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domingo, 5 de junho de 2011

O Espírito Santo e Maria

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

“Concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria” é uma das afirmações da profissão de fé cristã quando trata sobre a Encarnação.

Quando estávamos em preparação para o Jubileu da Encarnação, na expectativa do ano 2000, tivemos um ano dedicado a uma catequese sobre o Espírito Santo em 1998.

O enfoque da celebração do terceiro milênio foi o da concepção e nascimento de Jesus Cristo tornada possível pelo poder do Espírito Santo e pela cooperação da Virgem Maria. A concentração numa “reciclagem” catequética sobre o Espírito Santo deveria constituir também uma devoção mariana mais sólida, mais vinculada ao seu papel em relação a Jesus e em relação ao Espírito Santo.

O Espírito Santo é o guardião da esperança no coração humano, por isso houve uma especial atenção à virtude teologal da esperança em 1998. Nas Escrituras, Maria é a mulher dócil à voz do Espírito, a mulher que esperou contra toda esperança. Em Maria, a Igreja vê “um sinal da esperança segura” (LG 68), ela foi “plasmada pelo Espírito Santo e formada nova criatura” (LG 56). Enfim, a Igreja deve ser aquilo que Maria é. E enquanto peregrina neste mundo a Igreja tem Maria como um sinal “até que chegue o Dia do Senhor” (LG 68).

Há dois textos nas Sagradas Escrituras que tratam diretamente sobre o Espírito Santo e Maria:

a) Mt 1,18-20
As circunstâncias do nascimento de Jesus é uma ação do Espírito Santo sobre Maria (v.18), “o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (v.20). Há um testemunho do narrador (v.18) e um testemunho do céu (v.20) de que Maria está sob a ação do Espírito Santo para que Jesus venha a nascer. A justiça de José ou a inocência de Maria são aspectos secundários. O mais importante é a docilidade de ambos à ação do Espírito Santo. No caso de Maria há uma colaboração, ela corre risco de ser morta. O casal é um testemunho para a Igreja: deixar-se guiar e colaborar, mesmo que isso exija a morte ou a mudança de mente (conversão).

b) Lc 1,35
Primeiramente, menciona-se a descida do Espírito Santo sobre Maria. Isso nos remete a Ex 3,8 quando se afirma que Deus desceu para livrar o seu povo do faraó e para fazê-lo subir à terra prometida. Depois é dito que “o poder do Altíssimo” cobrirá Maria. Isso está vinculado com a criação, quando o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2). O Espírito cobrirá Maria com sua sombra, isto nos remete à nuvem (shekiná) no deserto cobrindo a Tenda do Encontro (Nm 9,15).

No evento de Pentecostes o Espírito Santo permanece Deus misterioso ou escondido (Is 45,15) e assim ele permanecerá ao longo de toda a história da Igreja e do mundo. Pode-se dizer que ele está escondido na sombra de Cristo. Ele é o Deus escondido que trabalha em silêncio e no interior. A narrativa sobre o Pentecostes em At 2,1-13 indica que quando se trata do Espírito Santo há somente a observação dos efeitos de sua presença e de sua ação em nós e no mundo. O mesmo efeito pode causar estupefação em uns (2,12) e zombaria em outros (2,13).

Na tradição religiosa de Israel, o Pentecostes era originalmente a festa dos primeiros frutos da colheita (Ex 34,22). O Antigo Testamento dá instruções detalhadas para a celebração do Pentecostes (Lv 23,15; Nm 28,26-31), que mais tarde tornou-se também a festa da renovação da aliança (2 Cr 15,10-3). A narrativa sobre Pentecostes em At 2,1-13 está vinculada ao relato sobre a comunidade dos reunida no Cenáculo onde todos unânimes “perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus” (At 1, 14). Uma leitura cuidadosa de Atos nos diz que havia homens e mulheres, e o momento do Pentecostes representado apenas pelos doze ou pelos doze e Maria omite um importante ensinamento sobre a manifestação do Espírito na Igreja. Isso significa que, no Novo Testamento, a festa da colheita torna-se a festa da “nova colheita” do Espírito Santo, o fruto da semente lançada por Cristo.

O texto da anunciação tem uma correlação com o texto sobre o Cenáculo e Pentecostes. Na anunciação Deus dá o seu Espírito a Maria a qual não é apenas a imagem (Abbild = reflexo) mas também a imagem típica (Urbild=protótipo) da Igreja. Em Pentecostes acontece com a Igreja o que aconteceu com Maria na anunciação e por isso a Igreja torna-se fecunda, gera o Cristo para as nações através do anúncio do evangelho em todos os idiomas.

Em 1974 o Papa Paulo VI escreveu um documento (Marialis Cultus (MC)) sobre a devoção a Maria, que continua a ser a norma para a devoção mariana entre os católicos. Depois de normatizar a devoção mariana em função de Cristo, o Papa destaca em dois números (MC 26 e 27) relaciona a mesma devoção em relação ao Espírito Santo. Isso significa primeiramente que não pode haver culto a Maria em si mesma.

