quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SEDE SANTOS PORQUE O SENHOR, VOSSO DEUS, É SANTO


Aíla L. Pinheiro de Andrade*

Roteiro Homilético para o 7º Domingo do Tempo Comum

I. INTRODUÇÃO GERAL

A primeira leitura destaca o mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,17-18). Para Israel, somente é possível amar a Deus se há amor ao próximo. Mas, ao longo da história, houve uma tendência de interpretar esse mandamento em sentido restrito, reservando a prática do amor apenas para o compatriota. O evangelho afirma que Jesus interpretou o preceito do amor ao próximo em dimensões universais. Por motivo algum é lícito odiar o outro, filho do mesmo Pai celeste e alvo do mesmo amor paterno (Mt 5,45). O mundo julga ser loucura retribuir o ódio com o amor, o mal com o bem, as ofensas com o perdão. Mas, na segunda leitura, Paulo ensina que os cristãos não devem se preocupar quando o mundo os julga loucos, afinal “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1Cor 3,19).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1.Evangelho (Mt 5,38-48): Amai os vossos inimigos

“Olho por olho, dente por dente” (Mt 5,38; Ex 21,24) é uma antiga lei, anterior à existência do povo de Israel. Era uma lei de natureza social e não individual. Tinha por objetivo limitar os excessos de vingança de uma tribo contra outra. Israel também aderiu a esse preceito, mas o abrandou bastante com a exigência do perdão (Lv 19,17-18).
No evangelho, Jesus pede a seus seguidores que não resistam a ninguém que lhes cause algum prejuízo. Ou seja, Jesus proíbe aos cristãos resistir ao mal com a vingança. O papel dos cristãos é o combate do mal no mundo mediante a não violência, como fez Jesus na cruz.
“Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás teu inimigo” (Mt 5,43). Passagem alguma da Escritura ordena odiar os inimigos. Essa orientação teve origem em grupo judeu contemporâneo de Jesus. Em um livro, intitulado Regra da Comunidade, encontrado no século passado nas grutas próximas ao mar Morto, os judeus pertencentes ao grupo dos essênios dão essa orientação de ódio aos inimigos: “Ame o que Deus escolheu e odeie o que Deus rejeitou”.
Jesus enfrenta e condena essa postura de seus contemporâneos. Os cristãos devem amar amigos e inimigos sem exceção, pois uns e outros são filhos de Deus, todos são irmãos, todos são próximos.
A aceitação ou a recusa dessa ordem de Jesus são o critério para uma pessoa ser ou não reconhecida por Deus como filha (Mt 5,44-45). Pois, da mesma forma que o filho reflete a fisionomia dos pais, os cristãos devem, nas relações com seus semelhantes, refletir o amor de Deus para com todos os seres humanos.

2.I leitura (Lv 19,1-2.17-18): Amarás o teu próximo como a ti mesmo

A santidade é o principal atributo do Deus de Israel. Em primeiro lugar porque ele é separado, ou seja, não se confunde com a criatura. Nas civilizações vizinhas de Israel, as religiões politeístas confundiam a divindade com vários seres da natureza ou com imagens. Em Israel, ao contrário, um só era reconhecido como Deus criador, os demais eram apenas criatura. É nesse sentido que Deus é separado (santo): o Criador não pode ser confundido com a criatura.
A santidade de Deus era comunicada a todos os que se aproximavam dele ou a tudo o que lhe era consagrado: pessoas, animais, objetos. Tudo o que pertencia a Deus era separado dos demais para simbolizar a unicidade do Criador.
Nesse sentido é que o povo de Israel deveria ser separado ou diferente dos demais povos. Por isso, Israel não deve odiar, mas praticar a exortação comunitária para o crescimento pessoal; não se vingará nem terá rancor, mas amará o próximo. Agindo assim, Israel participava da santidade de Deus e se tornava diferente dos povos vizinhos, que praticavam ações contrárias a esse preceito. Isso significa a existência de uma ética inerente ao monoteísmo que não era encontrada em religiões politeístas, em cujos mitos as divindades praticavam e ensinavam o ódio e o egoísmo.

