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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

Roteiro Homilético para a Solenidade de Pentecostes



I. INTRODUÇÃO GERAL

O Espírito Santo é fonte e força do amor mútuo. É também sinal de que estamos vivendo um novo tempo. Jesus culminou o caminho dele aqui na terra e foi glorificado por Deus Pai, mas não nos deixou sozinhos: deu-nos o mesmo Espírito que o ungiu e o animou na missão.

A missão do Espírito que nos foi dado nos leva à verdade completa, faz-nos entrar em comunhão com os seres humanos e com Deus. O Espírito é presença de Deus nos caminhos da história por meio da Igreja, que é movida por ele. Ao unir os seres humanos no amor, o Espírito nos dá a certeza do que será no final dos tempos, a comunhão plena no Reino de Deus. Por causa desse amor que nos põe em comunhão, há partilha dos bens, há oração sincera, há evangelização. Em função da comunhão, o Espírito nos faz falar e compreender todas as línguas, porque a língua universal é o amor e sem ele somos apenas “sinos que retinem” (1Cor 13,1). Por isso, crer no Espírito significa crer no futuro da vida, na renovação radical de toda a terra, no caminho do amor que supera as dificuldades deste mundo e nos dirige ao amor em plenitude.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Jo 20,19-23): Recebei o Espírito Santo

O texto do evangelho de hoje enfatiza desde o início o aspecto da comunhão: era o primeiro dia da semana, o dia do Senhor, e os discípulos estavam reunidos. As portas fechadas simbolizam o medo da hostilidade existente lá fora. São os inícios de uma Igreja que vive a fragilidade e as dúvidas, que necessita da presença do Senhor. Mas Cristo ressuscitado está com eles, sua presença se faz visível e ele coloca-se no centro, no meio deles.

“A paz esteja convosco!” é o início do diálogo por iniciativa do Ressuscitado. Os discípulos têm medo, e isso os deixa desconfiados. Mas Jesus os conforta com sua palavra e presença sensível, é o verdadeiro mestre que eles haviam seguido, possui as chagas que são os sinais gloriosos de sua vida terrena. Quem faz a experiência com o Ressuscitado sabe que ele não é uma fantasia.

Os discípulos estão reunidos como Igreja, e o Cristo lhes oferece o perdão e lhes envia em missão. Antes de tudo, a Igreja é a comunidade que recebe o perdão de Cristo e o distribui ao mundo. Evangelho e perdão não estão separados, pois a “boa notícia” que a Igreja dá ao mundo é que, em Jesus Cristo, o ser humano está perdoado por Deus, pois o Filho de Deus triunfou sobre a causa do pecado, a saber, o egoísmo.

A um mundo atormentado por injustiças, guerras e violências, Cristo oferece a paz fundadora e criadora que combate a raiz do pecado. A uma comunidade fechada por causa do medo, o Cristo estende a graça da vida dele, tornada princípio da missão universal. Jesus é a paz para aqueles que o recebem e para todos.

A Páscoa torna-se Pentecostes, pois o Ressuscitado sopra sobre seus discípulos dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Um gesto que alude a uma nova criação, uma vez que, no princípio, Deus havia soprado sobre o ser humano, tornando-o ser vivente (cf. Gn 2,7). Agora o gesto de Jesus nos indica que o Cristo pascal leva ao ápice a criação que fora começada.

O Evangelho de João une Páscoa e Pentecostes em um mesmo mistério: a manifestação pascal de Cristo se torna efusão do Espírito do Ressuscitado sobre a totalidade da Igreja. A Páscoa significa que a morte de Jesus pela humanidade abre um caminho de amor e de transformação do mundo. E Pentecostes é o dom da Páscoa, é ter o mesmo Espírito de Jesus, é viver à luz do mesmo sopro vital que o animava.

2. I leitura (At 2,1-11): Todos ficaram cheios do Espírito Santo

Os discípulos, em grande número, estavam reunidos, perseveravam em oração enquanto aguardavam a vinda de Cristo, a qual associavam com o fim dos tempos. Ali onde esperavam o julgamento divino sobre o mundo, tiveram a grata surpresa de participar de uma ação que era exatamente o contrário do que pensavam. De fato, os profetas haviam previsto um derramamento do Espírito no final dos tempos, e unido a isso aconteceria o julgamento das nações e grandes catástrofes da natureza (como está escrito em Joel 2,28-32, citado em At 2,17-21).