No número 26 o Papa começa afirmando que “a intervenção santificadora do Espírito no caso da Virgem de Nazaré foi um momento culminante da sua ação na história de Salvação”. E, em seguida, lembra que Maria “se torna habitação permanente do mesmo Espírito”. Isto é, em Maria se diz o mesmo que se dizia para a arca da aliança [1].



“O mesmo verbo exprime a posição da nuvem sobre o tabernáculo e a do Altíssimo sobre Maria”. O tabernáculo fica cheio da glória, Maria fica cheia da presença do Filho de Deus.




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[1] MARTINS TERRA, João Evangelista. Releitura Judaica e cristã da Bíblia, São Paulo: Loyola, 1988, p. 24-25.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O ESPÍRITO SANTO NAS CARTAS DE PAULO

Aíla L. Pinheiro de Andrade*, nj.

Um estudo cuidadoso dos ensinos de Paulo mostra a confluência de três temas para uma unidade teológica. Esses temas são a fé, o Cristo e o Espírito Santo.

A fé em Jesus Cristo é a resposta humana à atividade divina levada a cabo pelo Espírito Santo. O Espírito Santo é descrito como o Espírito do Filho de Deus (Gl 4,6) e como o Espírito de Cristo (Rm 8,9). Quem confessa Jesus o faz pelo Espírito Santo, e ninguém que está no Espírito Santo pode dizer que Jesus é maldito (1Cor 12,3). Desta forma, não tem sentido um pentecostalismo sem uma configuração do cristão a Cristo, um pentencostalismo intimista e subjetivista, desvinculado da obra de Cristo para redenção do mundo e edificação do Reino que é ético em seu propósito: “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17).

A vida cristã, em suas dimensões mais diversificadas, é considerada por Paulo como estando sob o poder do Espírito Santo. Há diversas passagens que evocam, quando não afirmam diretamente, que a vida cristã é originada pelo Espírito Santo (1Ts 1,6; Rm 5,5; 8,9; 1Cor 2,4; 6,11; Tt 3:5). O Espírito é recebido pela escuta da pregação (Gl 3,2). Para o cristão, o dom do Espírito é a garantia da redenção plena que há de vir, como as primícias eram a garantia da colheita plena (Rm 8,23). Os cristãos foram selados com o Espírito da promessa (Ef 1,13).

Os dons do Espírito Santo nos textos de Paulo são dados em função do Reino Messiânico. Ele enumera uma lista longa de dons espirituais como profecia (Rm 12,6); línguas (1Cor 12,10); sabedoria (1Cor 2,6ss); conhecimento (1Cor 12,8); poder para fazer milagres (1Cor 12,10); discernimento dos espíritos (1Cor 12,10); interpretação de línguas (1Cor 12,10); fé (1Cor 12,9).

Em 1Cor 14 Paulo adverte sobre os dons carismáticos, contra a tendência extravagante e imoderada de empolgação emocional, devido à ação poderosa do Espírito de Deus na Igreja de Corinto. Ele insiste que todas as coisas sejam feitas para a edificação e que o crescimento do Corpo do Messias seja o verdadeiro alvo de todos os dons espirituais.

No fim do seu ministério e em suas ultimas epístolas, Paulo dedicou-se muito ao tema da Igreja e uma de suas analogias favoritas era a Igreja como corpo de Cristo. O Espírito Santo é quem anima esse corpo, comunicando-lhe a vida e dirigindo-lhe em todos os aspectos para a edificação do Reino. O mesmo Espírito também anima e guia o fiel de modo pessoal. Em um só Espírito todos foram batizados, para formar um só corpo (1Cor 12,13). Todos os dons atuantes na Igreja, “carismáticos” ou não, são formas diferenciadas da ação do Espírito (1Cor 12,4.8-11). Os carismas, em primeiro lugar, estão em função da edificação comunitária (1Cor 14,4s). A Igreja deve conservar “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4,3). A Igreja é a habitação do Espírito (Ef 2,22), é uma carta de Cristo escrita pelo Espírito (2Cor 3,3). Assim, a vida inteira da igreja está sob a ação do Espírito Santo.

Também há uma grande variedade de expressões que indicam a presença e a atividade do Espírito Santo orientando a vida moral do cristão. De fato, tudo na vida do fiel deve estar sob a direção e sustentação do Espírito. “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós” (Gl 5,22-26).

Os cristãos são advertidos a não contristar o Espírito Santo (Ef 4,30) e são exortados a portar a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus (Ef 6,17), pois há um contraste entre a carne e o Espírito. Esse contraste aparece em vários pontos nos escritos de Paulo, como por exemplo, em Gl 5,17ss. O Espírito nessas passagens, provavelmente, significa o Espírito de Deus ou o espírito do ser humano sob a influência do Espírito de Deus. “Carne” é uma palavra difícil de definir, mas geralmente equivale a “mente carnal”, isto é, a mente do ser humano pecador, distinta da mente submersa na espiritualidade. A carne é pensada como a esfera na qual os impulsos para o pecado agem (Gl 5,19), portanto, não se deve confundir carne com corpo. Paulo é judeu e, segundo o judaísmo, o ser humano é, em sua totalidade, muito bom. Essa idéia de que o corpo é negativo não faz parte do pensamento bíblico.