3. II leitura (1Cor 3,16-23): Vós sois de Cristo

Paulo ensina aos cristãos de Corinto que o único fundamento de sua fé é o Cristo, e não os sábios deste mundo, sejam eles cristãos ou não, pois o que é sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus.
Os cristãos são de Cristo, como Cristo é de Deus. Eles não pertencem ao mundo e, por isso, não devem reger a vida segundo os valores do mundo. Pertencendo a Cristo, os cristãos são templos do Espírito de Deus, como Cristo é o templo de Deus por excelência, lugar do encontro definitivo entre a humanidade e o Criador. Os cristãos, por meio de sua inserção em Cristo pelo batismo, com uma vida dedicada a Deus e ao amor ao próximo, testemunham a presença de Deus no meio dos povos. Ser templo de Deus, pertencer a Cristo, significa ser mediação do amor e do perdão, ser lugar do encontro com Deus. E isso é loucura para o mundo, mas sabedoria de Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O amor a Deus se reflete no amor ao próximo. Nisso consiste a vida cristã configurada a Cristo. Uma vez que o Pai ama a cada ser humano indistintamente, a vocação cristã consiste em amar o próximo não como a si mesmo, mas como Cristo o amou. Somente pelo amor as divisões são superadas, a violência extinta, a fraternidade instaurada. E, com isso, a santidade de Deus será comunicada a todos os povos.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

FELIZES OS QUE ANDAM NA LEI DO SENHOR

Aíla L. Pinheiro de Andrade*

Roteiro Homilético para 6º Domingo do Tempo Comum

I. INTRODUÇÃO GERAL

A fidelidade à Lei de Deus, melhor di- zendo, à Torá ou instrução do Senhor, é um dos temas centrais do Antigo Testamento. O amor e a fidelidade à Lei de Deus cons- tituíam toda a justiça e santidade do povo de Israel.
A Lei de Deus é boa e santa (Rm 7,12). Por isso, a Lei não foi abolida por Jesus, mas sim plenificada (Mt 5,17). Plenificar significa que não basta cumprir a materia- lidade do mandamento, mas se perguntar pela intenção de Deus ao instituí-lo. Não é suficiente uma fidelidade externa, mas faz-se necessária uma fidelidade mais pro- funda, que empenhe mente e coração. Não basta somente uma conduta que todos possam ver, mas uma reta intenção, que brote do mais profundo do coração e da mente, vista somente por Deus. Tal atitude é possível quando se é capaz de deixar-se penetrar pela sabedoria do evangelho,
“misteriosa e oculta” (1Cor 2,7), sabedoria da cruz de Cristo. Isso é andar na Lei do Senhor. Os atos meramente externos cons- tituem um legalismo severamente criticado por Jesus.


II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 5,17-37): Eu não vim abolir, mas cumprir a Lei

Jesus continua o discurso do monte, afirmando que, se o modo de agir, ou seja, se a justiça dos discípulos não for mais exi- gente que a dos escribas e dos fariseus, eles não participarão da construção do reino de Deus. É isso que mostra o evangelho na liturgia de hoje: o cristianismo é muito mais exigente que o judaísmo.
Com o termo “ouvistes” se quer contrapor o ensinamento de Jesus ao ensinamento dos escribas e fariseus. Isso não significa, como muitos pensam, uma substituição do Antigo pelo Novo Testamento. Não se trata do que foi
“escrito”, mas do que foi “ouvido” como ho- milia feita pelos doutores da Lei, os mestres do judaísmo. Trata-se da interpretação de Jesus contra a interpretação dos escribas e fariseus a respeito da Sagrada Escritura.
A novidade da interpretação que Jesus faz da Escritura está na explicitação da intenção de Deus ao dar os mandamentos. Não basta, por exemplo, não matar. Há que evitar as pala- vras de desamor, de desprezo, de ressentimento contra o próximo. Era essa a intenção de Deus ao dar o mandamento “não matarás”.
“Deixa tua oferta diante do altar” (v. 24). No Dia da Expiação (ou do Perdão, ver Lv
16), os judeus confessam os pecados cometidos contra Deus e pedem perdão durante
24 horas. Mas acreditam que os pecados contra o “próximo” devem ser perdoados por quem sofreu a ofensa, e não por Deus; por isso, primeiramente pedem perdão ao próximo para depois se dirigirem a Deus. Jesus faz uma mudança em relação ao ju- daísmo, afirmando que não somente num dia especial, mas todos os dias, os cristãos devem pedir perdão ao seu próximo para depois dirigir-se a Deus.
A compreensão dos escribas a respeito do adultério era diferente no caso da culpa da mulher e da culpa do homem. Enten- diam que a mulher cometia adultério até mesmo sozinha, no coração, quando era casada e desejava outro homem. Cometia adultério quando observava um homem para vê-lo passar ou quando se exibia para ser notada por ele. Se fosse flagrada numa dessas atitudes, poderia ser apedrejada so- zinha, porque seu adultério não dependia do consentimento de um homem. Jesus põe homem e mulher em pé de igualdade. Seja homem ou mulher, cada um comete adultério no coração. A intenção de Jesus é preservar a família e o matrimônio, e não lançar um fardo pesado demais sobre nossos ombros.
Quanto ao juramento, muitas vezes os judeus juravam sem pensar e se obrigavam a agir mesmo se descobrissem ser a vontade de Deus diferente do que foi prometido por juramento. Mesmo assim, algumas pessoas preferiam fazer algo que desagradava a Deus a descumprir um juramento, pois amaldiço- avam a si mesmas quando juravam (ver 1Rs
19,1-2). Por isso, Jesus exorta a não jurar.