Reunidos em oração, estavam dispostos a enfrentar o julgamento de Deus sobre as nações e morrer num grande acontecimento cósmico que revelaria a glória de Cristo. Mas o que aconteceu com a efusão do Espírito foi a comunhão entre todos os povos e culturas, a comunicação eficaz entre as línguas diferentes. Num primeiro momento, podemos pensar que a experiência de comunhão dá-se em plano limitado, no interior da comunidade; no entanto a comunhão realizada em Pentecostes transborda as limitações religiosas e nacionais e se expande ao longo de toda a terra.

Muitas leituras atuais desse texto bíblico enfatizam a experiência com o dom de línguas. Até mesmo se denominam de pentecostais grupos e igrejas que fazem algum tipo de experiência atribuída ao Espírito Santo. Mas se lermos atentamente esse texto, veremos que se trata de um dom para a evangelização, para a missão, para a expansão da comunidade, e não para o crescimento pessoal com conotações de verticalidade na experiência espiritual. Nesse texto não se afirma que os membros da comunidade oraram em línguas (como é mencionado por Paulo com relação a uma prática da comunidade de Corinto). O texto diz que as pessoas falavam idiomas diferentes e todos se compreendiam; o oposto da narrativa sobre a torre de Babel. O enfoque no dom de línguas vem do termo “línguas estranhas”, que significa o mesmo que “línguas estrangeiras”. Além da possibilidade de evangelização do mundo inteiro, porque o Espírito Santo capacita a Igreja para proclamar o evangelho em todas as culturas e idiomas, vemos nesse texto a comunhão entre todos os seres humanos, a unidade na diversidade.

O Espírito supera as velhas divisões entre os seres humanos. Ultrapassa as estruturas arcaicas da sociedade fundada em princípios de imposição dos mais favorecidos sobre os mais frágeis. A partir de Pentecostes, os seres humanos podem vincular-se por meio da graça de Deus, com base no dom do Espírito. A comunhão de todos os povos, que a partir de agora se realiza, é sinal e presença dos tempos escatológicos, meta da história humana que caminha para Cristo. A história humana, repleta de competições e de opressão de uns sobre os outros, realiza uma trajetória, marcada pelo Espírito do Cristo ressuscitado, para a comunhão plena de toda a humanidade num Reino de fraternidade e de paz.

3. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13): Batizados num só Espírito e formando um só corpo

O Espírito de Cristo une os seres humanos, a partir de Deus, em perdão e comunhão, por aquilo que são e não pelo que têm ou fazem. Até então não tinha havido nenhuma comunhão real, mas concorrência e competição, busca de influência, enfim, divisão generalizada. Agora, e somente agora, a partir da unidade de Cristo que nos torna irmãos, filhos do mesmo Pai, começa a história da graça que une a todos no amor e na liberdade. Há distribuição de carismas, mas é o mesmo Espírito; diversidade de ministérios, mas é o mesmo Senhor; divisão de tarefas, mas é Deus que opera tudo em todos. O Espírito é um só e une todos os seres humanos numa comunidade que não se baseia na pura experiência interior, em ideias ou princípios gerais, mas na comunhão e na confiança mútua.

O Espírito congrega pessoas muito diferentes umas das outras que, em vez de fazer concorrência entre si, se servem mutuamente e são felizes em realizar isso no amor. Trata-se de uma comunhão realizada pelo próprio Deus, e não por meio de um cooperativismo à maneira de um sindicato ou clube que une pessoas pelas tradições, costumes sociais ou culturais. Como o corpo é um só e tem muitos membros, assim é Cristo. Porque todos nós fomos batizados num só Espírito, formando um só corpo.

A comunhão realizada pelo Espírito Santo não se apoia em tradições sagradas nem em laços que vinculam as pessoas por aspectos culturais, econômicos ou políticos. Os cristãos não formam uma nação, um estado. A comunidade cristã tampouco é uma associação cultural, um clube espiritual, uma ONG com fins delimitados. A comunidade cristã quer suscitar uma comunhão não governamental ou política, mas de vida entre todos os seres humanos, fundada no Cristo.