Por fim, o Espírito que habita nos fiéis é o mesmo que ressuscitou Jesus dos mortos e continua sua obra na vida dos fiéis como garantia de que também estes ressuscitarão (Rm 8,11 1Cor 15,44s).


Bibliografia:

KITTEL, Gerhard. Theological Dictionary of the New Testament. Michigan: Eerdmans, 1965.
KOHLENBERGER, J. R.; GOODRICK, E. W. & SWANSON, J. A. The exhaustive concordance to the greek New Testament. Grand Rapids: Zodervan, 1995.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

domingo, 22 de agosto de 2010

O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO TESTAMENTO

Aíla L. Pinheiro de Andrade*, nj.

A compreensão neotestamentária sobre a atuação do Espírito Santo na vida cristã foi herdada da tradição veterotestamentária e da tradição apostólica sobre Jesus de Nazaré, sua vida e suas palavras.
A expressão “Espírito de Deus” ou “Espírito Santo” encontra-se na maioria dos livros da Bíblia. Mas, no Antigo Testamento (AT), a expressão hebraica Ruah ha-Kodesh, referindo-se unicamente ao Espírito Santo, somente é encontrada no Sl 51,13 e Is 63,10. Ruah significa “respiração”, “vento” ou “brisa” e ha-Kodesh significa “do Santo”, ou seja, “de Deus”. Essa expressão é apenas um sinônimo de Deus ou da profecia por inspiração divina. Ruah ha-Kodesh também pode ser identificada com a Presença Divina na nuvem que guiava o povo no deserto e que pairava sobre a Tenda do Encontro no acampamento israelita (Nm 9,15-17).
Os autores bíblicos não filosofaram sobre a natureza divina, mas pensaram o Espírito Santo atuante. E, não obstante observemos uma identificação entre Deus e o Espírito Santo, também há uma clara distinção entre ambos. Mesmo que o pensamento monoteísta de Israel não lhe permitisse a noção de Trindade, há numerosas passagens no AT que estão em harmonia com a concepção trinitária e preparam o caminho para esta doutrina, como o Sl 139,7; Is 63,10; 48,16; Ag 2,5; Zc 4,6. A identificação é vista, principalmente, no Sl 139,7 (que declara a onipresença do Espírito), em Is 63,10 e Ez 36,27. Em um grande número, porém, de passagens, Deus e o Espírito Santo são distintos como, por exemplo, Gn 1,2; 6,3; Ne 9,20; Sl 51,13; 104,29s. Mas isso não significa que, no pensamento dos autores do AT, Deus e o Espírito Santo fossem considerados como dois seres distintos. A distinção entre ambos significa apenas que o Espírito Santo tinha funções que eram próprias dele. O Espírito Santo expressava a ação de Deus, particularmente quando uma ação humana caracterizava-se como efetivação de algum propósito divino. O Espírito significava, então, a ação de Deus imanente no ser humano e no mundo. Era Deus agindo dentro do ser humano e, ao mesmo tempo, enviado por Deus ao ser humano.
Os autores do AT consideraram os fenômenos da natureza como sendo o resultado da ação direta de Deus através do Espírito. Para o AT, é pelo Espírito que a vida é dada, mantida e redimida. A manifestação mais distintiva e importante da atividade do Espírito no AT está na esfera da profecia. O profeta era essencialmente distinto das demais pessoas como alguém que possuía o Espírito de Deus, enquanto os iníquos o tinham por louco (Os 9,7). Mensageiro de Deus, o profeta proclamava a mensagem divina através do Espírito que agia nele.
Em algumas passagens do AT o Espírito Santo é chamado de “bom” (Ne 9,20; Sl 143,10), principalmente porque ensina a fazer a vontade de Deus (Sl 143,10). Essas afirmações apontam para uma qualidade ética da ação do Espírito Santo. Mas é no Messias que a ação do Espírito Santo agirá de maneira especial, segundo a teologia do AT. O termo “messias” significa “ungido (de Deus)”. Nele o Espírito atuará de modo único, dotando-o com poder e sabedoria (Is 11,1-5) para a obra com a qual trará o reino de justiça e paz. Em Is 42,1ss o “Servo” é dotado do Espírito para promulgar o direito aos gentios. Em Is 61,1ss encontramos as notáveis palavras citadas por Jesus em Lc 4,18s: “O Espírito do Senhor está sobre mim...”.
Ao longo da história de Israel, quando os sofrimentos do exílio fizeram-se sentir pesadamente, surgiu uma tendência de idealizar uma era futura como a era da bênção especial do Espírito, marcada por um forte otimismo sobre um derramamento futuro do Espírito, como em Jl 3,1-5, citado em At 2,17-21.

Bibliografia:
CLARK, Matityahu. Etymological dictionary of Biblical Hebrew: based on the commentaries of Rabbi Samson Raphael Hirsch. Jerusalem & New York: Feldheim Publishers, 1999.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.