2. I leitura (Eclo 15,16-21): Fidelidade é fazer a vontade de Deus

Esse texto da primeira leitura destaca a liberdade de escolha, o livre-arbítrio do ser humano diante da vontade de Deus. O autor bíblico acentua a responsabilidade humana quando decide se rebelar contra Deus.
Quem obedece à vontade de Deus, ex- pressa principalmente na Escritura, tem qualidade de vida. Se todas as pessoas cum- prissem os mandamentos de não roubar e não matar, entendidos em sentido amplo, incluindo injustiças e ofensas, a sociedade de hoje seria menos violenta.
Por isso, afirma o texto bíblico que a vida e a morte estão diante do ser humano para que ele escolha o que deseja. A vontade de Deus gera vida em plenitude, o pecado gera morte. Tanto a vida quanto a morte, enten- didas nesse sentido, são consequências das escolhas humanas.
O ser humano é livre e, por conseguinte, responsável pelas próprias ações. O mal que faz ao próximo não é culpa de Deus, pois “a ninguém Deus ordenou que fizesse o mal, a ninguém Deus deu licença de pecar” (v. 21). Deus nos deu o livre-arbítrio e a capacidade de fazer as escolhas certas.

3. II leitura (1Cor 2,6-10): Uma sabedoria que não é deste mundo

Paulo ensina os fiéis de Corinto a cultivar a sabedoria “misteriosa e oculta” revelada por Deus, que ultrapassa a sabedoria do mundo e dos poderosos.
A sabedoria de que Paulo fala é a cruz, na qual Cristo revela o Deus despojado. Na fragilidade de sua vida humana e totalmente ofertada ao Pai como dom de amor, Jesus desvenda aquilo que Deus “preparou desde toda a eternidade” para os seres humanos: o amor ao extremo. É, pois, na adesão à vida de Cristo que consiste a sabedoria divina, não reconhecida pelos poderosos, porque foge da lógica deste mundo. Somente aquele que se despoja da própria vida será capaz de reconhecer a sabedoria de Deus, que é Jesus Cristo crucificado.


III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Durante muito tempo, se entendeu que fazer a vontade de Deus significava cumprir apenas seus mandamentos de forma rigorosa. No entanto, essa concepção levou muitos a cair num legalismo exacerbado, o que gerou uma moral escravizadora. Ainda hoje muitas pessoas sofrem por causa de certos julgamentos pautados numa visão legalista da Escritura. Mas a proposta de Jesus sempre foi outra. Isso não significa um relaxamento na conduta do ser humano; ao contrário, a proposta de Jesus é exigente, porque mira o interior do ser humano, no qual foi escrita a vontade de Deus. Deus não quer seus filhos escravos, mas livres. E somente no exercício da liberdade o ser humano poderá ser verdadeiramente fiel aos mandamentos divinos.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