Os cristãos querem formar uma comunidade de amor universal, em gratuidade, a partir dos mais pobres e excluídos, abrindo-se a todos os povos da terra, sem empregar meios de poder político-militar ou qualquer tipo de imposição.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Há um tipo de vida que é morte, feita de lutas e concorrências, de inveja e egoísmo. Mas há um tipo mais elevado de vida feito de doação, gratuidade, acolhida, comunhão… Essa é a vida que se desvela na trajetória da Igreja, a vida do Espírito. A Igreja, comunidade fundada na comunhão realizada pelo Espírito, não propaga a exclusão, ao contrário, distribui o perdão que vem de Deus. Não nega o perdão a ninguém.

A Igreja somente pode ser considerada comunidade de Jesus se é sinal e fonte de perdão e, portanto, de inclusão. A própria Igreja expressa o perdão, encarna-o e o anuncia ao mundo. Portanto, onde o perdão é oferecido há perdão, e onde a Igreja mostra que não há perdão isso ocorre porque as pessoas ainda se afrontam e se confrontam. Somente onde a luta por justiça ainda não chegou ao seu término e quando a justiça ainda não tenha sido instaurada é que a Igreja retém o perdão, para que se possa realmente continuar lutando até edificar um mundo justo de paz e fraternidade universais.

Publicado originalmente em: http://vidapastoral.com.br/roteiros/24-de-maio-pentecostes/


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* Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

terça-feira, 7 de junho de 2011

“RECEBEI O ESPÍRITO SANTO”

Rita Gomes, NJ*

1. Introdução
Em nosso tempo o fascínio pelo sagrado como fuga de uma realidade fragmentada nos leva a perceber uma distorção da compreensão de Deus e de sua ação em nossa história que se revela através de Jesus Cristo, bem como uma ideia estranha da ação do Espírito Santo. Esse passou da imagem singela da pomba sem papel muito claro ao fazedor do impossível, de portentos e milagres. Do esquecimento passou ao primeiro plano de modo confuso. Qual Espírito e qual seu lugar e missão na vida da Igreja? A resposta a esta e a outras dúvidas buscamos no testemunho escriturístico e na liturgia da Igreja.

2 Conhecendo os textos
A primeira leitura nos fala a ação do Espírito Santo sobre a Igreja nascente para formar o novo povo de Deus na unidade. A segunda leitura indica a ação do mesmo Espírito para sustentá-la na diversidade criativa. Já o evangelho nos dá a chave de compreensão das leituras anteriores ao revelar-nos a relação de continuidade de ação entre o Filho e o Espírito em vista da Igreja.

2.1 Espírito Santo – dom do Crucificado-Ressuscitado
O evangelho de hoje nos recorda a continuidade relacional entre Jesus o Cristo, o Espírito e a Igreja. A primeira afirmação evangélica é que o Ressuscitado, doador do Espírito, é o mesmo que foi crucificado. Tal afirmação é marcada pela demonstração que Jesus faz de suas mãos e de seu lado. Ao fazer isto recorda as chagas dos cravos e o ferimento de lança infligido pelo soldado. A sequência da narrativa é simples, após recordar que foi enviado por Deus doa o Espírito aos discípulos. Jesus foi enviado por Deus e auxiliado em toda sua obra pelo Espírito que se torna agora o dom do Crucifidado-Ressuscitado para a Igreja. Ao enviar o Espírito sobre os apóstolos se confirma a continuidade de uma relação de amizade, de aliança de Deus com a humanidade selada pelo Cristo no Espírito. É o Espírito que agora sustenta e inspira a Igreja em sua ação.

2.2 Um só Espírito - um só povo
Dois pontos merecem atenção na primeira leitura. O primeiro é a unicidade do Espírito. Um só é o Espírito que pousa, mas se distribui sobre todos como línguas de fogo. O segundo é o dom da unidade linguística. A relação de unidade que marca a presença do Espírito sobre a Igreja é marcada na segunda leitura pela compreensão por todos, independentemente da língua materna de cada ouvinte, da mensagem transmitida pelos apóstolos. Essa comunhão espiritual se torna ainda mais compreensível pelo contraste com a leitura da “torre de babel” (Gn 11,1-9) em que a diversidade de línguas marca a divisão, já que ninguém se entende, entre povos separados. Aqui há a formação do povo de Deus que não é demarcado pela língua falada e pela origem geográfica, mas pelo Espírito que os une. A identidade do novo povo de Deus vem da conformação ao Cristo pelo dom do Espírito.

