: lucienelima324@gmail.com