VÓS SOIS O SAL DA TERRA

Aíla L. Pinheiro de Andrade*

Roteiro Homilético para 5º Domingo do Tempo Comum

I. INTRODUÇÃO GERAL

O Antigo Testamento apresenta as ações éticas em favor dos necessitados como por- tadoras de luz. “Se saciares os pobres, tua luz brilhará nas trevas” (Is 58,10). Para o evangelho, à medida que souberem apro- priar-se do espírito das bem-aventuranças, os discípulos adquirirão aquela sabedoria sobrenatural que os torna sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14). As ações dos dis- cípulos farão brilhar a luz de Deus, e não sua própria luz: “que, vendo vossas boas ações, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16b). Modelo esplêndido de discípulo de Cristo, sal e luz do mundo, é o apóstolo Paulo. A eficácia de seu apos- tolado não está na “sublimidade de palavras ou de sabedoria” (1Cor 2,1), mas na vida totalmente inspirada no evangelho e confi- gurada a Cristo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 5,13-16): Vendo vossas boas obras, glorificarão a Deus

Terminado o discurso das bem-aven- turanças, Jesus se refere ao papel de seus discípulos no mundo: ser sal e luz. Mas, para que isso seja possível, é necessário se- rem realmente pobres em espírito, mansos, misericordiosos, puros, pacíficos e alegres, apesar das perseguições.
Os cristãos são chamados a transformar o mundo insípido (sem sal), insensato (sem a sabedoria divina) e sombrio (sem a luz de Deus) em reino de Deus, no qual esses valo- res têm a primazia. Contudo, há o reverso da medalha: se os cristãos não tiverem o espírito do evangelho, não servirão para a edificação do Reino.
Tendo a própria vida configurada à vida de Cristo, cada ação praticada no seguimento de Jesus se tornará como que um candelabro a iluminar “todos os que estão em casa”. Será como uma “cidade no alto do monte”, vista por todos os peregrinos cansados a atraí-los para o conforto de uma hospedagem.
Quem segue o Cristo com autenticidade se torna portador de sua luz, pois deixa transparecer na própria conduta a vida e a mensagem de Jesus e atrai todos para Deus.

2. I leitura (Is 58,7-10): Teus atos de justiça irão à tua frente

Esse texto de Isaías trata do que agrada e desagrada a Deus. Especificamente, a vontade de Deus é que o amemos acima de todas as coisas e amemos o próximo como a nós mesmos. Esse é o resumo da Escritura. Os judeus já sabiam disso (Lc 10,25-28).
O pecado consiste basicamente em não fazer a vontade de Deus resumida nesse princípio. Para reatar a amizade com Deus, o judeu oferecia sacrifícios, e, por meio da substituição da vida do ofertante pela vida do animal (a oferta), era mostrado de forma ritual o desejo do ser humano de entregar sua vida nas mãos de Deus.
Estando longe de Jerusalém, impossibili- tados de ir ao Templo, os judeus substituíam o ritual do sacrifício pelo jejum. O jejum e os demais ritos penitenciais eram sinais de sincero arrependimento e expressão de mu- dança radical de conduta (Jn 3,8).
Contudo, esse texto de Isaías, dirigido aos judeus dispersos pelo mundo, reclama da prática do jejum quando outras pessoas estão sem roupa, enfermas, sem alimento, injustiçadas. A verdadeira ação que agrada a Deus não se limita a rituais, sejam quais forem; ao contrário, é necessário voltar-se para o “outro”. Só assim a glória de Deus resplandecerá no mundo.

3. II leitura (1Cor 2,1-5): O anúncio pelo testemunho

Paulo é o modelo de discípulo que, por meio do evangelho, se torna “sal e luz” no mundo. E o mundo que ele evangeliza – aqui especificamente a cidade de Corinto – é um ambiente onde os homens brilham por sua sabedoria e eloquência. No entanto, o pro- jeto de Deus difere do projeto meramente humano, pois a sabedoria divina se revela nos que se deixam conduzir por ele, como é o caso de Paulo. Como ministro do evange- lho, sua pregação se baseia unicamente na força do Espírito, que o conduz segundo o plano divino. Plano esse revelado na “lou- cura da cruz de Cristo”, no qual apresenta o caminho de acesso a Deus. Esse caminho não é o do poder nem o do prestígio ou o da sabedoria, que leva o ser humano a se gloriar de si mesmo. Mas é um caminho inovador, totalmente diferente daquele proposto pelo mundo. Um caminho de oferta total de si nas mãos daquele que é fonte de vida: o Pai. Por isso, Paulo não necessita recorrer à sabedoria humana. Sua vida entregue a Cristo testemunha esse poder e essa sabe- doria de Deus, fonte de salvação para os que creem.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Ser “sal da terra” é testemunhar no mundo a vida em Cristo por uma conduta reta, baseada no amor a Deus e ao próximo. Os rituais que realizamos devem constituir uma expressão dessa vida unida a Deus, teste- munhada na prática dos valores do Reino. Nisto consiste a missão do cristão: temperar o mundo como o “sal” do reino de Deus, para que os seres humanos saboreiem as coisas do alto e, com isso, busquem em Deus o alimento para a vida eterna. Sem isso, os ritos são vazios.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A SALVAÇÃO É ANUNCIADA AOS POBRES E HUMILDES