2.3 Um só corpo
Enquanto na primeira leitura vemos a ação do Espírito sobre a Igreja nascente em relação aos outros povos e culturas, a segunda alerta-nos para a compreensão da ação do Espírito no interior mesmo do povo de Deus. O Espírito não é só unidade, mas também diversidade. Paulo lembra a unidade de origem dos dons (o Espírito) e a diversidade de manifestação (carismas). A comunhão não significa unidade indiferenciada, mas cooperação mútua, uma vez que somos um único corpo. No fim, a origem última é Deus, por Cristo no Espírito. Um só e mesmo Espírito opera tudo em todos. Embora não use uma terminologia trinitária evoluída, o pensamento trinitário se apresenta claramente, pois Paulo fala dos três: Espírito, Senhor, Deus correspondendo ao Espírito Santo, Jesus (o Filho) e o Pai.

3 A palavra se faz celebração
A Páscoa enquanto compreende vida-morte-ressurreição de Jesus Cristo completa seu ciclo com o Pentecostes. Em todo o Mistério Pascal nos é dado conhecer a ação salvadora de Jesus Cristo, enviado do Pai, movida pela força do Espírito. É pelo Espírito que podemos confessá-lo nosso Messias-Salvador. Após sua morte e ressurreição nos dá seu Espírito para continuarmos sua missão, fazermos o Reino de Deus presente. O importante a marcar aqui é a pessoa do Espírito Santo. Na Escritura encontramos ao menos três referências ao Espírito que são dignas de nota: Espírito de Deus (mais comum no AT), Espírito de Cristo e Espírito Santo (NT). A primeira referência marca o Espírito do Pai que sustenta e move seu Messias e o Espírito de Cristo, o dom do Ressuscitado para a Igreja. Mas, não se trata de outro espírito. Para expressar a identidade do Espírito do Pai e do Filho, Xabier Pikaza recorre ao esquema calcedoniano[1] das duas naturezas do Cristo (humana e divina). Assim, o espírito do Pai que se autodoa a Jesus, fazendo-o surgir como seu Filho e o espírito de Jesus, o Filho, que se entrega ao Pai, são um e o mesmo[2]. Esse mesmo Espírito é enviado pelo Filho em Pentecostes à Igreja. Assim com a solenidade de Pentecostes celebramos plenamente o mistério de nossa salvação. Em Jesus somos feitos filhos no Filho, fazemos parte da vida divina.

4. A palavra fala-nos hoje
Longe de querer negar o “poder” do Espírito Santo para operar milagres e prodígios em nosso meio, queremos ressaltar que não é próprio da revelação de Deus em Jesus Cristo, uma ação portentosa. Jesus nos revelou o Deus que é trino, Pai- Filho – Espírito Santo não numa exaltação, mas num agir discreto e passando pela cruz. O poder de Deus se revela no amor e na misericórdia diária que faz com que todo aquele que é movido pelo Espírito não viva só para si, mas em vista da vida para o outro. O Espírito testemunha o messianismo do crucificado e impulsiona a Igreja a seguir o mesmo caminho de humildade e potência amorosa.



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* É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação em filosofia pelo Instituto Teológico e Pastoral do Ceará - ITEP, atual Faculdade Católica de Fortaleza – FACAF. Possui ainda graduação e mestrado em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. É membro da Comissão de Publicações do Vicariato Pastoral da Arquidiocese de Belo Horizonte. O texto que aqui se encontra foi publicado no Caderno "Homilias e Sugestões" da referida comissão com algumas modificações.

[1] Referência ao IV Concílio Ecumênico realizado no ano 451 em Calcedônia.

[2] Pikaza, Xabier. El Espíritu Santo y Jesús: Delimitación del Espírito Santo y relaciones entre Pneumatología y Cristología. Salamanca: Secretariado Trinitario, 1982, p. 43.