Aíla L. Pinheiro de Andrade*

Roteiro Homilético para 4º Domingo do Tempo Comum

I. INTRODUÇÃO GERAL

O profeta Sofonias afirma que Deus dis- persará os soberbos e deixará “um resto”
(os remanescentes) de Israel, composto de gente humilde e pobre. Para esses rema- nescentes, Jesus veio trazer a salvação. Por isso, o “sermão da montanha” abre com o anúncio: “bem-aventurados os pobres em espírito” (Mt 5,3). E, já que esse “resto” vive da esperança nos bens eternos, é exatamente esses bens que lhe são prometidos: Deus, seu reino, sua misericórdia e a felicidade eterna. Os que se gloriam em si mesmos já estão repletos dos “valores” contrários ao Reino e não deixam espaço para Deus.


II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 5,1-12a): Bem-aventurados sois vós

No idioma em que Jesus proferiu esse belíssimo discurso, o termo comumente traduzido em português por “bem-aventura- dos” ou “felizes” é também um imperativo dos verbos “avançar”, “seguir adiante”,
“prosseguir”, como aparece em Pr 4,14. Significa uma ordem de batalha em vez de um comodismo. Tampouco é uma utopia, mas trata-se de uma resposta de Deus a todos os que já são injustiçados, persegui- dos, mansos e pacificadores. Significa que eles devem permanecer na luta, pois é certo que verão acontecer o Reino pelo qual eles sofrem tantas injúrias.
As palavras de Jesus também podem ser assim traduzidas: “Que avancem os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus!” Os “pobres em espírito” são aqueles cujas vidas estão apoiadas em Deus, não nos bens materiais. E, já que eles buscam a Deus em primeiro lugar, então sua luta não será em vão, mas alcançarão o que esperam, o reino dos céus.
Os “mansos” são aqueles que, embora atribulados, não agem com violência nem duvidam do amor de Deus por eles. Como não quiseram tiranizar ninguém, então herdarão a terra. Eles são o contrário dos tiranos, que querem conquistar a terra pela violência. E por isso vão usufruir de uma terra sem violência, como desejam.
Os que têm “fome e sede de justiça” são todos os decepcionados com a justiça terrena, que não defende os inocentes e favorece os culpados. Os que têm “fome e sede de justiça” esperam unicamente na justiça divina e não serão decepcionados. Eles alcançarão a vitória, viverão numa terra renovada, alicerçada na justiça.
Os misericordiosos agem como Deus age. Eles serão tratados por Deus com miseri- córdia. E viverão num novo mundo, onde a misericórdia e o amor superam todas as coisas.
Os “puros de coração” são as pessoas transparentes que não enganam, que não são falsas. Elas verão a Deus.
Os que “promovem a paz”, ou que produzem o shalom (que significa paz em sentido amplo, muito mais que ausência de guerras: prosperidade, bem, saúde, in- teireza, segurança, integridade, harmonia e realização), serão chamados filhos de Deus, o verdadeiro doador da paz.
Os “perseguidos por causa da justiça” são os que sofrem perseguição por causa da fé, por causa do evangelho; sofrem pelo Reino e por isso o Reino será deles. Isto é, como tiveram participação ativa na cons- trução do Reino, não serão decepcionados, mas verão o Reino acontecer.
Justiça é ajustar-se à vontade de Deus. No reino dos céus, a vontade de Deus é soberana; e que avancem as pessoas de boa vontade, verdadeiras promotoras dos valo- res do Reino na história.

2. I leitura (Sf 2,3; 3,12-13): Buscai o Senhor, humildes da terra

O termo hebraico de Sf 2,3 geralmente é traduzido por “pobres”, mas a melhor tra- dução seria “humildes” ou “mansos”.
No conceito bíblico, os humildes são, antes de tudo, os israelitas submissos à von- tade divina e por causa disso perseguidos de todas as formas. Tudo lhes é espoliado, seus bens materiais e até mesmo sua vida. Somente não lhes pode ser tirada a confiança que depositam em Deus.
Para Sofonias, o Dia do Senhor consiste na resposta de Deus a esse “resto fiel” de humildes, quando a eles será enviado o Messias; e, segundo outros textos bíblicos, o Messias mesmo será um entre eles (Zc
9,9).
Para a maioria dos profetas, os soberbos de Israel, ou seja, aqueles que estão obsti- nados em não fazer a vontade de Deus, fica- rão dispersos para sempre entre as nações. Contudo, Deus ama o povo de Israel e por isso um “pequeno resto” de israelitas fiéis a Deus sobreviverá e será reunido para a restauração messiânica.

3. II leitura (1Cor 1,26-31): Deus escolheu o fraco para confundir o forte

Paulo, em sua carta à comunidade de Corinto, enfrenta um problema muito co- mum no meio humano: os níveis sociais. O texto sugere que as pessoas simples estão enfrentando o preconceito daquelas que, na comunidade, pertencem a classes mais abastadas.
Paulo explica que a dinâmica de Cristo é diferente da empregada pelo mundo. O que seria loucura para o mundo é, no reino de Deus, sabedoria. E o que é fraqueza para o mundo, para Deus, é fortaleza. Aqueles que estão repletos dos valores contrários ao Rei- no e se gloriam em si mesmos não se abrem para Deus, porque põem sua confiança na- quilo que são e nos bens que possuem.
Mas os cristãos devem gloriar-se no Se- nhor, que os escolheu e realizou neles a salva- ção operada em Cristo por pura gratuidade, por puro dom de seu amor, e não porque eram importantes “aos olhos do mundo”. Desse modo, as pessoas simples da comu- nidade de Corinto são bem-aventuradas, porque seu único bem é apenas Deus.


III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A liturgia de hoje propõe o tema dos humildes, aqueles que põem sua confiança somente em Deus. Aos humildes é chegada a salvação, porque souberam reconhecer em Jesus Cristo a realização da promessa. É na vida e missão de Jesus, o Messias hu- milde, que se efetiva a salvação esperada. Nele realizam-se todas as bem-aventuran- ças. Ele nada possuía, Deus era sua única riqueza. Até sua vida foi tirada por causa de sua fidelidade, mas Deus respondeu à fidelidade de Jesus, ressuscitando-o dos mortos. Tal sabedoria, escondida aos olhos dos grandes deste mundo, foi revelada aos pequenos e fracos, aos humildes de Deus.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

VÓS SOIS A MINHA LUZ E A MINHA SALVAÇÃO


Aíla L. Pinheiro de Andrade*

Roteiro Homilético para 3º Domingo do Tempo Comum

I. INTRODUÇÃO GERAL

Mateus, ao iniciar a narrativa da ati- vidade apostólica de Jesus, viu a profecia de Isaías tornar-se realidade perante seus olhos. A luz que ilumina a Galileia e de lá se difunde para o mundo inteiro é Cristo e o Reino por ele anunciado. Cristo e o Rei- no são inseparáveis. O início da pregação de Jesus é que o Reino está próximo, não porque está chegando, como afirmava o Batista, mas porque está ali ao lado, o Reino está em Jesus. A vocação dos apóstolos e a cura das enfermidades são sinais de que o Reino chegou e sua luz está se expandindo e dissipando as trevas do pecado e do mal. A resposta imediata e o generoso abandono das redes por parte dos primeiros discípulos significam que a propagação desse reino é urgente. Na atividade missionária, há mui- tos carismas e ministérios que não devem ser concorrentes, pois a todos foi dado o mandato de anunciar o evangelho de formas diversificadas.


II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 4,12-23): O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz

O tema da luz, já mencionado na narra- tiva da infância de Jesus, continua aqui, no relato inicial de sua atividade na Galileia. A atuação pública de Jesus apresenta-se como realização das promessas de Deus para salvar seu povo. As cidades de Zabulon e Neftali, que, no Antigo Testamento, estavam dominadas pelos estrangeiros, representam agora a realização da profecia messiânica. Deus realiza a salvação prometida: uma luz surge onde há sombras e trevas, porque o reino de Deus está próximo, está presente no Cristo.
Na atuação de Jesus na Galileia, cidade miscigenada por diversos povos que viviam nas trevas do pecado e do politeísmo, a luz começa a brilhar e se expandir, pois o reino de Deus é anunciado. A cura dos en- fermos testemunha a expansão desse reino. Mas esse é só o início, pois o Reino deve ser anunciado a todos os povos. Por isso, o apelo de Jesus é forte, o chamado dos apóstolos é urgente. Para que a luz chegue a todas as nações, é necessário que os cristãos se empenhem em responder prontamente ao chamado de Cristo, como fizeram os apóstolos, que, deixando suas redes de pesca, o seguiram.

2. I leitura (Is 8,23b-9,3): Aos que viviam na sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz

A Galileia era sempre a primeira região a sofrer os estragos provocados pelos im- périos estrangeiros que guerreavam contra a terra de Israel. Isso porque era uma rota mais acessível que o deserto ou o mar Me- diterrâneo.
Além de ser a primeira região a sofrer o ataque dos inimigos, a Galileia é a região por onde o povo de Israel foi deportado para o estrangeiro. Por isso, as expectativas messi- ânicas concentravam a atenção na Galileia como cenário da primeira manifestação da luz messiânica, já que seria a primeira região a receber a libertação, como antes tinha sido a primeira a experimentar a escravidão.
O “caminho do mar” ficava na região da Galileia. Era uma estrada entre a terra de Neftali (ao norte) e a terra de Zabulon
(ao sul). Os judeus acreditavam que nessa estrada se manifestaria o Messias, trazendo de volta para a Terra Prometida os judeus dispersos pelo mundo. Essa região sombria, testemunha de tantos sofrimentos, conver- ter-se-ia em cenário de alegria. Porque o cetro (o poder) dos inimigos seria totalmente destruído pelo Messias. A vitória messiânica é apresentada em analogia com o “dia de Madiã”, quando Gedeão venceu o inimigo de modo excepcional (Jz 7,16-25).

3. II leitura (1Cor 1,10-13.17): Cristo me enviou para pregar o evangelho

Paulo agradece a Deus por não ter bati- zado nenhum coríntio. Isso não significa que desvalorize o batismo, mas apenas que rece- beu outro encargo, a pregação do evangelho aos gentios (os não judeus). Encargo que ele exercia com base no conteúdo fundamental do evangelho e não na eloquência da retóri- ca (sabedoria das palavras), tão valorizada pelos coríntios. A vida, morte e ressurreição de Cristo constituem o núcleo básico (o conteúdo fundamental) da proclamação do evangelho, e nisso Paulo desejava que os coríntios concentrassem toda a atenção.
Além do uso da retórica, os destinatários também supervalorizavam alguns missioná- rios. Isso causava sério problema de divisões dentro da comunidade. A formação de grupos e a antipatia entre eles impediam a unidade da comunidade.
Com a expressão “vós sois de Cristo”, o apóstolo condena o partidarismo dentro da Igreja. Pelo batismo, os cristãos se iden- tificam com Cristo, não com o ministro que está a serviço da comunidade. Já que a Igreja é o corpo de Cristo, não deve estar dividida sob nenhum pretexto.


III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Enfatizar a união dos membros da Igreja. A unidade na Igreja não pode ser entendida como simples união de pessoas afins ou com os mesmos ideais, como se fossem membros de um sindicato ou partido político. É algo mais profundo. É uma união misteriosa; em palavras teológicas, é uma união mística. Mas não metafórica, e sim vital e real, que supera todas as realidades que causam a di- visão. Cada membro é distinto dos demais e os carismas são diversos, mas isso não significa divisão, e sim que Deus respeita a identidade de cada ser humano. A união entre os diversos membros da Igreja é como o feixe de luz, cuja diversidade não é notada a olho nu, mas no prisma ou no arco-íris é visto em cores variadas. A união na Igreja deve-se ao Espírito Santo presente como vínculo que une e vivifica cada membro em função da edificação do reino de Deus. Se há divisão entre os membros da Igreja, isso significa que as trevas do pecado es- tão tomando o espaço destinado à luz. A unidade na Igreja é luz que irradia para o mundo a fraternidade universal instaurada por Cristo.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.